Quatro Cafés Curtos sobre Luanda

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1. Luanda é uma cidade em construção. Depois de tantos anos de guerra, o que se percebe na cidade é um ritmo frenético de construção, procurando recuperar aos poucos a cidade e devolvê-la aos moradores. O que mais se vê por ali são obras. Passeios, ruas, prédios, quarteirões inteiros. Claro que tudo isso torna um pouco dificil a circulação das pessoas - e eu gosto especialmente de tomar pulso às cidades, andando pelas ruas - mas não é muito dificil prever que daqui alguns anos, teremos uma Luanda orgulhosa, pungente, recuperada. Destaca-se o trabalho de fundo que está neste momento a decorrer na Baia de Luanda, que se prevê venha trazer uma outra beleza à parte nobre da cidade.

2. Luanda tem um trânsito insuportável. Filas e filas, horas de espera para andar alguns metros, regras de circulação desrespeitadas por todos. Muito complicado. Contam-se, a propósito, duas piadas que são sintomáticas. Uma delas que diz que Luanda deveria mudar o nome para «Nãoanda»; a outra que relata que esta é uma cidade onde são os peões que atropelam os veículos e não o contrário. E se tivermos em conta que estamos numa cidade em construção, tudo piora. Não há muitos passeios circuláveis, e aqueles que resistem, são invadidos pelas motas, que por ali se metem para fugir ao tráfego.

3. Luanda tem um teatro notável. Tive oportunidade de ver três espectáculos de grupos de Luanda, e nos três casos vi aspectos interessantes, inovadores, excelente energia e muita vontade de aprender e partilhar. Era algo que já adivinhavamos tendo em conta as participações de Angola no Festival Mindelact, mas ver no próprio local é outra coisa. O nível global de interpretação é muito bom e isso explicará também a elevada produção e a grande aposta que a Televisão Pública de Angola vem fazendo no produto nacional, com séries, novelas e programas próprios. Um excelente exemplo, a esse nível.

4. O Festival Internacional de Teatro e Artes, organizado pelo Elinga Teatro, que comemora o seu 20º aniversário, liderado pelo dramaturgo José Mena Abrantes, tem uma programação de alto nível e uma organização excelente. Fomos muito bem tratados, o nosso espectáculo estava com a sala cheia de um público ávido por novas linguagens cénicas e troca de experiências. Esperamos que possa continuar nos próximos anos!




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4 comentários:

Catarina disse...

E o Pedrito de Angola? Estiveste com ele, não foi? Também merecia um cafézinho...

João Branco disse...

Catarina, estive com o Pedro, claro e com o António Tomaz. Foi muito bom reencontrá-los. Só foi uma pena não podermos estar juntos mais tempo e com mais calma. Bem, fica para a próxima!

Anónimo disse...

Ainda bem que és um “afro-optimista”, eu também o sou. Daqui a uns anos Luanda será muito diferente de certeza. É que muitas pessoas falam mal de Luanda mas não contextualizam a questão. Foi uma cidade construída para uma lotação máxima de 600.000 pessoas, mas com uma guerra, que durou mais de 30 anos, deslocaram para a capital mais de 4 milhões de refugiados, e é claro que isso ia causar alguma entropia. Mas com o tempo tudo irá ao seu lugar. Meses atrás falando com uma pessoa que regressara de Luanda disse-me “aquilo está tudo em construção, muito barulho e tal, mas tu nem imaginas a grande diferença que faz a paz”. Pois é, a paz em Angola já é muita coisa!
Abraços!
Ruben.

João Branco disse...

Ruben, penso que se pode dizer isso, sou afro-optimista. O problema não está só em Africa, está na natureza humana, latus sensus. A ganancia, a corrupção, etc. é património da Humanidade e não só de uma região do Globo!