Plágio 34: a importância da Arte

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Não poderia deixar passar em claro o que é um extraordinário e lúcido exercício de reflexão sobre a Arte e o papel da criação artística na sociedade de hoje, dado a conhecer por um cliente aqui do Margoso. Como é um texto muito extenso, não o vou publicar por inteiro, mas fica o link para quem estiver realmente interessado. O título deste texto é o seguinte: "A importância da Arte na construção de uma nova sociabilidade» e o seu autor João Garção, licenciado em História de Arte. Uma agradável surpresa.

Utilizem um pouco do vosso tempo para lê-lo, porque vale a pena.


1. Introdução

(...) Aparentemente limitada à consideração de uma pintura de grandiloquente e medalhado estilo académico, a capacidade analítica e estética de Leroy, se acaso existia, não conseguiu ganhar asas e, perante a novidade, o inesperado e o diferente, não procurou voar e tentar saber “o que está para além da montanha”, para utilizar a feliz expressão do escritor Rudyard Kipling. (...)

Longe de ser um fenómeno especifico da História da Arte, este enfoque contrário à inovação, à diferença, à singularidade e à liberdade expressiva é uma constante na história da Humanidade. A sua incidência no campo artístico, no entanto, tem sido frequente devido precisamente, ao facto de a Arte ser um veículo privilegiado de comunicação entre os indivíduos. (...)

Contudo, paralelamente às diferenças evidenciadas pelas diversas realizações artísticas, é também detectável a permanência do mesmo impulso criador, o que deverá ser salientado. Isto é, verificamos que nenhuma Civilização existiu sem produzir a sua própria Arte. Este parece ser um facto inerente à condição humana. Mas, sendo assim, que necessidade pretenderá, então, satisfazer? A meu ver, busca a satisfação de uma função mental e espiritual que assenta na necessidade de se terem respostas ao nível da comunicação qualificada. Já o pintor Delacroix o disse a respeito da pintura, referindo-se a esta como “uma ponte lançada entre as almas”. Beethoven, na música, e Rimbaud, na poesia, exprimiram-se em termos semelhantes. Cito um antigo ministro francês da Cultura, de seu nome André Malraux: “ A Arte e a Civilização uniram a Humanidade num laço apertado, se não eterno, e contribuíram para fazer do Homem algo mais do que um sobrecarregado habitante de um Universo absurdo”. Podemos dizer que, sob esta perspectiva e em certa medida, a Arte acaba por ser a respiração da mente. (...)

Assim, verifica-se que uma efectiva “obra de Arte” apresenta sempre as seguintes condições reais:

1º - qualidade formal - ou seja, grande qualidade na inter-relação dos elementos formais que constituem essa obra;
2º - originalidade conceptual - ou seja, essa obra tende a estar concebida de forma original;
3º - profundidade filosófica específica - por outras palavras, as mensagens que transmite estão longe de serem superficiais. Pelo contrário, expressam um sistema de ideias estruturado com uma certa robustez.

Estas três condições são alicerçadas nas seguintes características do autor:

1º - bom conhecimento dos meios que utiliza;
2º - espírito criativo inovador;
3º - persistência na expressão das suas propostas.


2. Arte é Construção

O Artista é pois, no seu âmbito de acção, um verdadeiro demiurgo, ou seja, um construtor de mundos até então ignorados - e isto tanto para a Pintura como para o Teatro, tanto para a Arquitectura como para a Música, ou para qualquer outra disciplina. A afirmação de si mesmo e da sua individualidade criadora, o seu desejo de permanência expressando a luta eterna entre a Vida e a Morte; a sua vontade de partilha (pois a Arte também combate a solidão); o seu espírito inovador em maior ou menor grau; e, finalmente, as suas próprias interrogações e reflexões, conferem à “obra de Arte” um cunho profundamente pessoal e imbuído de uma linguagem simbólica específica. Treinando-se para compreender mais de si mesmo e do quotidiano que o rodeia, por forma a poder expressar cada vez melhor e mais fielmente a sua ‘Verdade’, o Artista expande não apenas os seus horizontes próprios mas possibilita-nos também a nós - espectadores, observadores, leitores ou ouvintes - que expandamos também os nossos, o que levou o escritor Marcel Proust a dizer, com justeza, que “o prazer que o artista nos dá é fazer-nos conhecer um universo mais”.


3. Arte é Necessidade

(...) Não será um Artista verdadeiro aquele que constranger o seu talento para agradar a facções, a grupos ou a modas ou que forneça produções artificiosas tendo em vista conseguir vastos proventos à custa de ingénuos ou de novos-ricos ou que busque apenas o reconhecimento de largos sectores populacionais frequentemente alienados por manipulações sociais. Ou seja, o Artista autêntico deverá ser dotado de corajosa persistência de molde a poder resistir a ambientes habitualmente adversos. (...)

Em função daquilo que já disse, tornar-se-á evidente que aquilo que nela o Artista deseja explanar é, prioritariamente, a sua Ideia, isto é, elementos (ou mesmo a totalidade, aí sintetizada) das suas concepções existenciais. Os meios expressivos são uma consequência, evoluindo a partir dessa mundividência. A inexistência, no Artista, de uma profundidade filosófica específica a que já aludi, traduz-se inevitavelmente na pura reprodução mecânica de uma linguagem plástica adoptada de outrem, a qual foi aprendida e mesmo, eventualmente, compreendida, mas que lhe não é própria. Uma obra nestas condições não é uma obra “viva”, mas sim “morta”. (...)

Isto conduz-nos ao terceiro ponto que há que considerar: aquilo a que habitualmente se chama “o público”. Esta denominação, talvez cómoda, é, afirmemo-lo desde já, profundamente incorrecta pois, na verdade, não existe “o público”: existem “públicos”. “Isto é óbvio”, podereis dizer-me com razão. Contudo, tal perspectiva generalizadora e unitarista é inúmeras vezes afirmada para salientar um acentuado divórcio entre os Artistas, a Arte e os seus possíveis receptores, o que tem contribuído para, paulatinamente, se radicar nos espíritos a ideia de que a Arte é um produto de difícil acesso apenas destinado a uma elite, mais ou menos endinheirada, a qual, tendo satisfeitas as suas elementares necessidades materiais, dispõe então da oportunidade de se deleitar na ociosa contemplação de tais criações.

Urge que repudiemos este equívoco tão divulgado com intuitos que provêm de uma certa má-fé. Evidentemente que a satisfação das necessidades materiais pode assegurar a disponibilidade espiritual necessária ao estímulo da compreensão da obra de arte e ao crescente refinamento do gosto, da sensibilidade e da inteligência cultivada. No entanto, verdadeiramente fundamental na adesão ao prazer superior que a boa obra de arte proporciona é a disponibilidade interior de base que o eventual receptor pode cultivar, no sentido de aprofundar, com maior ou menor dificuldade da sua parte, as condições mentais que lhe permitam fruir as propostas artísticas. E estas coordenadas interiores têm menos a ver com condições sócio-económicas do que com uma adequada atitude perante a Arte. Aliás, diria mesmo que a boa situação económica dos indivíduos conta menos do que se pensa, na medida em que, muitos destes, quando se interessam pelo fenómeno artístico, são geralmente muito mais atraídos por modas e por outros ditames propiciados pela sociedade, ligados à superficialidade do culto das aparências e da publicidade, do que propriamente por um apelo interior derivado da sua condição humana de sujeitos detentores de capacidade estética ligada à sensibilidade e ao intelecto.

Quero com isto dizer que a incompreensão a que o artista inovador tem sido votado decorre inúmeras vezes do facto de as pessoas não terem ainda aprendido a ler os seus trabalhos, condenando imediatamente aquilo que, para elas, é invulgar, porque apenas diferente do que lhes é habitual. E esta rejeição tanto pode derivar do facto de o espectador se sentir inferiorizado ante aquilo que é diferente e que ainda não consegue decifrar, como pode ser consequência de um néscio sentimento de altaneira e vaidosa superioridade perante o inesperado, optando a pessoa, neste caso, por - de forma deliberada - não procurar compreender a novidade. Existe um tipo de público para quem a sua experiência no contacto com a Arte fossilizou a dada altura, impossibilitando a análise e a interpretação da obra que ainda não faz parte - e poderá nunca fazer - do seu espaço mental e das suas vivências, razão porque aquela criação é rejeitada ou, na melhor das hipóteses, olhada com desconfiança. (...)

A Arte necessita de ser lida, de maneira a não captarmos apenas a sua forma mas também a sua ideia, isto é, toda a estrutura ideativa subjacente à forma por nós imediatamente perceptível. Saber ver é muito diferente do apenas limitarmo-nos a olhar, exige mais esforço mas é, igualmente, bem mais gratificante. (...) O importante é aceitar ou rejeitar com conhecimento de causa e não por mero capricho ou provincianismo. E, de acordo com esta perspectiva, facilmente se compreenderá que o papel desempenhado pelos educadores poderá ser absolutamente decisivo na formação artística dos sujeitos e, logo, na construção de uma cidadania completa que, por isso mesmo, rejeite preconceitos e acredite na possibilidade do aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades.


Leiam o artigo completo aqui

(Obrigado RB)
Imagem: pintura de Pollock


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2 comentários:

Anónimo disse...

Esta questão é muito estimulante.
Ouvindo ontem o António Damásio (em entrevista à RTP) a dissertar sobre as suas actuais preocupações resultantes das diferenças de evolução do nosso cérebro cognitivo face ao emocional, pensei que talvez a neuro-ciência nos ajude a dar explicação a estas nossas inquietações relativas à importância da arte. Dizia ele que o cérebro cognitivo é infinitamente mais rápido que o emocional que, se não for correctamente treinado, pode deformar uma personalidade e colocá-la à mercê de manipulações emocionais. Então, pergunto eu: Pode ser arte algo que não nos estimula o cérebro emocional? Se não, pode ser arte as manipulações de emoções provocada por mecânicas idênticas às da publicidade? Pode ser arte os exercícios resultantes de processos cognitivos acelerados e experimentalistas? E lembrei-me então da “experiência Tuymans“ que pode ser vista aqui no Youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=96TyAQ7KnVQ.

Vamos continuar a comentar.
B.

João Branco disse...

Sem dúvida, B, muito interessante. Um abraço e volta sempre!