Crónica Desaforada

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A cidade e os seus sintomas

1. Primeiro ponto d’ordem: sou mindelense até ao tutano. Fui-o muito antes de me tornar cabo-verdiano, de coração e por ofício, aqui nasceram as minhas duas filhas e nestas montanhas quero que as minhas cinzas sejam espalhadas, para serem levadas pelo vento da ilha, também ele único e basofo;

2. E assim sendo, ainda me mais me motiva e me doi escrever esta crónica. O que me rodeia é preocupante, mais ainda tendo o passado recente e a vivência de todos os dias como referência. Digo sem papas na língua: a noção que temos – que gostamos de ter – da cidade do Mindelo como núcleo cultural cabo-verdiano, capital cultural do arquipélago, de dia para dia começa a perder sentido. A minha cidade está a perder a sua alma;

3. S. Vicente é uma ilha que vive hoje de pólos sazonais. O Festival Baia das Gatas, o mais antigo e o que mais prestígio tem no exterior. O Carnaval do Mindelo, o maior do país, embora nos últimos anos tenha perdido um pouco do seu fôlego, principalmente devido ao facto dos grupos de Carnaval e dos seus principais promotores se mostrarem incapazes de trabalhar juntos – e a prova disso é a associação de carnaval que nunca saiu do papel. O S. João, uma festa popular que estava moribunda e foi recuperada graças a uma iniciativa privada, com esforço e inteligência. E, finalmente, o Festival Internacionai de Teatro do Mindelo, Mindelact, hoje considerado um dos maiores eventos teatrais de todo o continente africano;

4. A cidade continua a reivindicar – com autoridade – que aqui se inspiram, vivem e trabalham alguns dos maiores valores da cultura nacional. Não precisamos ser muito criativos para sacar dos exemplos de sempre. Vasco Martins, o nosso até agora único compositor sinfónico; Germano Almeida, o nosso maior romancista; Luisa Queirós, Bela Duarte, Manuel Figueira e Tchalé Figueira, os quatro percurssores das nossas artes plásticas; aqui vive a maior embaixadora de Cabo Verde, Cesária Évora e alguns dos maiores tocadores de violão, Bau, Voginha, Hernani ou Vamar;

5. Significativo? Então porquê esta sensação de que a cidade definha, se envergonha, se encolhe perante tantos gigantes? E porquê este incómodo de parecer que ninguém se importa com o rumo que a cidade está a tomar?;

6. Dêm uma vista de olhos retrospectiva pelos jornais na campanha autárquica. Se S. Vicente é a ilha cultural, se o mindelense gosta e se orgulha de reivindicar que vive na «capital cultural», então porque se ouviu falar tão pouco de cultura durante a campanha? Eles eram vendas de terrenos, impugnações, emprego (ou a falta dele), campos de futebol, pobreza (material, claro), ambiente, turismo, desenvolvimento económico, investimento estrangeiro. Qual o destaque dado à componente cultural, quais os projectos estruturantes propostos, as soluções protagonizadas, para continuar a fazer do Mindelo a locomotiva da cultura cabo-verdiana? Não ouvi dizer nada. Nos jornais, nas entrevistas o destaque dado à componente cultural do município de S. Vicente foi praticamente nulo;

7. Podem-me dizer que nos programas eleitorais todos tinham propostas para a cultura. Mas o certo é que se a comunicação social dá destaque a certos aspectos em detrimentos de outros é porque os políticos assim pressionam ou a população assim o exige. Ou porque esses são temas que tem alguma influência no modo como o povo coloca a cruzinha, na hora do voto. Se a cultura fizesse parte, hoje, dos interesses e preocupações de todos os mindelenses, certamente esse aspecto teria eco no que foi falado, discutido e proposto durante a campanha eleitoral;

8. Uma cidade não vive apenas de acontecimentos. Vive de lugares. De sítios. De espaços. O que está a acontecer com o Mindelo é que embora os acontecimentos culturais mais importantes se mantenham vivos e punjantes, dando-nos essa ilusão de vivermos num oásis cultural que é cada vez mais fictício, a cidade está a perder as suas referências e com isso a sua própria alma. Os exemplos são muitos;

9. O Éden Park morreu. Ninguém se importou muito, ou pelo menos manifestou publicamente o seu pesar. Andar pela Praça Nova hoje e ver aquele edificio lindo, histórico, pleno de memórias, assim abandonado, provoca em mim uma tristeza incomensurável. Deixei de lá ir, em passeio, mesmo sabendo que a banda municipal ainda toca lá aos domingos, fardada e vaidosa, para as crianças que dançam em roda, dando-nos a sensação de que, se calhar, ainda há esperança para a urbe moribunda;

10. O Centro Nacional de Artesanato está fechado há 7 anos. Escrevo bem, sete. Foi uma das primeiras intenções do novo governo após a vitória retumbante de 2001, recuperar aquele edificio e aquele espólio, tão maltratado nos anos anteriores. Os seus mentores voltaram à casa que ajudaram a fundar, apesar da humilhação a que haviam sido sujeitos anteriormente, e predispuseram-se a trabalhar para salvar o que ainda podia ser salvo. Hoje, depois de vários anúncios oficiais, continua fechado. Fala-se agora que vai ser no próximo 5 de Julho, dia da Independência. Se for mais um falso alarme, paciência. Ninguém vai reparar, ninguém vai gritar ou manifestar-se. Como das outras vezes;

11. Sente-se a mágoa nas entrevistas, na voz, na escrita e até na obra de Luisa Queirós, quando ela fala do Centro Nacional de Artesanato. A artista denunciou publicamente em entrevista ao Arte & Letra que peças valiosas da história do artesanato nacional, recolhidas e/ou fabricadas no pós-independência foram roubadas, extraviadas do CNA e ninguém sabe ou explica o que aconteceu com esse património. Que eu saiba, ela não foi publicamente desmentida por ninguém, nem oficial nem oficiosamente, e portanto, das duas uma: ou não sabem o que se passa ou se sabem, não estão muito preocupados. Porque até agora ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu. Pior: ninguém sabe muito bem o que foi que aconteceu naquele lugar durante os últimos sete anos. A cidade importou-se? Reagiu? Deu um safanão no centralismo? Não;

12. O Centro Cultural do Mindelo está mais bonito, mas perdeu a sua alma. A saída do bar do corredor da entrada para um local pouco ou nada acessível, a nova decoração, acabou por fazer com que o que era antes um dos poucos locais onde artistas, actores, escritores, músicos, se podiam encontrar, num final de tarde, deixasse de existir. Há que reconhecer o trabalho da gerência do CCM, o esforço que é feito com pouco apoio da tutela e o orçamento ridículo que é disponibilizado, as parcerias que vêm sendo feita com grupos de teatro, dança, músicos e artistas plásticos. Mas há que reconhecer, hoje, que Mindelo perdeu um local que era de passagem obrigatória, mesmo que não houvesse actividades culturais a acontecer. Hoje, vamos lá, se houver um espectáculo, uma exposição ou para comprar um livro. Apenas e só. Os meus finais de tarde ficaram mancos;

13. Vários outros sintomas estão espalhados pela cidade, como uma peste, só não vê quem quer: a demolição do Café Royal; a invasão escandalosa e «betoniana» da marginal do Mindelo, que nos cobre o pássaro e a vista; o encerramento ou a morte lenta dos bares nocturnos de referência e das célebres noites cabo-verdianas; os concertos musicais concentrados nos hotéis de luxo; a falta de uma geração de artistas plásticos contemporâneos que ousem, reflictam, confrontem e desafiem com a sua arte o estado actual de coisas; o quase desaparecimento da associação Funaná e das actividades a ela ligadas, nomeadamente de edição – revista Da Fala – ou de promoção de ciclos de documentário e/ou produção vídeo. Muitos outros exemplos poderiam ser dados. Mas estes chegam, não?

Costuma-se dizer que o pior doente é aquele que não sabe – ou não quer – reconhecer os seus próprios sintomas. O mindelense deve ser capaz de olhar para si próprio e reconhecer que as coisas não estão nada bem. E reagir. Antes que a doença se torne terminal.


Mindelo, 30 de Maio de 2008




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18 comentários:

Kuskas disse...

Puxa João, hoje acordaste com a macaca, como dizem os brasileiros.

Como tu não sou mindelense de mascença, mas sou-o até o tutano do meu ser.

Cada vez que vou a Sanvicente tento encontrar no olhar dos mindelenses aquele olhar de reinvidicação que sempre nos caracterizou, mas deparo-me sempre com aquela atitude de "Mindelo está assim, a culpa é do Governo, ou então a culta é da Camara".

Acho que esquecemos que quem faz a vida de uma cidade/ilha são as pessoas que vivem nela. Se SV está do jeito que está é em 60% por culpa de nós, os sanvincentinos. Nós somos que permitimos que barbaridades sejam cometidas, como é o caso da obra em frente ao Passaro, do centro cultural do Mindelo, do Centro de Artesanato, da "praça Don Luis" e da Praça Nova.

Porque acham que a Praia, apesar de tudo começa a ter uma vida cultural? Acham que é por obra e graça do Ministro da Cultura ou mesmo da CMP?? É pelo esforço de alguns que acreditam que esta cidade merece e pode ter uma vida cultural forte, como a que Mindelo tinha há alguns anos atrás.

Não sei o que se passa com as pessoas em SV. Não sei do que estão a espera para operarem a mudança necessária daquela ilha... é caso para dizer P****ra

Estou contigo neste desaforo João

Redy Wilson Lima disse...

Pelo menos na Praia falou-se (do lado de Ulisses) durante a campanha de dotar a capital de uma agenda cultural (tantos eventos culturais diariamente e ninguêm dá conta)entre outras coisas culturais. Veremos se sai mesmo do papel ou é promessa para Inglês ver. Do pouco que conheço do mindelo (fui bastante pequeno)penso que a questão cultural seria muito pertinente, ainda mais quando se fala do turismo.

Eileen disse...

Bravo, João! Apontaste o dedo a uma série de coisas graves que se estão a passar. Sinto falta também de ir ao bar do CCM e encontrar lá "a malta". Lembrei-me de mais um aspecto - há uma espécie de lei que ninguém menciona mas que vigora, que impede a qualquer cidadão de falar sobre arte, em qualquer das suas formas, sem que se seja apelidade de intelectual (no mau sentido) e praticamente ostracizado. Resta saber porque é que as coisas evoluiram assim.

Anónimo disse...

Esta vai dar luta João...

Anónimo disse...

Aí João, muito bom esse teu manifesto.
Apenas um adendo: A nossa embaixadora era uma figura merginal à cultura mindelense até explodir num festival na PRAIA.
Aquele Abraço

Hiena( chiça,quase chorei, eh eh) disse...

...Mindelo esta,culturalmente, definhar-se, não sô, por falta dum "programa" cultural,além dos que conhecemos,não por falta de gente capaz, o que é triste, mas por falta de ATITUDE, de desenvoltura, de ideias( hà algumas mas não se vêem...), as pessoas dormiram muito em cima da pseudo-capital-da-cultural, e quando acordaram a cultura,essa também acordava,algures na Ilha Grande...Acho que o Ponto 3 é importantissimo, pois a cultura não devia ser sazonal,muito pelo contrario...devia acontecer todos os dias todas as horas, semanas, meses...
e é triste,estode longe,ser espectador(não por gosto) desse definhamento,desse agonia, dum cidade que podia estôde culturalmente avançôde...sabendo ainda por cima que têm gente capaz de fazé tcheu coza...

Grande post JB,real,cru, "um sôco na estome" que gent ta tmà que gosto,porque têm gent que ka ta durmi na forma ...

Anónimo disse...

Os mindelenses gostam de Cultura, mas mais ainda da cultura física.
VTM

João Branco disse...

Bem, como escrevi apenas o que me ia na alma, nao tenho muito a acrescentar num comentário aos «comments» generosamente aqui publicados. Apenas dizer ao Anónimo que este post vai precisamente contra o teor do que escreve. Nao pretende reivindicar, mas sim despertar. E se quisermos realmente escrever a história de como e quando e onde a Cesária Évora começou a ser reconhecida, é fácil e consensual: foi fora de CV mais concretamente em França. Abr.

odair disse...

Eu sinto-me triste ao saber que a minha adorável Ilha está a perder o que de mais lindo tem, a sua pujança cultural em todas às vertentes, às manifestações de cultural que sempre caracterizaram Mindelo, enquanto cidade cultural cabo-verdiana.

A cultural não é só da responsabilidade do Governo ou das Câmaras Municipais, ela é também da responsabilidade dos munícipes, que devem colaborar na criação projectos culturais e não só, exequíveis de forma a se preservar os traços culturais característicos da nossa cultura, que é rica em muitos aspectos.

Infelizmente todos ficam à espera que venha alguém fazer algo em prole da cultura, enquanto devia ser nós a faze-lo, e, enquanto assim for teremos hábitos, tradições e costumes a desaparecer à cada dia.

Em particular vivi algumas experiências de como é difícil aliciar os jovens a organizar seja o que for, por mais pequeno que seja, não sei se ainda assim o é, pois há 5 anos, que vivo fora de São Vicente, com muita pena é claro. Os nossos jovens (não todos) não possuem aquele espírito de “luta”, de entrega de alma e coração a certos projectos culturais, que tanto almejamos com vista a preservação e manutenção da nossa cultura, preferem antes, novas influências contemporâneas, caso do hip hop e outros.

E deveras sintomático que sítios emblemáticos, caso do Café Royal, o Éden Park, o Bar do CCM, entre outros, de expressões culturais tenham fechado ou simplesmente desaparecidos, sinto-me profundamente triste ….


Não deixem morrer a nossa alma cultural, lutem com a bravura do mindelense!


Abraç tds

Adriano Reis disse...

joão! em abril estive em s.vicente depois de uma ausência de quase 5 anos. Cá em lisboa dizia-me que S.Vicente "ta sabe pá fronta!" quem vai de férias atrás das miúdas é claro quel tá sabe! mais da minha parte fui atrás das convivências que deixei no C.C. do Mindelo, ir ao Eden-park, e encontrar uma cidade a respirar cultura mesmo! é pá! voltei a lisboa magoado e triste! e com uma nova imagem na cabeça "CASIBODI". pq já não se pode fazer a vida a noite! joão e se alguém torrar o juizo com estas puras verdades! aproveita e bem sa praias e os palcos do Brasil!...

neulopes disse...

João, estou inteiramente de acordo contigo. Que ninguém faz nada ou se manifesta, não é bem assim. Afinal tu mesmo estás a manifestar-te neste momento. E sou testemunha que já manifestaste várias vezes, inclusive frente à Edil Mindelense. Eu também já manifestei meu desagrado e indignação, principalmente no que diz respeito ao Eden-Park. O que se passa neste instante é grave. Mas muito se deve à atitude puramente comodista dos mindelenses, da falta de união de vários artistas, inclusive no teatro. Ficamos todos à espera que algo aconteça e em vez de pedirmos ajuda aos mais experientes (acaso estes estejam dispostos a ajudar), acusamo-los de tentativa de monopólio cultural. Eu, particularmente, não desisto de minhas lutas e é uma mentalidade que sempre tento transmitir à minha companhia. No entanto, nõa é nada fácil. O pessimismo tomou conta dos humanos do Mindelo. A nossa mais recente peça não teve nenhum apoio da Câmara Municipal. Aliás, a Dra. Isaura Gomes disse(e ouviste isso bem): "não apoio projectos. S. Vicente está cheio de especialistas em projectos". No entanto, não desisti e fizemos essa grande produção com 49 contos. O BCA ofereceu-nos 5 contos. Mas não desisti. E a peça está a ter o sucesso devido a muito pensar, suar e fazer jogo de cintura. Acho que é essa atitude que deveremos ter sempre. Criar projectos, ter ideias, procurar ajuda e fazer de tudo para concretizá-las, mesmo que os apoios não existam. Também devemos mostrar as nossas ferdas. Reivindicar pelo direito à sua cura e, se possível, metermos a mão nas feridas dos que nos queiram ferir. Para que possam sentir como é doce o sofrimento. Isso não é uma República das bananas e nem uma terra de ninguém.
Não somos profissionais? Mesmo assim vamos agir com profissionalismo, dedicação e, caso necessário, com dureza que baste.
Deixo-te um pensamento do célebre Budha: "Se alguém tem algo a fazer, que o faça com todas as suas forças. Um peregrino irreflectido só levanta a poeira do caminho".
Abraços fraternais

Alex disse...

Meu Caro
Estiveste por cá e não tivemos tempo de ter tempo para nós. C'est la (pute de la) vie (em itálico, se pudesse). Um fugaz abraço em dia de muito stress, mas valeu! Os prometidos cafés ficam de pé! Não será por isso que a nossa conversa não prosseguirá. Este teu post é, como dizes, sintoma de algo mais profundo. Aliás, a nossa blogosfera tem sido há já algum tempo o divã privilegiado onde a nação vem confiando as mágoas, as suas perplexidades, e também o melhor que por aí se vai fazendo e dizendo. Pergunto-me mesmo a quem interessa toda esta distracção.
É bom saber que há culpados, com nomes, rostos, cargos e funções para tudo o que aí referes. Que não se confunda pedir-se RESPONSABILIZAÇÃO por actos e omissões graves de quem de direito, com "caça às bruxas", "perseguição política", ou como já me disseram "guerras entre Norte e Sul". Já falamos disto variadíssimas vezes, e é sempre bom voltar ao "lugar do morto", mas, sinceramente, já é tempo de evoluir. Evoluir, não na continuidade (que é o que ELES querem), mas para outras formas de luta. Sim, que de LUTA aqui se trata. Não vale a pena eufemismos, mais palavras, e ‘florilégios’. Pensava eu que tudo isto era SÓ fruto de uma imensa inacção. Hoje concluo, que aliada à inacção de quem de direito (os responsáveis pela condução da política cultural, Ministério, Câmaras, e outras instituições), o que por si só é gravíssimo, junta-se a acção destrutiva, corrosiva, larvar, da incompetência, da desorganização, da insensibilidade, da inaptidão, de erros clamorosos de 'casting', do mais pobre e ridículo amadorismo, do espírito de funcionalismo público onde deveria estar a imaginação e a criatividade. É neste pantanoso caldo de incultura que a nossa cultura está atolada. É um salve-se quem puder silencioso, um monstro bloqueador que necessita ser lancetado, que, em vez de fazer o que lhe compete, incentivar, apoiar, ajudar, programar, preparar, antecipar, faz o contrário, produz desnorte e vazio, semeando desertos à nossa volta, e desperdiçando oportunidades irrepetíveis (Vai até ao sítio do Bianda que encontrarás lá mais.).
A política cultural cabo-verdiana é a maior fonte de desperdício nacional. Que a cultura é um dos nossos mais importantes recursos, se não mesmo o mais importante, já todos o sabemos. Daí que este estado de coisas não pode continuar a ser uma fatalidade.
Mas não é só do lado institucional e público que as coisas estão mal (Afinal, lembro-vos que "ELES" somos nós todos, por mera delegação política temporária)! Todos nós somos culpados, e o que se passa aí no Mindelo é incúria, desmazelo, desinteresse, e indiferença do caboverdiano em geral, e do MINDELENSE em particular. Como tu aí dizes não é por falta de conhecimento e informação. Toda a gente sabe o que passa. Lamúrias e lamentos já não chegam. Exemplo. Leio o César no Bianda, e verifico que vai haver uma importante exposição de artes plásticas, pluridisciplinar, e que nem um simples catálogo se consegue imprimir por falta de meios (um catálogo não é um álbum de vaidades, mas um DOCUMENTO necessário para memória futura da história das nossas artes, e uma peça indispensável para um evento desta natureza). No entanto, pasme-se, constato que há dinheiro para se publicarem livros de poesia e outras obras avulsas, sabe lá Deus sob que critérios, méritos e políticas editoriais, e não há dinheiro para isto? Mas quem é que decide estas coisas? Que me perdoem os poetas, muitos deles meus amigos cuja obra sigo com interesse e prazer, mas expliquem lá por que razão um qq livro de poesia, conto, ou romance, é mais importante que um catálogo de uma exposição, um programa para uma peça de teatro ou para um concerto de música? No actual contexto cultural, e perante regras de mercado, e limitações orçamentais, não faz sentido tal política (esse papel deveria caber prioritariamente às Editoras, sujeitando-se os escritores ao mérito da suas obras) como sou frontalmente contra, com uma única excepção, a saber, obras de autores já desaparecidos ou de importância histórica sem valor comercial para as editoras (entre outras razões estruturantes de uma verdadeira, mas inexistente, política do livro e da leitura, que não cabe aqui esmiuçar). Os critérios editoriais deveriam apoiar estas actividades prioritariamente pela sua importância, pela sua ‘marginalidade’ face ao apetecível mercado do livro, mas também porque elas não cabem na atribuição das Editoras enquanto centro de negócios, mas sim, como seria natural, face a uma inexistente rede de museus públicos e galerias privadas, competiria à BNIL colmatar esta lacuna. Já nem falo em “obrigar-se” as empresas que enriquecem todos os dias aí em Cabo Verde a canalizar parte do seu orçamento anual para apoio às actividades culturais alternativas, que não apenas para duvidosos festivais de música, que de festivais nada têm e música muito menos.
Será que ainda não é chegada a hora para uma manifestação pública de desagravo por parte das gentes da cultura?
Será que não é chegada a hora de uma abaixo-assinado das gentes da cultura a reivindicar o que querem que seja a política cultural? Um manifesto (nem precisa ser programático) de protesto contra este esta de coisas?
Será que a nossa gente da cultura ESTÁ ACOBARDADA COM MEDO DE REPRESÁLIAS, COM MEDO DE NÃO SER CONVIDADA A SENTAR-SE NA MAGRA MESA DO ORÇAMENTO? SERÁ?
Será que já não é chegada a hora de dizerem ruidosamente, BASTA! De dizerem, MUDE-SE! Que se mude de ministro, de ministério e respectivas equipas? Basta à demagogia das autarquias com festivais de fachada que não acrescentam valor a coisa nenhuma, e não passam de gastos sumptuários e desperdício de recursos, para alimentar vaidades e demagogias de pacotilha? Basta desta autofagia sub-cultural de ver repetir a copy paste "festivais" que em vez de se complementarem, competindo saudavelmente na renovação de públicos e gostos, limitam-se a desbaratar, sem imaginação ou criatividade, recursos preciosos (Percebes ó César por que razão não tens dinheiro para imprimir um simples catálogo???).
Os agentes culturais, e vocês artistas, escritores, intelectuais têm de EXIGIR saber de onde vêm os recursos, como são gastos, e com que resultados, para que saibamos, de uma vez por todas, se estamos ou não condenados à afirmação da PIMBALHADA, da mediocridade e do vazio.
Já é tempo de ser tempo minha gente. BASTA, pôrra! BASTA! Doa a quem doer. Desinstalem-se os interesses. Desalojem-se os compadrios. Combatam-se, sem tréguas, a incompetência, os marçanos, os BURROcratas da cultura.
Já chega de post's e comment's indignados como o que aqui fica. Faça-se alguma coisa. URGENTEMENTE, e de concreto!
Invadam-se esses espaços abandonados de, e pela, cultura, invadam os ministérios e os Institutos com mainf's artísticas, cortem-se as ruas com criatividade e beleza, pendurem-se cartazes e panatas pelas ruas, denunciando tudo isto. Usem a imaginação, mas PROTESTEM PÔRRA! Pior é impossível!
Repito o que já disse noutro lado: demitir este Ministro e a sua Equipa é UM ACTO DE CULTURA. Depois do que se passou com a (DES)organização da nossa presença na Feira de Livro de Lisboa, ou o Sr. Ministro Manuel Veiga demite-se, ou tem de ser demitido pelo Sr. 1º Ministro.
Parafraseando Daniel Filipe, "HÁ QUE INVENTAR A INDIGNAÇÃO COM CARÁCTER DE URGÊNCIA!"
José Eduardo Cunha

Sisi disse...

O teu desaforo João está intrinsecamente ligada a tal crise de mentalidade, que está assolando a nossa ilha (e ñ só), que muito tem sido discutido aqui no margoso.

João Branco disse...

Pois é, gente. Muitos desabafos, mas deixo aqui um sinal de desesperança ao ZCunha. Meu caro, infelizmente, e eu sou um optimista por natureza, a auto-denominada classe artística cabo-verdiana está cada vez mais autista, voltada para si mesma, egocêntrica e preocupada com as SUAS (de cada um) coisas: o seu CD, o seu grupo, o seu espaço na comunicação social. Não acredito que haja, HOJE, quem se predisponha a dar azo a um movimento artístico GLOBAL E NACIONAL, TRANSDISCIPLINAR E GENEROSO a bem da criatividade, do desenvolvimento de um verdadeiro programa de formação artística ou de task-force para uma implementação de uma politica cultural no arquipélago. Infelizmente, penso que é este, o actual estado das coisas.

Peço desculpa por este assomo de narcisismo, mas ás vezes tenho a sensação de estar a pregar no deserto. Amém.

Almiro disse...

Permitam-me dizer que, face à manifestação geral de muitos Mindelenses e não só, não poderei acrescentar grande coisa porque há muito não fui a "Soncent". Entretanto, eu vejo o problema como algo mais profundo e generalizado. Acho que, demorámos demais a fazer da cultura uma indústria, comme il faut, que a meu ver deveria ter alguns vectores primordiais:
1.Usar a musica como carro-chefe por ser aquela que daria resultados (a meu ver) mais rapidamente
2. criar um Ministério da Musica de forma que os recursos financeiros e não só, fossem direccionados com mais intensidade e sabedoria para esta forma de arte (sei que só criar não basta)
3. criar escolas de arte para criar, aproveitar e moldar os talentos,etc...
2. Criar circuitos musicais regionais em cada ilha que tivesse tal apetência e integrá-la num circuito turístico devidamente divulgado para permitir organização atempada de quem se interesse a vir.
3.Incentivar um turismo nacional com pacotes para todo o ano para quem estivesse de férias e que quisesse conhecer outras manifestações de outras ilhas, isto é, fazer deslocar o publico interessado e não somente um grupo musical (de tempos em tempos,diga-se)....enfim, organizar e enriquecer o que temos visto de forma individual.
4. Uma vez criado o circuito para musica, extendê-la às outras formas de arte gradualmente (eu adoraria que o teatro pudesse ser trazido às outras ilhas de forma mais sistemática e não dependente de iniciativas esporádicas 1 vez por ano).
5. Combater a pirataria de facto.
6. Tudo isto permitiria a Profissionalização porque haveria público e mercado.
Em suma, temos que deixar de ser Amadores (de espírito) mesmo que o sejamos de facto e deixarmos de desenrascanços.
É claro que estas são algumas ideias, e outras pessoas poderão ter as suas. O que pretendo é demonstrar que falta ESTRATEGIA. Dependemos demasiado de iniciativas de alguns, sem que isso esteja englobado numa POLITICA. Penso que as manifestações culturais de S.Vicente só sobreviveram até agora porque têm muita qualidade mas que o esforço individual tem seu custo pode não ter sustentabilidade a longo prazo, principlamente num meio economicamente fragilizado como tem sido o de Soncent. Abraços a todos.

Kuskas disse...

João, este teu desabafo parece ter surtido algum efeito.
Hoje ouvi o nosso "Ministro da Cultura" a falar sobre a situação do Centro NAcional de Artesanato e ele disse que os MINDELENSES tem razão quando reclamam do "estado do CNA"....

vou continuar atenta

João Branco disse...

Almiro, há muito no teu comentário que dá para outras discussões. Eu por exemplo tenho muitas dúvidas na forma como se utiliza o termo "industria da cultura" e não é de hoje. Uma coisa tenho a certeza, não se cria como numa fábrica, não se produzem artistas por decreto, nem penso que o desenvolvimento da arte e a conquista de uma contemponareidade absolutamente vital esteja dependente de vontades mercantis. Mas isso sou eu, um utópico desfazado deste tempo...

Kuskas, duvido muito que por aqueles lados se dê muita importância ao que aqui se diz e escreve. Mas se essas declarações existiram... vamos ver.

moreia disse...

Para uma re-evolução cultural tem-se que se dar as mãos. Criar um grupo forte e solidário. E criar "happenings", performances na cidade e edificios vazios, e outros eventos para mostrar a força criativa e convicção que queremos uma mudança... e os grupos de teatro, musica podem ser de uma grande ajuda pela sua organização já bem enraizada.

Digo isso ou não digo nada...