Crónica Desaforada

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Os Equívocos da Critica

1. Queixamo-nos muitas vezes da falta que faz a Cabo Verde o que designamos de “espírito crítico”, que pode ser definido, grosso modo, como a capacidade – ou a coragem – para fazer determinada análise sustentada, que seja suficientemente elaborada, de forma a conseguir ser acompanhada ou não de um determinado juízo de valor, que pode ser positivo ou negativo. No campo artístico o vazio absoluto deixado pela falta de uma corrente crítica que pudesse ser uma espécie de barómetro da criação artística nacional nas suas diversas vertentes, é ainda mais patente. A verdade dos factos aqui é uma e apenas uma: não há uma tradição crítica no país, seja no campo político, social ou, principalmente, na área artística, e isto considerando qualquer uma das suas componentes (literatura, teatro, música, dança, artes plásticas ou multimédia). O primeiro grande equívoco da Critica (que inexiste) é precisamente pensar-se que ela tem terreno para germinar no nosso país e que só não está mais presente por alguma razão misteriosa que ninguém no seu perfeito juízo é capaz de revelar ao comum dos mortais.

2. A razão de ser, ou a principal razão de ser, se quisermos, será o facto de sermos um país de primos e enteados, onde toda a gente se conhece e onde não nos é permitido ter um distanciamento pessoal entre quem pretende criticar algum objecto artístico e o autor dessa mesma criação. E mesmo no caso de haver esse distanciamento, continuamos com uma mentalidade que produz um pensamento retrógrado e preconceituoso que considera que quem tem a capacidade de pensar pela sua própria cabeça construindo um discurso coerente e minimamente amparado é, antes e acima de tudo, um atrevido arrogante que tem a mania que é mais esperto que tud gent. Cá está o segundo grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (que é uma ilusão): quem escreve alguma crítica fá-lo porque tem “manias” de superioridade.

3. Aqui chegados vamos para um dos pontos mais consensuais desta problemática no país e que resume o terceiro grande equívoco da Crítica crioula (um vazio ansiando por ser preenchido): quem escreve algum tipo de análise critica – principalmente no campo artístico – é porque tem alguma motivação escusa, tão pessoal e intransmissível quanto o seu DNA, que não passa, nem de perto nem de longe, pela análise do objecto artístico em causa, mas sim por alguma não assumida motivação de índole umbiguista. Ou seja, e por outras palavras, quem critica fazendo uma avaliação negativa do objecto artístico analisado é porque é um tipo ressabiado cheio de invejas e que está em pleno processo de vingança implacável; e se a avaliação é positiva, então na melhor das hipóteses, é porque é na certa compadre, primo, amigo do namorado, o pai do artista é vizinho da mãe do crítico, sendo mais do que certo que haverá alguma razão que possa justificar a redacção de um texto elogioso daqueles, porque ninguém dá nada a ninguém se não houver compadrios ou algum favor a pagar em troca, do passado, presente ou do futuro, considerando os juros de mora e outras regalias anteriormente negociadas.

4. E daqui se identifica o quarto grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (que nunca nasceu, até ver), aqui mais de natureza etimológica do que social: aquela ideia peregrina de que “criticar” significa, em poucas palavras e em linguagem mais popular, “falar ou dizer mal de”. Por isso o termo muito em voga de “crítica construtiva”, que só passa incólume pelo desconhecimento do real significado do termo. Nada mais errado e agora aproveito esta oportunidade que ninguém me pode ver a consultar o Google ou o Wikipédia, para informar que a palavra “crítica” é originária do grego e da palavra “krimein” que significa “quebrar”, tendo de igual forma influenciado a formação da palavra “crise” (o que é uma perspectiva interessante). Diz jornalista Arthur Nestrovski que “a ideia da crítica é quebrar uma obra em pedaços para se por em crise a ideia que antes se fazia daquele objecto, através de uma análise,” Para tanto, defende, é necessário entender as partes do objecto que será analisado para justamente descrevê-lo e, a partir daí, fazer uma interpretação, ou uma releitura se quisermos, de acordo com o contexto em que se encaixa o artista, o seu percurso, a sua obra e o âmbito concreto da sua apresentação ao público.

5. Daqui se arranca a grande velocidade para o quinto grande equívoco da Crítica cabo-verdiana (uma espécie de buraco negro): que criticar é dar uma “opinião”, mesmo que consideremos que ela possa ser positiva ou negativa. Até em países muito mais evoluídos neste âmbito, com tradição de décadas de publicação de críticas nos mais diversos domínios, esta é uma realidade patente: a maior parte dos textos publicados acabam por ser meramente opinativos, uns mais bem sustentados do que outros. Além de que, em certos países, a critica tem um poder não negligenciável no sucesso ou fracasso de um espectáculo, pelo que os critérios de escolha sobre quem escreve, o que se escreve e onde isso é publicado, acaba por ser muito mais redigido por critérios comerciais do que propriamente artísticos. Quer dizer, o crítico pode dar a sua opinião, mas não é este o principal objectivo deste género de intervenção. Aquele passa, em primeiro lugar, por diversas vertentes a considerar: a crítica tem uma função informativa, pedagógica, reflexiva, testemunhal e dialogante, fazendo uma ponte entre a obra de arte e o seu público. Muito mais do que uma opinião, portanto.

6. Chegados a este ponto é fácil entender porque é que em Cabo Verde a tradição crítica nunca foi alimentada, nunca encontrou terreno para germinar e muito menos foi feito algum esforço para que a esta tivesse sido dada alguma oportunidade para sequer existir. Porque para criticar é preciso preparo. E a diversos níveis. E não há aqui qualquer arrogância, é claro como água: a crítica escrita relativa a uma obra de arte – seja um livro, um disco, uma peça de teatro, um concerto ou uma exposição – é um género literário e como tal só quem sabe escrever e tem um completo domínio da língua se pode dar ao luxo de arriscar numa empreitada como esta. Depois porque criticar uma obra de arte exige estudo e conhecimento: sobre a Arte e a sua história, no sentido mais lato, e sobre o artista, o tipo de estética com o qual este pode ser identificado, o seu currículo e o entendimento do seu percurso, para além de uma análise descritiva do próprio objecto de arte em causa, o que exige um domínio do vocabulário próprio do tipo de expressão artística que se está a analisar.

7. Pois é, criticar não é para qualquer um. Um aborrecimento, em suma. Dá trabalho, muito trabalho. Além de que, quem escreve uma crítica está a escrever algo que vai ser lido, ou seja, tem um alvo, um destinatário muito claro: o público a quem a obra de arte se destina à partida, seja o previsto inicialmente, o potencial ou aquele que resolve comprar o livro, o disco ou o bilhete da peça, porque leu um texto sobre a obra que lhe incutiu o desejo de fazer, em si mesmo, o investimento de aquisição e/ou de fruição da obra de arte. Quer isto dizer, como muito bem sustentou Luiz Camilo Osório, na sua obra “As Razões da Crítica”, “a crítica é escrita para o público, mas está ao serviço da arte.“ Há pouco abrimos um pouco este véu, quando dissemos que a crítica implica uma quase desfragmentação que obrigará, necessariamente, a uma reflexão, não apenas do público, mas também do próprio artista, quando confrontado com um olhar de fora imbuído de isenção, equilíbrio e conhecimento – os três principais requisitos para a escrita de uma boa crítica de arte.

8. O espírito crítico implica, portanto, que haja capacidade de registo, de transmissão de conhecimentos, de análise que estimule o público e o artista a uma reacção. A crítica é activa, nunca é passiva. Provoca a “crise” e só se responde a uma crise com energia, inteligência e capacidade para encontrar outros caminhos ou respostas outras que sustentem o percurso que se fez naquele preciso momento. Sem clichés, preconceitos ou arreigados nos hábitos que epidermicamente a televisão e a sociedade de consumo liberal e capitalista vai impregnando à maioria da população mundial, que está cada vez mais se comportando como um rebanho de robôs que segue para o mesmo caminho da maioria, tal como acontece por aqui quando toda a gente vai para o mesmo bar, só porque “está na moda.” Mas isso já é outra conversa, a das modas, que dará, certamente, para uma futura conversa de café.

9. Daqui se entende, por fim, porque nunca tivemos (e dificilmente teremos) no arquipélago num futuro próximo não apenas um espírito crítico aguçado e pronto para servir o desenvolvimento do todo social e cultural, como pessoas preparadas e com vontade de cumprir essa função de escrever e dar a cara por uma actividade que tem tanto de espírito de missão como de pedras no caminho. Por isso o crítico tem que ter uma paixão e um amor pelo seu objecto de estudo, assim como ter a inteligência de, como escreveu Fernando Pessoa, construir o seu castelo com as pedras que for encontrando ao longo do seu trajecto.

Crato (Ceará), 20 de Novembro de 2009




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6 comentários:

Anónimo disse...

Pois é! Mas a verdade é que, normalmente, quando as pessoas pedem uma crítica querem apenas um elogio!

a) RB

zito azevedo disse...

Julgo que a culpa é do pão: quando a côdea é saborosa e estaladiça, a fraca qualidade do miolo passa despercebida...

Anónimo disse...

A verdade é que há duas faces dessa moeda:a que muito bem desenvolveste na tua crónica, e a outra que é a natureza humana cabo-verdiana, vaidosa e orgulhosa, que nos impede de abrir a nossa mente a críticas, e de vê-las como um eventual contributo para a melhoria. Lembras-te do sururu à volta da Sra. Brasileira que teve a ousadia de criticar a gastronomia cabo-verdiana e os costumes gastronómicos do cabo-verdiano? Foi literalmente linchada em "praça Pública", e parece-me que tão depressa a Sra. não volta a pôr cá os pés! Mas quando aparece uma figura qualquer, a enaltecer Cabo Verde, enchemos o peito que nem perús, olhamos para África de "cima para baixo", e bazamos basofaria. O crioulo é basofo, e aceita pessimamente qualquer tipo de crítica. Achamos que o mundo tem obrigação de rodopiar à volta do nosso umbigo, e é bom de perguntar-se o que andamos a fazer para melhorar a nossa imagem, o meio que nos rodeia, e quiça o próprio mundo?

Pimintinha

miranda disse...

crítica...crítica acritica. No seio da nossa gente acho que é preciso ir ão fundo da nosso endogenia para encontrar a razão de ser dessa nossa atitude. Debruçar sob o conhecimento para atingir o saber, do saber á capacidade de questionar e daí o ousar, que nos leva ão querer saber para alimentar sempre o arque das coisas. Da oralidade á literariedade temos um grande caminho a percorrer, que só a escolarização não chega. Para isso precisamos elevar a nossa postura sem a violência verbal, que tem sido sustento da falta de ética e vem fazendo escola na nossa sociedade. Assim o saber ser e estar fará juízo entre nós.
Terrinha Vermeia opinou...

JB disse...

Excelentes e pertinentes, os vossos comentários. Muito pano para mangas...

JB disse...

Excelentes e pertinentes, os vossos comentários. Muito pano para mangas...