Declaração Cafeana

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Sempre que vou para fora do país para alguma palestra ou conferência sobre o teatro crioulo ou sobre o festival Mindelact, acabo sempre, como é natural, por falar um pouco do país, da sua actualidade, situação geográfica e características sociais, havendo dois aspectos que sempre faço questão de referir: que aqui se tem a possibilidade de fazer usufruto de dois dos mais preciosos bens da modernidade: o tempo e o espaço.

O tempo porque não se vê ninguém, nem numa cidade já com uma dimensão razoável como é a Praia, a gastar 2, 3 ou 4 horas por dia em transportes, sejam eles públicos ou privados, como acontece em cidades gigantes como S. Paulo ou em cidades caóticas como Luanda. Estas 2, 3 ou 4 horas podem pois ser utilizadas noutras actividades produtivas, mas fundamentalmente naquilo que eu designaria em situações de afecto: a namorar, a estar com os filhos, a ler, a tomar banhos de mar, a dormir a sesta, no fundo, a viver um pouco melhor.

O que se diz do tempo é válido também para o espaço. Quando me falam da claustrofobia de ser-se um ilhéu, por ter mar a toda a volta, a minha resposta é: o mar não é uma prisão, é um espaço de liberdade. A possibilidade de sair-se da cidade e em poucos minutos estar-se isolado no Monte Verde ou num dos miradouros da fantástica estrada entre a Baía das Gatas e o Calhau, por exemplo, mostra o quanto podemos também nos considerar uns privilegiados do espaço, porque aqui se respira melhor. Sofucado sinto-me eu depois de uns dias em cidades grandes com um sistema de transportes péssimo, onde se demora uma eternidade para se chegar a um determinado lugar, entre empurrões, fumo, barulho de tubos de escape e esperas em paragens de autocarro. Além de que, uma eventual sensação de isolamento ficou bastante atenuada com o advento da Internet que nos liga ao mundo e ao que nele vai acontecendo.

Claro que sempre podemos falar da falta de cinemas, de museus ou de grandes eventos culturais, dos preços das comunicações, dos cortes de electricidade ou das epidemias que assolaram o arquipélago nos últimos tempos. Mas falando de dentro para fora é disso que me lembro: temos as maiores riquezas da modernidade e seria bom que pudéssemos mais vezes recordar a morna que nos diz que "no ka tem ôr no ka tem diamant, ma no tem ess paz di Deus, ke na mund ka tem." Dar valor ao que de bom existe por cá, também é uma forma de combater os males que nos assolam.




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4 comentários:

ManuMoreno disse...

[Aplauso]...!!!
KelAbxomDiKuraxom!!!

Sarabudja disse...

Espicaçando a sodade. ka ta mata, ma é duedu.
Se fizermos, com o lugar onde vivemos, o mesmo exercício que devemos fazer connosco, as coisas transformar-se-ão. Há coisas verdadeiramente maravilhosas nessas ilhas.

Sarabudja disse...

Espicaçando a sodade. ka ta mata, ma é duedu.
Se fizermos, com o lugar onde vivemos, o mesmo exercício que devemos fazer connosco, as coisas transformar-se-ão. Há coisas verdadeiramente maravilhosas nessas ilhas.

zito azevedo disse...

Pois é, meu caro, a perfeição não existe e a falta de algumas coisas só nos faz sobrevalorizar o que temos, que não é pouco, embora!