Um Café com... Paulino Dias

9 Comments




O recém mestre e ilustre cronista Paulino Dias com quem tive o prazer de me cruzar recentemente, escreveu a propósito da Pergunta Cafeana sobre a falta de espírito crítico do crioulo um comment não só esclarecido e bem escrito, como também resume um pouco o que a maioria dos participantes escreveu sobre o assunto.

Como aqui no Margoso não queremos deixar morrer tão interessante - e pertinente! - debate, aqui fica o texto do Paulino:

«Na minha modesta opinião, a deficiente cultura crítica em Cabo Verde alimenta-se de 3 pilares fundamentais: a família, a envolvente cultural e a instituição de ensino.

A família. Apesar do número elevado de famílias chefiadas por mulheres solteiras, a maior parte da nossa "elite" advém de famílias do tipo patriarcal onde, muitas vezes, a "crítica" durante a fase de crescimento é confundida com o desafio à autoridade do progenitor. Por isso, muitas vezes reprimida. Que influência isso terá tido no fraco desenvolvimento de uma cultura crítica?

A envolvente cultural. É meu sentimento (muito pessoal, sem nenhuma sustentação "científica"...) de que em Cabo Verde o comodismo, o alinhamento com as regras e normas pré-estabelecidas, é melhor reconhecido do que a crítica, a subversão, o pensar diferente. Ver apenas os debates ou certas reacções que encontramos em artigos de opinião na blogosfera, por exemplo.

Instituições de ensino. Aqui, não meto apenas as Universidades. Falo do universo global, desde as escolas primárias. Qual a relação entre o aluno e o professor em Cabo Verde no que diz respeito ao pensamento crítico? É minha impressão ou também existe aqui a mesma tendência para confundir a crítica com o desafio à autoridade do professor? Os professores - em todos os níveis - estão preparados para aceitar de animo leve as opiniões contrárias dos seus alunos? Lembro-me de um episódio quando eu estudava o então Ano Zero em São Vicente: quando contestei um dos meus professores, que dizia do grande número de trapiches tradicionais ainda existentes em Santo Antão, rapaz, levei um raspanete dos diabos com pérolas do tipo que tinha saído do campo e que agora que estava na cidade estava a armar-me em espertinho...er. E estamos a falar de alguém que é tido como uma autoridade no que diz respeito ao ensino... Qual a responsabilidade de nós, os professores (que também sou), em cultivarmos uma mentalidade crítica no seio dos nossos alunos?»

Aplausos, Paulino!




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9 comentários:

Kuskas disse...

humm olha Joao, concordo com o Paulino em relação aos 3 pilares apontados por ele.

Apesar de meu pai achar o contrário, quem mandava e manda até hoje lá em casa é a minha mãe (ahahahah) e apesar de meu pai ter sido EXTREMAMENTE autoritário, nunca deixei de questina-lo e muitas vezes de o confrontar. O que ele entendia como desafio a autoridade eu entendia como expressar a minha opinião.

Hoje nós nos damos muito bem, e aproveito aqueles erros que acho que meus pais cometeram comigo, aproveito-os como exemplos a não repetir com a minha filha, senão vai ser um ciclo vicioso.

A envolvente cultural sem dúvida que tem um peso muito grande. Eu já fui criança e adolescente, já sofri todas as pressões para seguir determinadas modas, para pensar de determinada forma por ser aquela, a aceite pela maioria, mas consegui ultrapassar isso muito bem e considero-me uma pessoa com ideias proprias, que tenta ser uma pessoa de bem, uma pessoa melhor a cada dia, apesar de meus defeitos que são MUITOS confesso (um deles é não seguir modas por exemplo ahahah).

Algumas pessoas acham que sou retro e outras acham que sou excêntrica. Digo sempre que sou DIFERENTE.

Instituições de ensino - eu tive a sorte de ter tido a professora Aurora na primária. Se hoje sou essa pessoa com sede de aprender sempre, devo em grande parte a ela.

No liceu tive profs que me marcaram pela positiva, pois fizeram-me sempre questionar as coisas, são eles a prof Barba, Filomena, Mª de Fatima, Nhelas ....
mas tambem tive aqueles professores como esse a que o Paulino se refere...

Resumindo: um ambiente familiar castrador, aliado a uma envolvente cultural PRECONCEITUOSA + instituições de ensino/professores pouco ou nada estimuladores = cultura critica pra lá de deficiente

João Branco disse...

Kuskas, és cada vez mais uma «cliente» preciosa aqui no Margoso, quanto mais não seja pela forma aberta, clara e generosa com que partilhas experiências e vivências bastante pessoais. Este comment é apenas mais um exemplo disso. Obrigado!

Kuskas disse...

ahahahahah ;)

Catarina Cardoso disse...

Kuskas,

fiquei com uma dúvida: como é que o teu pai, sendo autoritário como dizes, deixava que fosse a tua mãe a mandar em casa?????

beijinhos

Sisi disse...

O ponto de vista do Paulino Dias não poderia ser mais pertinente. Quanto a família, sabemos que é verdade o que ele disse, a grande maioria transmite aos filhos a ideia de que criticar é algo negativo, e que ñ se deve fazê-lo principalmente em relação aos adultos. Daí também o medo que nós temos de confrontar os professores nas escolas, como foi referido pelo Paulino. E como eu já tinha referido na resposta a pergunta cafeana, se se quer ver realmente alguma mudança em relação a este aspecto, precisamos ir muito mais atrás, às escolas primárias. Outro aspecto, relativemnte as instituições de ensino, que foi muito bem visto pelo Paulino é a questão dos professores que tb precisam de alguma formação neste sentido.
Quanto a abordagem do Paulino feita à envolvente cultural, também foi bastante pertinente pq acho que é pela raíz que se corta o mal, ou seja é necessário começar por desconstruir a ideia de que quem critica e tem um pensamento diferente esta à margem das regras e normas sociais e daí valorizarem mais quem os segue sem questionar. Devemos sim começar a pensar que estas regras e normas devem e podem ser contestadas e criticadas, porque é aí que está a evolução das sociedades e mentalidades.

João Branco disse...

Concordo contigo, Sisi. Belo comment.

Kuskas disse...

ahahahaha Catarina
Autoritário com os filhos não quer dizer necessáriamente autoritário com a mulher e esposa :)

Se fores ver bem, na realidade cabo-verdiana quem "realmente manda" em casa são as mulheres, lá onde existem (há casos de familia só com a figura paterna).

Concordo com a Sisi que é preciso fazer os mais novos que nós, verem que regras foram inventadas pelos homens e que algumas dessas regras vão mudando ao longo do tempo, pelo facto de serem contestadas por alguns.

Como diz o outro é preciso EVOLUIR...

Paulino Dias disse...

João,

Permita-me já agora recomendar um belíssimo livro: "5 Mentes para o Futuro", de Howard Gardner (http://en.wikipedia.org/wiki/Howard_Gardner). Ver também neste blog um resumo: http://daltonmartins.blogspot.com/2008/03/resumindo-cinco-mentes-para-o-futuro.html

Este livro devia ser de leitura obrigatória para todos os que lidam a "construção de mentes críticas": as famíllias, os professores, os líderes...

Abraços,
Paulino

João Branco disse...

Nessa evolução, temos andado muito devagarinho, Kuskas! Há que meter a 5ª velocidade quanto antes...

Paulino, obrigado pela dica. Vou estar em Lisboa no final do mês e procurar o livro. Depois farei eco do mesmo aqui no nosso estabelecimento!