Tertúlia dos Mentirosos 14

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Já sentiu, pelo menos uma vez, o desejo de chegar tarde ao trabalho, ou de sair mais cedo?

Nesse caso, compreendeu que:

a) O tempo de trabalho conta a dobrar porque é tempo perdido duas vezes:
- como tempo que seria mais agradável empregar no amor, no sonho, nos prazeres, nas paixões, como tempo do qual se disporia livremente.
- como tempo de desgaste físico e nervoso.

b) O tempo de trabalho absorve a maior parte da vida porque determina também o tempo dito «livre», o tempo de descanso, de deslocações, de refeições de distracção. Atinge assim o conjunto da vida quotidiana de cada um, e tende a reduzi-la a uma sucessão de instantes e de lugares, que têm em comum a mesma repetição vazia, a mesma ausência crescente de vida verdadeira.

c) O tempo de trabalho forçado é uma mercadoria. Onde quer que haja mercadoria, há trabalho forçado e quase todas a actividades se identificam, pouco a pouco, com o trabalho forçado: produzimos, consumimos, comemos, dormimos para um patrão, para um chefe, para o Estado, para o sistema da mercadoria generalizada.

d) Trabalhar mais é viver menos.


Raoul Vaneigem, in «da greve selvagem à autogestão generalizada»

Imagem: colagem «Technology» by Crambambie

Via: aqui




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6 comentários:

Kuskas disse...

Eu era ( acho que ainda sou um pouco)workaholic, ao ponto de as vezes esquecer que dia da semana era, uma vez que todos os dias saia de casa a mesma hora para ir trabalhar...
Trabalhar, ter uma ocupação que te estimule o intelecto e o fisico é saudavel, gosto de trabalhar mas ...
trabalhar não é tudo e aprendi isso da pior forma possivel.
Deixei de ser tão "workaholic" no dia que eu ao precisar de um ombro amigo para descarregar o que me vinha na alma, fui a minha lista de Amigos(são poucos confesso) e me dei conta que eu não os ligava havia meses, nem aos email respondia ....
Nesse dia não fui trabalhar, fui a um ciber e escrevi um email a cada um dos amigos, lamentando a minha ausencia e a partir daí, procuro trabalhar as 8 horas pelas quais sou paga e nem um minuto a menos ou a mais.

Abraço
PS: claro que há aqueles dias que são uma excepção e chegas as 9 da noite em casa. Mas isso agora é excepção, antes era regra

João Branco disse...

Kuskas, o teu relato sentido diz muito da razão porque coloquei este texto aqui. Vamos lá ver, nem todos os textos, citações, cafeínas, são necessariamente resultado do que penso sobre os assuntos, mas sim são colocados com o objectivo primeiro de potenciar interessantes debates e discussões. Felizmente, isso tem acontecido aqui no Margoso.

Claro, que podemos dizer, «é fácil falar, para quem não tem problemas em colocar o prato de cachupa na mesa todos os dias, dar de comer ou vestir os filhos» ,etc. Mas há realmente pessoas que abusam. Ou são abusadas.

Ainda num outro dia conversava sobre isto com o César Schofield e ele dizia-me, «eh pá, o pessoal aqui na Praia não tem tempo para nada, porque se se põe a fazer outras coisas, é logo ultrapassado, comido vivo, quando toma fé, já está nas ruas d'amargura» (Mais ou menos isto). Por essas e por outras tenho bons amigos que hoje são escravos do trabalho e pior, a fazer actividades para as quais não estão minimamente vocacionados ou que lhe tragam alguma felicidade pessoal. Tenho pena que assim seja.

O debate segue dentro de momentos.

Kuskas disse...

Neste momento estou pensando seriamente em deixar meu trabalho, pela simples razão que me dou conta que ando aqui a desperdiçar as minhas energias em algo que está sendo, a cada dia deixado de lado.
Quando vejo eu e os meus colegas feito malucos a organizar um plano de actividades, a fazer orçamentos, a envolver várias empresas nas actividades e depois vem o BIG BOSS e diz, mudei de ideias já não quero assim, façam de outro jeito e nem ao menos RECONHECE o esforço que foi feito, a minha vontade é de BERRAR um bom PQP e bater a porta....
Fiz isso uma vez em outro emprego, neste vou-o fazer mas não pode ser impulsivamente... afinal tenho uma filha.

César tem razão, mas eu não vou mesmo fazer esse jogo que se faz aqui na Praia. Pk ainda morro ou apanho um esgotamento e aí sim, fico definitivamente para trás e ainda privo minha familia da minha preciosa companhia...

João Branco disse...

Mais uma vez sublinho esta disponibilidade da Kuskas em partilhar a sua experiência pessoal, num assunto que eu penso estar na ordem do dia. Bali!

Alex disse...

Nem vos falos dos meu ritmos e horários. EU DETESTO TRABALHAR! Não nasci para isso, porra. Tanta coisa boa por aí e está um gajo armado em "escravo" de luxo?
Concordo absolutamente com as alíneas c) e d) do Vaneigem.
..da-se, já são 0:54, e amanhã trabalho!
PERCEBEM!!!
zc

João Branco disse...

hehehe eu quando «postei» este texto estava a pensar em ti, ZCunha, e nas tuas queixas laborais (assim como de alguns outros amigos que tenho por aqui). E já previa um desabafo desses. Espero que tenhas tempo para um café no final de Maio, quando aterrar alguns dias em Lisboa!