Declaração Cafeana

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Ontem um grupo de quatro simpáticas estudantes universitárias foram-me procurar porque tinham que fazer um trabalho sobre "teatralidade". O termo é vasto e implica algum domínio de códigos próprios sobre arte cénica, mas era óbvio que ali não era o caso. Sugeri que começassem por uma pesquisa na Internet. "Já no fazel". E? E, nada. O vazio total. "E o que querem que eu faça? Digam lá, como vos posso ajudar?" "Bem, o professor mandou a gente fazer um trabalho sobre teatralidade e temos que fazer uma apresentação na aula." "Quando?" "Amanhã."

Bem, lá tive que explicar que não tinha como ajudá-las nessas condições, explicando esse conceito e ajudando a preparar uma aula sobre uma matéria que nem eu próprio domino totalmente. "Mas a que propósito é que vem isso? Quer dizer, qual é a disciplina?" Era uma cadeira ligada a comunicação, um curso relacionado com ciências de educação. "Ah e professor krê pa no ligá ess tema à problemática da educação." "Ah quer, é? Está bem." "Mas isso é como você falarem, por exemplo, da especificidade do andebol e depois ligar isso à questão do ensino da educação física nas escolas, ou seja, não tem o c... a ver com as calças."

Resumindo: um professor, que provavelmente nunca foi ao teatro na vida, ou pelo menos nos últimos três a quatro anos, em vez de transmitir conhecimentos sobre teatro e/ou expressão dramática, como é sua obrigação, delega nos alunos a responsabilidade de aprenderem sozinhos. Vão investigar. Façam um trabalho. Desenrasquem-se. É para amanhã. Para hoje. Para ontem. E isto é recorrente. Não é nada de novo. Conheço muitos casos onde os alunos tem que fazer trabalhos, para adquirir conhecimentos que deveriam estar a ser ministrados dentro da sala de aula, pelo docente responsável. Sempre pensei que era assim que as coisas funcionavam: a gente aprende com quem sabe mais, depois somos desafiados a descobrir e a ir mais longe, e finalmente, somos avaliados pelos conhecimentos adquiridos e pela nossa capacidade de prospecção. Pelos vistos, enganei-me.



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10 comentários:

MC disse...

Caro João:
Um pouco rude e altiva este seu comentário, não? Não poderão as coisas ser vistas inversamente?
Talvez as alunas se tenham desleixado na preparação do trabalho e tenham apenas na véspera acordado para a realidade... Talvez professor costume ir ao teatro e talvez tenha querido estimular a pesquisa, a investigação com base em ferramentas dadas na aulas...
Não terá sido o seu último parágrafo seguido à risca?
E quanto à problematização do tema, afinal não é o teatro uma poderosa via de comunicação e educação?

JB disse...

MC, a minha experiência com este gênero de pedidos diz-me que a minha rudeza se justifica. Vc não imagina quantas vezes já tentei motivar, promover, incentivar, defender, lutar pela ida de professores e alunos ao teatro para utilizar essa arte como ferramenta educativa. A verdade é que NINGUÉM SE ESTÁ PARA CHATEAR. Essa a grande verdade. Não estou a dizer que o seu comentário não seja válido, é-o certamente. Mas aqui tenho quase a certeza que 99% dos professores que falam de arte dramática ou de teatro na sala de aula, mormente em estabelecimentos do ensino superior, não só não faz a mínima ideia do que está a falar, como não faz o mínimo esforço para combater essa ignorância, o que ainda é pior.

Os alunos, a sua postura e forma de encarar o ensino superior, também tem quota parte importante de responsabilidades. Já o disse aqui várias vezes.

Volte sempre.

zito azevedo disse...

"Eu não ensino os meus alunos: crio condições para eles aprenderem"
Esta frase, atribuida a Einstein é uma espécie de meio-caminho entre o oito e o oitenta...Será que a professora das miudas CRIA CONDIÇÕES PARA OS ALUNOS APRENDEREM?

Paulo Silva disse...

Ess cafe li ta prop margoso !
Professores que pedem trabalhos grupo sobre matéria que não ensinaram. Alunos que começam a fazer o trabalho horas antes do prazo de entrega ... ai ai ... Ensino Superior(?) ou como dizia o outro "ocupação temporária da uma franja cada vez maior da juventude"?

JB disse...

Voilá! O Paulo disse pouco mas disse quase tudo.

Anónimo disse...

João, lamento ter que discordar contigo neste ponto. A meu ver, o bom professor de modo algum é aquele que dá a "papinha pronta" aos alunos. O bom professor é sim aquele que liberta o aluno, lhe dá asas para voar sozinho... ou seja, aquele que o estimula a conseguir as coisas por si mesmo, a investigar, a "a aprender a aprender"!

Falo isso por experiência própria. Sou aluna de um curso de graduação fora do país e notei a grande diferença do ensino em Cabo Verde em relação ao daqui.
Aqui o professor apenas fala dos temas de sua disciplina e de uma forma pouco profunda, cabendo a nós estudar a fundo em livros\internet etc, para que assim consigamos fazer uma boa prova.

E o que venho notando é que este método me faz aprender e apreender muito mais!!!

Bom, abrç e parabéns pelo Blog.

AVE

JB disse...

Não estou a falar de papa feita. Estou a falar de desinteresse global e geral sobre matérias que ensina. Como transmitir esse interesse aos alunos se ele não existe nele próprio?

E aqui chegamos a outro ponto: em CV muitos professores são-no porque é um emprego como qualquer outro. Quantos estão lá por verdadeira vocação?

Abraço

Carla disse...

João

Este problema lembra-me um outro. Quantos professores do ensino superior são a tempo inteiro?. pelo meno aqui na Praia, muitos tem o seu emprego e as aulas funcionam como complemennto a renda mensal.
Nada contra cada qual fazê ses bicos, pa ganhá mas algum honestamente. Mas, e tempo para investigação, para estudar (para se preparar adequadamente as aulas?

Paulo Silva disse...

A questão de ser docente a tempo parcial por si só não me parece ser problema. Pois assume-se que o Assistente ou Professor convidado é alguém que apesar da sua ocupação á tempo inteiro conhece o suficiente do que vai falar para conseguir dar conta do recado.
Agora nós aqui(tipicamente criol) pegamos nisso e é transformado em "biscaite" ! Aqui sim nasce O PROBLEMA. Docentes que fazem o que eu chamo do Rally do Ensino Superior (leccionam em tudo quanto é lugar !)Ora se é "biscaite" faz-se sem profissionalismo, faz-se por obrigação, faz-se por e simplesmente pela parte financeira. E isso é que parece não ser motivação suficiente para se professor.
Já agora para o AVE isso de "O bom professor é sim aquele que liberta o aluno, lhe dá asas para voar sozinho.." tem MUITO mas muito que se lhe diga.

Anónimo disse...

Isso mesmo Paulo Silva! Este café está mesmo margoso!!!

Mas infelizmente tenho que concordar com o JB.

O mindelact 2009 foi um bom exemplo da ausencia de professores no teatro, sendo professora confesso que poucos colegas foram vistos por aquelas "bandas". e como fui todos os dias posso testemunhar tal facto e ao questionar os meus colegas ou tentar motiva-los a desculpa é sempre a mesma: os filhos, o marido alias ao contrario o marido, os filhos, a casa.. enfim o que nao deixa de ser legitimo.

contudo, acredito que a arte dramática constitui um elo importante no ensino e na aprendizagem e qto mais conhecimento dessa area melhor.os professores precisam estar sempre com o seu horizonte "alargado" e o teatro ajuda nesse sentido.

qto as referidas alunas sao apenas o espoço dessa nova (preocupante) geraçao de estudantes que deixa tudo para ultima da hora, que espera e EXIGE a "papinha" do professor, que prefere gastar 10 contos numa festa e roupa de fim de ano do que num livro...etecteec..ou seja, que tem uma lista de prioridades um pouco "truncado" ou de "valores truncados" como dizia uma colega de lingua portuguesa ha dias. Mas que nao é mais do que o resultado do nosso sistema de ensino que precisa ser repensado urgentemente!
bjosss titass