Tertúlia dos Mentirosos 57

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Poeta

(Pega num livro e lê) Smerdiakov enforcou-se. E daí? (Atirando o livro para longe, furioso) Smerdiakov era um corpo sem alma, uma garganta sem voz, um poço sem água, uma besta, um vegetal, um mineral; ao passo que eu... bem... eu... sou capaz, tenho ideias, sentimentos, imaginação. Ele era um zero à esquerda, enquanto que eu... bem... tenho uma cabeça, um coração, uma garganta. Que desejos, que pensamento, que sonhos tinha Smerdiakov? Nenhuns! Amava alguém? Não. Ao passo que eu... interrogo, ouço música, busco... o quê? Putas, conhaque... Ah o gozo, a alegria! E a seguir? Ah meu Deus! O asilo dos velhos, o hospício dos loucos! 

Ah Demónio, venha a corda! O quê? Espera um pouco, ainda respiro, há perguntas a responder, galáxias a explorar, há que explicar o universo! E a seguir? Apodreço. Acabo. Traz a corda, depressa! E a seguir, a cova, a podridão. Estou exausto, venha a corda! Estás a ouvir, Demónio, traz a corda!

Arménio Vieira in No Inferno



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2 comentários:

Anónimo disse...

Apesar de haver por aí muitos que barafustam contra os "blogueiros/poetas", como se a poesia fosse algo de blasfemo e indecentemente a-real (e eu à vontade porque não pertenço a qualquer dessas categorias, pelos vistos antagónicas), sempre direi:

"Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria..."

(Álvaro de Campos, in "Poemas")

a) RB, anónimo por obrigação

João Branco disse...

Fantástico. E aqui, RB, és muito apreciado. Acredita!