Plágio 16: O outro lado da questão

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A última pergunta cafeana do Margoso gerou um aceso debate sobre a falta do espírito critico do cabo-verdiano e do papel que caberá ao crescimento exponencial do ensino superior em Cabo Verde, no sentido de incutir uma nova mentalidade nos futuros quadros do arquipélago. Este texto, publicado há poucos dias pelo blog insónia (da autoria do português Henrique Fialho), muito embora falando da situação de um outro país, chega a ser desconcertante. Vale a pena ler.

Então é assim:

«A ausência de espírito crítico que pulula (gosto desta palavra) no nosso país é proporcional à ausência de espírito autocrítico. Talvez exista ainda menos espírito autocrítico. As pessoas tendem a julgar os outros com enorme facilidade, tendem a julgar o mundo à sua volta na base de meia dúzia de lugares comuns, mas raramente conseguem olhar para si próprias com indiferença, raramente conseguem reconhecer os seus defeitos, as suas fraquezas, as suas falhas.

Somos muito ligeiros na denúncia dos problemas dos outros, somos muito exigentes com quem nos é distante, mas muito pouco rigorosos com o que nos é próximo. À partida, isto inquina (também gosto desta) tudo. Devíamos ser mais exigentes com o que nos é próximo, para, desse modo, irmos melhorando, pouco a pouco, o mundo à nossa volta.

Tomemos de exemplo esta coisa da escrita. (...) Não me intriga que exista tanto escrevinhador. O que me intriga é que tanto escrevinhador ambicione publicar livros. Afinal de contas, por que razão há-de alguém querer publicar um livro [em Portugal]?

A hipótese de se ganhar dinheiro com o objecto é tão ínfima que chega a ser ridícula. Sobretudo se falarmos de géneros menores e sempre impagáveis como é o caso da poesia. Esta hipótese fica, desde logo, de lado.

Um outro motivo pode ser o prestígio. No entanto, só um estúpido pode sentir-se prestigiado por ter publicado um livro. Que os amigos e os familiares nos digam que somos grandes escritores é uma inevitabilidade. É para isso que são nossos familiares e amigos. Mas pouco mais gente nos lerá e aqueles que nos lerem serão meras vítimas de grandes equívocos, pois provavelmente não lhes passará pela cabeça que perder tempo com um livro de um jovem autor significa não ganhar tempo com um clássico da literatura universal. E há tantos por serem lidos que até mete dó. Ainda para mais, vivemos num país exíguo. Logo, o prestígio também estará fora de questão.

A única razão, o único motivo, é mesmo a vaidade, aquela vaidadezinha de se ver o nome numa capa, numa estante de uma livraria, de, com sorte e engenho, ser-se chamado às páginas de um jornal ou de uma revista especializada, de aparecer na televisão com aquele ar pacoviamente culto da mão a apoiar o queixo. É esta vaidade caricata, esta pretensão absurda, que move grande parte dos escrevinhadores candidatos a escritores. Não conseguem olhar para certos tipos que são realmente cultos, inteligentes, sofisticados reconhecendo que não são assim. Olham os outros com uma inveja dissimulada, não conseguindo olhar para si próprios com uma verdade humilde: porra, aquele tipo é mesmo culto, como eu gostava de ser assim, por que sou tão estúpido, não, não sou nada estúpido, estúpido é aquele presunçoso da treta que está para ali a falar como se fosse muito culto e todos os outros à sua volta fossem uns pacóvios, ah, a mim não me enganas, o que tu queres sei eu bem. Falta-lhes o tal espírito autocrítico.

A ausência deste espírito, que também se nota em milhares de pseudo-artistas de todos os géneros e feitios, cantores de levar ao desespero um surdo, pintores que, num meio minimamente exigente, nem para pintar paredes (coisa que exige a sua arte, eu que o diga) serviriam, a ausência deste espírito crítico, dizia, é o que explica essa vaidade sem sentido. No fundo, são indivíduos sonhadores. Olham-se ao espelho, todos bexigosos, e julgam-se as carinhas mais larocas do universo. Só vêem músculo onde não há senão celulite. Querem ser artistas à força toda, nem que, para isso, tenham que deitar abaixo florestas inteiras. Serão sempre génios incompreendidos. E nem se atrevam a dizer o contrário. Eles vão chamar-vos nomes, vão insultar-vos, completamente autoconvencidos dos méritos que não têm.»


E sem fazer muitos comentários, só me apetece dizer que qualquer semelhança com a nossa realidade, não passa de pura coincidência...


Imagem: ilustração «1555» por Nervous b




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15 comentários:

Dundu disse...

É incrível como este texto se enquadra, de modo perfeito, no contexto nacional (em tempo e forma).
A bem da verdade, se enquadra um pouco por toda a parte. Mas no nosso caso, pela nossa pequenez, assume uma grandeza maior.
Se fizermos uma transposição de território (de PT para CV), conseguiremos visualizar vários pseudo-artistas e sedentos de notoriedade a que o autor se refere.
Aqui todos querem ensinar mas a maioria não tem paciência para aprender (se destaco, minimamente, da maioria em algo, tenho de ser - Artista, e pronto).
Acredito que se se é artista, o tempo dirá e não amigos e familiares.

Isto é apenas meu comentário.

João Branco disse...

Concordo. Aliás, por isso achei pertinente colocar este texto aqui e agora. Abr.

Sisi disse...

É verdade João, esta crise de mentalidade, não só no meio artístico, que assola o nosso país, deve-se muito mais a falta de uma postura mais autocrítica por parte das pessoas, do que propriamente o espírito crítico. Até porque este, quando é no sentido destrutivo, os caboverdianos têm e muito. Não é fácil assumir as fraquezas e defeitos, mas não é impossível, e é com um certo trabalho de introspecção e auto-reflexão das nossas atitudes e comportamentos, que conseguimos melhorar enquanto pessoas (e no caso abordado por ti, enquanto artistas).

João Branco disse...

A palavra «humildade» é uma das que mais utilizo no curso de teatro. Mas nao chega. Muitas vezes, todo o percurso educativo fala mais alto (o que é natural, já que o curso dura apenas um ano). Já ouvi ex-alunos meus dizer taxativamente: «estou farto da palavra humildade!» Fazer o quê? Como educador, como encenador (logo, condutor de um conjunto de actores, actrizes e tecnicos que trabalham comigo) tento sempre manter este espírito autocritico, pois para mim sempre foi claro que quanto maior a auto-exigência, maior a possibilidade de evolução. Mas por vezes, tem-se a sensação que andamos a pregar no deserto.

Kuskas disse...

João
como diria um grande amigo meu que infelismente, já não se encontra entre nós, esta (carapuça/texto cai que nem uma luva na nossa realidade nacional...

Ser humilde e auto-critico, ser capaz de rir de si próprio, de aprender com os erros, de analisar o seu comportamento antes de analisar o outro é uma qualidade rara, mas que se insistirmos conseguimos obter ao longo da vida.

Sempre que vejo alguns "artistas nacionais" a "actuarem" eu pergunto o seguinte: esses gajos/gajas nunca treinaram a frente do espelho? nunca pararam para ouvir a propria musica/ ler o proprio texto???
porque confesso que as vezes a violação dos meus sentidos (ouvidos e visão) é tanta que a minha vontade é de os esganar....

Uma vez um jornalista brasileiro disse ao cantor Renato Russo, que um CD que esse cantor havia gravado em Italiano era perfeito, tanto que se podia dizer que a lingua italiana era a 1ª lingua do cantor. Ele respondeu dizando que por RESPEITO aos ouvintes e pela lingua italiana, ele havia aprendido a cantar correctamente para não ferir os ouvidos dos amantes daquela lingua....

João Branco disse...

Pois é, Kuskas e eu, modestamente, penso que esta «carapuça» merece mais debate! Clientes do Margoso, digam lá de vossa justiça!

Katy disse...

Aqui em Cabo Verde existe uma troca de favores, "eu" faço uma boa Critica do "teu" trabalho e "tu" fazes uma boa Crítica do "meu" trabalho. Quer dizer que, nessa troca de favores, há um grupo de amiguinhos que sobressaem como os verdadeiros artistas, quem ficar de fora é Xibado.
Por que será que um artista é realmente conhecido quando sai para o estrangeiro?

Catarina Cardoso disse...

Entendo perfeitamente a vossa posição mas a minha modesta opinião é que essas pessoas têm tanto direito a publicar, encenar, dançar, cantar como outras quaisquer.

Bem sabemos que alguns desses exercícios são puramente narcísicos, que não nos acrescentam grande valor, que têm só valor material, mas ainda assim têm esse direito e têm um mérito- a concretização, muitas vezes, de um sonho!
A propósito disso lembrei-me daquele poema que já foi publicado aqui no Margoso
"Morre lentamente...."

João Branco disse...

Kuskas, não é só por cá! Ainda noutro dia via um documentário que falava de como a Cesária, o Tcheca, a Mayra, que eram reconhecidos primeiro fora da esfera lusófona (leia-se Portugal), para só depois começarem a ter mercado por onde, naturalmente, deveriam começar a ter o seu devido valor reconhecido...

Catarina, entendo perfeitamente o teu ponto de vista. Claro que todos temos o direito à criação (e viva a criação!). Não é este o ponto fulcral da questão, penso eu. Mas a rapidez com que se criam pedestais e idolos de pés de barro, ou se quiseres a facilidade com que certos «artistas» se colocam em bicos de pés... Escrevi uma crónica há uns meses aqui no Margoso sobre isso. «Dragões na Garagem». Se puderes, vai ler. Abraço.

Kuskas disse...

João
nós cabo-verdianos, temos por hábito não valorizar aquilo que é nosso e só o fazemos na maior parte das vezes, quando os lá "fora" o fazem: caso da Cesaria évora.

Tu de certeza conheces o Jorge Humberto (cantor e compositor), para mim ele é um melhores compositores que temos nesse momento. Já ouviste algum dos "especialistas e criticos" de plantão a falar dele??
Queres apostar que no dia que ele, Jorge Humberto, um desconhecido de muito caboverdianos, ganhar qualquer prémio ou reconhecimento "lá fora" vamos ter de REPENTE n criticos a dizer bonitas palavras sobre ele??

E o Manel de Novas??? Foi preciso o homem quase morrer para poder ser reconhecido o contributo que deu e tem dado para a cultura.

João Branco disse...

Olha, o Jorge Humberto é um bom exemplo. Mas há tantos outros, tantos! Deve haver por aí algum receituário para que um talento se possa transformar em «coqueluche»?

Sobre o Manuel d'Novas, nem vou dizer nada, porque tudo o que disser dele é pouco. É, apenas e só, o melhor compositor vivo da nossa Nação e um dos melhores de sempre (talvez só B'Leza e Ano Nobo se lhe possam comparar). Mas isto são opiniões, e estas, como sabemos, são como o olho do c...: cada um tem a sua!

gicas disse...

Aconteceu comigo. Não sou actriz profissional nem nada que se pareça mas, ontem mesmo, tive uma actuação(teatro) no Instituto Jean Piaget na cidade da Praia! A tal capital onde a cultura anda a "borbulhar" como uma garrafa de água das Pedras Salgadas acabadinha de abrir. Mas voltando ao assunto. Tinham-me dito que a "audience" do Piaget era "exigente", até cheguei a (recear a minha actuação) até porque a peça era séria (apresentamos apenas um "sketch") fala da origem do crioulo e de cómica não tinha nada. Mesmo antes de entrar em cena já tinha reparado o "murmurinho" e o ruído intenso que se fazia na sala...mas como os grupos anteriores nada tinham a ver com teatro, pensei que o silêncio ia reinar.
Qual o meu espanto, quando eu e os meus colegas começamos a entrar em cena percorrendo ainda parte do auditório, antes de chegar ao palco, mas já estando em cena,quando os assobios, as bocas "porcas e foleiras" tomaram conta da sala. E foi assim a peça toda. Barulho, mais barulho...gritos, berros...por momentos pensei que a plateia fosse um "canil". E mesmo não sendo eu profissional, abstraíme por completo daquele cenário surreal e concentrei-me no tal ponto abstracto lá ao longe. Foi assim o tempo todo. Agora eu pergunto João o que é que estes jovens andam a fazer na universidade, a encher "canudos"?

Desculpa ter-me apoderado do teu blog, mas fiquei tão revoltada e estava a precisar de desabafar!

João Branco disse...

Gicas, não tens que pedir desculpa, pois o teu cmentário, neste contexto ainda por cima, faz todo o sentido.

O teu relato seria já preocupante se fosse de alguma actividade num liceu, com jovens do ensino secundário, o que dizer disto tudo, sabendo que estamos a falar de «futuros doutores» deste país?

Eu já nem digo mais nada...

Kamia disse...

Concordo com quase tudo do que foi aqui dito. Destaco especialmente o comment da Katy: "Aqui em Cabo Verde existe uma troca de favores, "eu" faço uma boa Critica do "teu" trabalho e "tu" fazes uma boa Crítica do "meu" trabalho. Quer dizer que, nessa troca de favores, há um grupo de amiguinhos que sobressaem como os verdadeiros artistas, quem ficar de fora é Xibado". Nem mais. e os tentáculos chegaram à bloguesfera.

Mas não posso deixar de dizer, sobre a "condição de artista" que muitas vezes a pessoa é empurrada para uma posição que não escolheu. Por mais que a pessoa se demarque do rótulo de artista, por mais que tente deixar claro que está simplesmente a trilhar um caminho de auto-descoberta que pode um dia fazer dele artista ou não por vezes as pessoas é que criam expectativas e impôem essa condição. Por uma certa exposição que a pessoa ganha assumem que a pessoa se vê como algo que na verdade ela não vê.

Mas, voltando ao texto em sí, realmente é incrível como se encaixa perfeitamente na realidade do nosso país. Por razões óbvias, achei particularmente interessante a parte sobre as razões para se publicar um livro. De repente compreendi a minha resistência em ver-me um dia como autora publicada de um livro...é que a única razão por aqui é mesmo a vaidade. Mas desde que se assuma isso (como já vi pessoas com guts a fazer) não vejo problema já que só compra quem quer.

Kamia

João Branco disse...

Kamia, bem-vinda, já tinha saudades tuas aqui no Margoso.

Sobre o teu comentário, queria dizer o seguinte: compreendo quando se fala de troca de favores, mas não podemos cair no extremo contrário, ou seja, sermos quase que moralmente impedidos de elogiar o trabalho de alguém só porque somos seus amigos. Ou o contrário, ou seja, «não gostar» da obra de alguém simplesmente porque não suportamos o sujeito. Há que separar as coisas.

Quando se diz que «os tentáculos já chegaram à bloguosfera», estamos a falar do quê? Somos muito poucos por aqui (ainda) e as conclusões são fáceis de tirar (demasiado faceis, porém).

Eu quero acreditar, sinceramente, que quando alguém vê um trabalho meu e escreve um post a dizer «excelente» o tenha feito porque realmente assim pensou e não porque pretende ser simpático para com o gestor do Café Margoso!

Este fim de semana tive o Paulino Dias no auditório do CCM a ver a peça «Mulheres na Lajnha». Gostei de o ver lá. E claro, gostaria muito se ele tivesse apreciado a peça. Mas se ele resolver escrever um post no blogue dele a dizer «acho o trabalho fraco por isto e por aquilo, não me pareceu grande espingarda», ou algo do género, não vou ser menos amigo dele por causa disso, antes pelo contrário. Assim como se ele escrever, «adorei, maravilha, o JB é um gajo do caraças», também não vou estar a pensar «o que será que o Paulino pretende com esta manteiga toda»...

É preciso, nestas questões, ter um pouco de bom senso. Penso eu de que.