Os Margosos 2009

4 Comments




Figuras Nacionais do Ano

Arménio Vieira (poeta)
Margarida Moreira (jornalista)


Comentário: A escolha de Arménio Vieira é mais do que óbvia embora muitos tenham defendido que esse lugar de destaque deveria ser reservado ao procurador Vital Moeda pelo papel de destaque que vem assumindo na luta por uma justiça célere que coloque, de facto, bandidos e criminosos atrás das grades, doe a quem doer. Mas as minhas costelas de homem de cultura não poderiam ter originado outra escolha: o Prémio Camões atribuído ao poeta representa o maior prémio cultural que qualquer cabo-verdiano já recebeu, dentro e fora do país, até porque estamos a falar do mais importante galardão da literatura de língua portuguesa. Apesar de pouco conhecido, mesmo dentro do seu próprio país, o Conde, como é carinhosamente tratado por amigos e conhecidos, viu-se com a atribuição desta importantíssima distinção com os holofotes todos apontados para a sua pessoa e a sua obra, sendo esta obra merecedora do prémio e dos estudos que dela vierem a ser realizados como consequência deste crescente interesse.

A escolha margosa para mulher do ano está relacionada com uma causa que ao longo destes últimos meses este estabelecimento não se tem cansado de assumir: a luta contra a violência doméstica, de uma forma geral, e a relacionada com o género, em particular. Margarida Moreira, como figura pública que é graças à presença assidua na Televisão de Cabo Verde demonstrou um exemplo e coragem raras no país ao dar a cara denunciando a sua própria situação de vítima de violência doméstica, quando se sabe que o que é público é apenas a ponta de um iceberg tremendo e assustador, com alguns estudos a virem a lume e a colocarem a situação da violência contra as mulheres como um dos maiores cancros sociais do nosso tempo e que urge combater com todas as forças e todas as armas. A campanha (masculina) do Laço Branco, a que o Café Margoso aderiu incondicionalmente, foi apenas mais uma dessas possibilidades de luta. A denúncia pública, como a feita por Margarida Moreira, é também uma poderosa forma de combate e esta escolha mais não é do que o ressalvar um acto de grande coragem.


Acontecimento Nacional do Ano

Epidemia de Dengue


Comentário: Tomada no início um pouco na brincadeira e na descontra, esta doença veio, chegou, invadiu e em tempo recorde, colocou meio país de cama e uma população inteira em alvoroço. A chegada da doença, pelo forma como aconteceu, teve uma enorme importância não apenas pelas causas que a provocaram, mas sobretudo pela onda de consciência comunitária que provocou na população (com uma campanha nacional de limpeza que originou uma mobilização popular como há muito não se via) e, principalmente, pelas consequências a que vai obrigar, nomeadamente com o planeamento e a execução urgente de um plano nacional para o saneamento, sabendo-se, como se sabe, que o agente vector e transmissor da doença vive à custa da irresponsabilidade e descuido no campo das políticas públicas nesta área assim como das acções individuais dos cidadãos na sua própria higiene, pessoal e doméstica. A doença veio para ficar e a sua erradicação dependerá, em primeiro lugar, de uma mudança radical de hábitos e costumes relacionados com a limpeza e se há algo que já sabemos é que os hábitos e costumes, sejam eles quais forem, não se alteram de um dia para o outro. E cá estaremos para ver se na próxima época de chuvas estaremos de novo com as mãos na cabeça e dores no corpo, porque as medidas indispensáveis, individuais e/ou colectivas, não passaram dos discursos e das boas intenções.


Desastre Ambulante do Ano

Política Cultural


Comentário: aqui havia várias possibilidades: a desistência "solidária" de Jorge Santos de ir a votos contra Carlos Veiga; a irresponsabilidade ministerial na área da saúde no início da crise epidémica do Dengue; o comportamento lamentável dos deputados da Nação em várias das sessões parlamentares do presente ano, com o culminar do episódio da ameaça da cadeirada; a performance de certas empresas públicas como a Electra ou os TACV que tanta dores deram aos cabo-verdianos ao longo do ano. Estes são apenas alguns dos exemplos dos desastres ambulantes. Mas mais uma vez, a costela cultural fala mais alto. A oficialização do crioulo falhou e os responsáveis públicos nesta área, mais ainda por serem quem são, não podem estar isentos de responsabilidade. Não houve nem socialização, nem discussão massiva, nem o diálogo pleno e descomplexado que se impunha nesta matéria, mormente na questão do Alfabeto Cabo-verdiano (Alupec), aprovado quase que clandestinamente, e já se sabe como é: a falta de informação gera sempre equívocos e ignorância, e estes provocam insultos entre os dois lados desta barricada. Mas a incúria não se resumiu a esta questão central do crioulo: as propostas, promessas, discursos e medidas anunciadas no fórum sobre economia da cultura realizado em Novembro do ano passado continuam no seu grau zero de execução e a tão protelada promessa de mudança de paradigma cultural (um termo muito em voga) não passou disso mesmo, de uma promessa vaga e com pouco ou nenhuma consequência prática. Dentro das muitas promessas destacava-se a meta de, num prazo de seis meses (a contar da data do fórum), ser anunciado ao país um Plano Estratégico Cultural (já quase no final do mandato, é bom que se diga) e o que foi anunciado foi a atribuição a uma entidade privada da responsabilidade de produção desse mesmo estudo (num prazo de mais alguns anos). A falta de visão estratégica para este sector tem muitos e variados comprovativos: não só pela reunião de quadros em Abril para programar o que resta do ano; como pela situação patrimonial de edifícios como o Éden Park; a falta de visão na política museológica; o Fundo Autónomo de Apoio à Cultura que apesar de existir na orgânica do Ministério da Cultura continua sem sair do papel; a política de utilização de espaços públicos culturais que permite que se privatize o principal auditório do país ou que a única sala de espectáculos do Mindelo seja utilizada para cultos de seitas religiosas para garantir a sua própria sustentabilidade financeira; ou até o facto de o principal partido da oposição não ter rigorosamente nada para dizer sobre tudo isto (o que me espanta ainda mais). Entretanto, a Cidade Velha lá conseguiu o estatuto de Património Mundial da Unesco, o poeta Arménio ganhou o Prémio Camões e já se anunciaram pelo menos mais três fóruns para 2010. E é isto que vale, hoje, o tal diamante de que tanto se fala.


E foi assim que passamos mais um ano. Estas são as minhas escolhas. Assumidas e justificadas. Agora digam vocês da vossa justiça.

A gerência






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4 comentários:

ManuMoreno disse...

Excelente visao[APLAUSO].

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!

Anónimo disse...

Meu Caro

Apoio o acerto das escolhas. Diria mesmo, inevitáveis. Todas mereceriam um comentário mais detalhado, mas não há tempo.
ARMÉNIO: depois de Vário não podia ser outra a escolha para o Camões. Mas nunca um Prémio Camões foi tão mal servido, apoiado e acompanhado (pelo menos em Portugal). Ainda ontem me dizia o Conde "Resta uma plaquinha que desterraram aí na Pracinha. Já a viste?" Não, ainda não vi, e nem sei se quero ver. Placa soa-me a lápide e lápide soa-me a cemitério. Basta ver o lançamento (qual lançamento?) e recepção (qual recepção?) do último livro do último Prémio Camões. Uma vergonha. Havia que aproveitar a onda e fazer-se mais uns cobres (como se poesia desse dinheiro), devem ter pensado lá na Caminho/Leya. Tudo muito envergonhado, muito timido, muito muito pouco. UM VÓMITO, tudo isto. Mas o que importa é que o Arménio está feliz com a massa. Lá isso está. Até o castelo foi remodelado.
MARGARIDA: falei sobre este caso a seu tempo e nunca é demais repetir a coragem dela contra a infâmia, do(s) agressor(es) ... e dos cúmplices TODOS NÓS (quem quiser que retire a carapuça). A luta continua!
CULTURA: apenas e só o MAIOR FRACASSO político de JMNeves, que é hoje, e sem equívocos, o único responsável do que (NÃO) se passa naquela morgue de seu nome Mi(ni)stério da Cultura. Com uma oposição inculta (este silêncio ao longo de tantos anos já não é só cúmplice, significa o que significa, que eles não sabem o que fazer, nem como fazer, mesmo quando nada é feito), e uma sociedade civil indiferente, insensivel e sem opinião sobre a matéria, até o 'defunto' Ministro pode dar-se ao luxo de perguntar "Espelho meu, espelho meu, quem é mais lindo do que eu?" (Sim, assim mesmo em Português, pq em caboverdiano Alupekiano ainda não dá!). O MC é só um sorvedouro de dinheiros do Estado, uma fonte líquida de desperdício financeiro (por pouco que seja) com uma máquina inútil, clandestina do ponto de vista prático, uma bela inutilidade na lapela governamental.
DENGUE: apesar das ajudas excepcionais em boa hora chegadas, das medidas acertadas embora tardias, do foguetório da onda solidária que por aí andou qual súbito Tsunami galgando lixeiras, em qq País de média dimensão o Ministro da Saúde ter-se-ia demitido, ou no mínimo teria colocado o lugar à disposição, à cabeceira do enfermo PMinistro acometido, adivinhe-se, de...DENGUE! Mas não temos ainda por cá tais tradições. Veja-se o caso do M. Cultura?!

Escolhas acertadas!
Ab
ZCunha

JB disse...

Estava a ver que ninguém reagia! Obrigado ManuMoreno. É assim mesmo, ZCunha.

zito azevedo disse...

A esta distancia das coisas e das pessoas é dificil ter ideias próprias, salvo raras excepções, em questões de carácter geral. Para escrutínios deste tipo tenho que confiar numa fonte fiável, como é o caso...