
Paixão Cega
Certa vez, nessa alucinada realidade, ele encontrou uma mulher de mil belezas.
Quando a aparecida lhe tocou no braço e ele a fitou, um frio o golpeou: a moça não tinha olhos. No lugar das órbitras, o que se vislumbrava eram dois vazios, dois poços sem paredes nem fundo.
- O que aconteceu com seus olhos? - tremeluziram-lhe as palavras.
- O que têm os meus olhos?
- Bom, não os vejo.
Ela sorriu, espantada com o embaraço dele. Que ele devia estar nervoso, incapaz de acertar as visões.
- Os olhos de quem se ama nunca se vêem.
- Entendo - afirmou Ntunzi, recuando às mil cautelas.
- Tens medo de mim, Ntunzito?
Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para o meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
- Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.
Mia Couto in "Antes de nascer o mundo"


3 adoçantes:
Liiiiindo ! Ou não fosse Mia Couto...
É verdade...A paixão exarcebada comcede-nos a ilusória aparencia de propriedade do objecto da nossa paixão, que escondemos no mais íntimo de nós numa tentativa de posse absoluta que jámais se conseguirá e nos lancará no abismo da procura de algo que já não é...porque nunca o foi!
E não é?
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