Declaração Cafeana

17 Comments


A reacção de um artista cabo-verdiano ao comentário de um outro artista cabo-verdiano que cometeu o supremo atrevimento de dar a sua opinião sobre o trabalho do primeiro, acabou por fazer estalar o fino verniz da capacidade de aceitar críticas e opiniões alheias, que toda a gente sabe ser de péssima qualidade, mas que todos assobiam para o lado, até ao dia em que alguém tem o supremo atrevimento de nos criticar a nós, e então nos lembramos como esse supremo atrevido é medíocre, retardado, convencido entre outros mimos que vamos acumulando na nossa enciclopédia pessoal da má língua.

Não está aqui em questão a arte de um ou de outro. Tenho, como é evidente, a minha opinião sobre isso, mas pela amostra, vou mesmo guardá-la para mim. O que está em questão é o terrível sintoma que tudo isto representa. Um sintoma de uma sociedade doente, intolerante e, pecado dos pecados (sim, vou dizer!), provinciana.

Claro que podemos dizer: há formas e formas de criticar. Mas convenhamos que não li nada de tão ofensivo que justificasse uma reacção quase tsunâmica do visado, que num curto artigo publicado no jornal, dispara uma rajada de expressões que não tem nem o peso nem a medida da opinião original que o provocou. 

Cá por mim, tranquilo: quem tiver algo para dizer, que o diga. O tempo e o curso da história são testemunhos fieis e (quase) nunca se enganam. E dos fracos não reza essa mesma história, costuma-se dizer. Quem anda por aqui e quer desenvolver o seu espírito criativo - seja em que expressão artística for - já devia saber que tem que ter arcaboiço para aguentar a crítica do seu público. Mesmo que o seu público seja um outro artista da mesma área. 

Esta é, aliás, uma história muito parecida com uma outra que aconteceu comigo, mas essa foi há 15 anos atrás. É triste verificar que durante todo este tempo, em que o mundo mudou, a Internet revolucionou as nossas vidas, os canais de televisão multiplicaram-se às dezenas, as novas gerações falam uma outra linguagem, o nosso espírito crítico - de dar e receber - continua estagnado nas águas turvas da sempre maltratada humildade artística. É pena.




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17 comentários:

Pedro Ferreira disse...

A meu ver, criticar e aceitar críticas é algo que deve ser levado sempre segundo o bom-senso e sentido de justiça. É óbvio que uma crítica positiva faz sempre bem melhor ao ego de cada um mas penso que qualquer crítica (positiva ou não) deverá ser sempre bem vinda, se for regida segundo os parâmetros do bom senso e com uma atitude acertiva.
Na verdade, foi com algumas criticas menos positivas (mas construtivas) que me alertaram para a necessidade de mudar algumas coisas para melhor...
Por ainda confiar nesse bom senso humano e acreditar que o sentido crítico, na maior parte dos casos, ainda vai sendo saudável e acertivo, deixo que cada um publique directamente as suas críticas (boas ou más) no meu blogue, sem que a publicação dessa crítica passe primeiro pela minha leitura e aprovação...
Confesso que fico um pouco desiludido nalguns blogues (muitos mesmo) com posts extremamente interessantes onde, ao deixarmos o nosso comentário recebemos uma mensagem do género "este comentário será publicado depois de lido e aprovado"... uma filtragem que, se não existisse, democratizaría muito mais a blogosfera e penso que daría uma ideia mais real do que pensam os bloguistas acerca dos assuntos postados...
Concordo bastante com o texto deste post e, acima de tudo, com a expressão "dizer bem e dizer mal, mas nunca maldizer" colocada no título deste blogue...
Os meus mais sinceros parabéns pela grande qualidade deste espaço onde, segundo o que escrevi acima, apenas sugiro que fosse desactivada a moderação do blogue, decerto que a qualidade do espaço não sofrerá com isso mas certamente que aumentará o sentido democrático para quem o visita...
Melhores cumprimentos...

Miguel Barbosa disse...

Aqui vai uma outra crítica Joâo: Identifica os ARTISTAS!

Aql Abç!

Anónimo disse...

João, está muito bem dito, mas de que caso em concreto estás a falar? Já agora gostaria de saber, para melhor compreender o sentido do texto...

Obrigado,

Pimintinha

Amílcar Tavares disse...

É o que tenho dito: o DNA do cabo-verdiano não contempla a tolerância à crítica.

Ô, raça!

Amílcar Tavares disse...

Complementando o meu comentário anterior, eis um excerto da entrevista do Jay Lenocom o Presidente Obama no The Tonight Show:

THE PRESIDENT: Well, look, we are going through a difficult time. I welcome the challenge. You know, I ran for President because I thought we needed big changes. I do think in Washington it's a little bit like "American Idol," except everybody is Simon Cowell. (Laughter.)

Q Wow. Wow. That's rough (Applause.)

THE PRESIDENT: Everybody's got an opinion. But that's part of what makes for a democracy. You know, it's contentious and people are hitting back.

João Branco disse...

Pedro Ferreira, obrigado pelas palavras e pela sua opinião. Mas se me permite, os comentários continuarão a ser moderados. E vai ver que tudo o que escrever vai ser publicado, com certeza.

Miguel, obrigado pela crítica mas estes não foram referidos propositadamente. Não interessa andar aqui com a guerrinha dos nomes. Interesse olhar para este caso como um sintoma de uma doença social mais ampla e discutir/debater sobre isso. E eu acho que o Miguel entendeu perfeitamente, mas gosta de ver sangue a jorrar nos blogues berdianos. Será?

Pimintinha, é como disse. Discutamos o sintoma... Hoje foram estes, amanhã serão outros.

Mas para quem estiver assim tão interessado em saber, é só ler as duas últimas edições do Expresso das Ilhas.

Amilcar, é isso mesmo.

Anónimo disse...

Que pena a salganhada e pobreza de espirito escrito por um tipo que é considerado por muitos como o Artista por excelencia da Corte e da pequena burguesia ignorante. Temos a burguesia que merecemos? NÂO!!!! Temos o governo que merecemos? Não!!!!! Cultivar é a palavra de ordem. Eu sei que a pessoa a quem foi dirigido no jornal Expresso as blasfemias não da troco ao tipo porque mei tchtom ca tem troque

Tchale Figueira

Kuskas disse...

Oh João
Por essas e por outras que não critico o trabalho dos artistas, salvo os teus trabalhos, porque sei que tu podes até não concordar com a minha opinião, mas não sais por ai a desonrar-me ahahahahah

Aliás, actualmente só critico alguma coisa quando me pedem. É que já não sei quem disse, mas parece que está no DNA do cabo-verdiano a não aceitação de criticas.
Eu sou grata a todos aqueles que alguma vez me critiram, pois as criticas mesmo as que eu considerei serem más, serviram para eu me tornar em uma pessoa melhor....

Se alguns artistas da nossa terrinha fossem mais abertos às criticas, eles estariam melhores hoje do que ontem enquanto artistas.

As criticas servem para nos fazerem ser melhores naquilo que fazemos...

Abraços e bom fds

Estarei aí para o encerramento de março mês do teatro

João Branco disse...

Kuskas, se estiveres no dia 28 (Sábado) és minha convidada para a estreia de No Inferno.

Miguel Barbosa disse...

João penso nas tuas palavras ,"terrível sintoma que tudo isto representa. Um sintoma de uma sociedade doente, intolerante e, pecado dos pecados (sim, vou dizer!), provinciana.", e pergunto-me se sou eu é que quero ver SANGUE...
Aquele Abç

João Branco disse...

Cá está, não deixa de ser bem visto, Miguel. Mas podemos discutir isso sem estar a pessoalizar a questão, entendes? Foi por isso que não referi os nomes dos envolvidos. Não interessam neste caso. E já agora, seria interessante ouvir a tua opinião sobre isso. Algo que vá além de quero nomes e sangue... hehehe Abraço

Anónimo disse...

Se "tudo o que escrever vai ser publicado, com certeza" Entao porque moderar, ou sera que quer ser o primeiro a ver o comentario?

Sisi disse...

Penso que este problema é bem mais abaixo, vai mesmo à raíz da mentalidade, como bem disseste João, provinciana: se criticas pela positiva, à vista dos outros, e muitas vezes da própria pessoa em causa, estás a "dar graxa", se fazes uma crítica constructiva, és armada em "sabe tudo", "intchod". Enfim, é preciso primeiro sair do "quadrado" e desconstruir muita coisa antes, para se chegar a cura desta "doença".

João Branco disse...

Anónimo, isso e porque não admito que ninguém insulte ninguém na "minha casa". São estas as regras. Quem comentar sem entrar na via do insulto gratuito - quase sempre anónimo - (o que acontece 99% das vezes) não terá qualquer comentário seu não publicado no Café Margoso. Simples!

João Branco disse...

Sisi, num parágrafo disseste quase tudo. Abraço e bom fim de semana!

Felina disse...

Essa doença não existe só em cabo verde.
A máquina evoluiu mais rapido do que o homem

João Branco disse...

Como eu disse, que pena!