Declaração Cafeana

4 Comments




Disse uma senhora na Rádio de Cabo Verde, a propósito da casa do doutor Adriano, envolto numa polémica relacionada com o que é ou não é património arquitectónico (e cultural) da cidade do Mindelo: "até hoje ninguém se importou com os problemas que sofremos por causa dessa casa abandonada que é, entre outras coisas, uma grande retrete e refúgio de bandidos. Agora que surge uma solução para nos tirar desse sofrimento vêm nos falar de património. Então, porque é que não se lembraram disso antes?"

Tem esta senhora toda a razão. É que esta casa encontra-se mesmo ao Deus dará à eternidades e tirando o jardim anexo, não me parece nenhum primor arquitectónico e se o fosse, das duas uma: ou andou tudo distraído e ninguém tinha reparado que ali havia um monumento urbano a apodrecer aos olhos de todos, ou por detrás deste faz que não faz - lembramos que para aquele local está projectada a construção da delegacia de saúde da ilha (já que a que temos hoje é ridícula) - há muita politiquice e motivações geradas por ambições pessoais bem concretas e identificáveis.

Com o caso do Fortim foi a mesma coisa. Esteve abandonado anos a fio. Tornou-se pouco mais que uma ruína à qual poucos davam importância concreta. Quando apareceu um projecto para o local - e considero o projecto do Fortim, de longe, o mais interessante de todos os grandes empreendimentos previstos para a ilha - foi um Deus-acuda-que-querem-acabar-com-o-nosso-património. Pois, mas antes ninguém se lembrou. Até que recentemente, durante uma mesa redonda no Mindelo sobre património promovida pelo instituto responsável pelo sector (mostrando que o descaramento é mesmo um dos nossos maiores patrimónios culturais) resolveram programar uma visita tão desnecessária quanto ridícula ao... Fortim do Mindelo, cuja função nos últimos anos foi servir de mictório e local para drogados e cujo destino já está traçado há anos.

Esses senhores que tanto prezam o património esquecem-se do que está a acontecer ao Éden-Park, a apodrecer na Praça Nova aos olhos de todos. O Éden-Park é, do ponto de vista cultural, o maior património do país. Foi a mais emblemática sala de espectáculos de Cabo Verde. Foi símbolo de múltiplas gerações. Ali se lançaram carreiras. Ali se despertaram paixões. Ali se revelaram novos mundos tendo o cinema como principal instrumento. O que está acontecer com o Éden Park é uma vergonha nacional. Que o Estado adquira o imóvel ao privado que o comprou e o está a deixar apodrecer. Que renove o espaço interior e o torne funcional, mantendo a fachada e o espaço frontal que, pela sua localização, é facilmente rentável. E, finalmente, que se tenha vergonha na cara para vir para o Mindelo falar de património sabendo o nada que se fez para salvar o maior símbolo cultural e arquitectónico da história desta cidade.



You may also like

4 comentários:

Anónimo disse...

JB,

Muito bem dito, e eu não diria melhor! Espero que o teu apelo faça eco na consciência dos (des) governantes deste país.

Pimintinha

Paulo Silva disse...

APOIADO João ! Gostei desta declaração.

zito azevedo disse...

Assino por baixo, com reconhecimento notarial, se for preciso.

Deina disse...

Faço minhas as palavras do(a) Pimintinha. Nem mais!