Naturalidade

6 Comments



      Europeu, me dizem.
      Eivam-me de literatura e doutrina
      europeias
      e europeu me chamam.

      Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
      pensamento europeu.
      É provaável... Não. É certo,
      mas africano sou.
      Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
      desta luz e deste quebranto.
      Trago no sangue uma amplidão
      de coordenadas geográficas e mar Índico.
      Rosas não me dizem nada,
      caso-me mais à agrura das micaias
      e ao silêncio longo e roxo das tardes
      com gritos de aves estranhas.

      Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
      Mas dentro de mim há savanas de aridez
      e planuras sem fim
      com longos rios langues e sinuosos,
      uma fita de fumo vertical,
      um negro e uma viola estalando
      .

      Rui Knopfli em «O país dos outros», 1959



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6 comentários:

Catarina disse...

Fiquei arrepiada... chamem-me o que quiserem, só eu sei o que tenho dentro de mim!

João Branco disse...

Nem mais! Fala o Bolicau (branco por fora, mas preto por dentro!)

Alex disse...

Um grande poeta. O resto são estórias. O que importa é que o que escreveu, está acima, muito acima, das questões de fronteiras e nacionalismos. Que o magoaram muito lá isso magoaram. Ele teve a sua dose de rejeição e injustiças. Mas a sua poesia sobreviveu, sem que hoje se pergunte pela sua nacionalidade.
Abç's
ZC

João Branco disse...

ZCunha, estou convencido que a boa poesia sobrevive sempre. Por isso alguns de nós ainda andam por cá... Abr.

Catarina disse...

A propósito deste lembrei-me de um conto de um escritor Moçambicano que se chama "As mãos dos pretos"- conheces João?

Vou mandá-lo para o teu e-mail!

um abraço


Catarina Cardoso

João Branco disse...

Manda sim!