Declaração Cafeana

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Hoje, 25 de Novembro, comemora-se o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. Hoje é, pois, o dia ideal para lembrar que em Cabo Verde mulheres continuam a ser espancadas, violentadas, física e psicologicamente torturadas e mesmo assassinadas, com a complacência de muitos que lhes são mais ou menos próximos, sejam eles familiares, vizinhos, amigos, conhecidos, forças de segurança ou entidades públicas e privadas. Hoje é, pois, o dia ideal para lembrar que, ao contrário do que diz o ditado popular, entre marido e mulher, se deve meter a colher sim. Denunciando situações domésticas que indiciem qualquer tipo de violência; chamando a polícia quando se presencia na rua a algum homem ou jovem rapaz a bater na mulher ou na namorada; intervindo directamente se dessa atitude depender a salvação da mulher de um espancamento sumário.

Não sejamos ingénuos: a maior parte dos crimes ocorridos neste país em que violência é usada por seres humanos contra outros seres humanos, ocorre dentro das casas, dos lares que de doce tem muito pouco e entre pessoas que se conhecem muito bem. Quando não é com mulheres, é com crianças. E quando essas crianças são do sexo feminino, a tendência é para ser ainda pior, porque não há semana que passe em que não se ouça ou leia na comunicação social de algum caso de violação, em forma tentada ou consumada, de uma menor por um familiar seu, muitas vezes o próprio pai.

Tolerância zero para com este tipo de crimes, meus caros. Não há outro caminho. Não há outra forma de luta. E essa tolerância zero passa muito por nós, homens, mas também pela educação dos nossos filhos, que devem aprender, por exemplo, que não é motivo de orgulho o menino vir para casa dizer que tem "várias namoradas", para regozijo dos pais que acham que isso é "muito macho". São mensagens como estas que geram, posteriormente, comportamentos sociais que conferem ao homem justificações de índole social, cultural e até antropológicas para sustentar atitudes de violência contra as mulheres.

Nunca é demais dizê-lo: pela parte que me toca, não violentarei, não usarei de nenhum tipo de violência contra mulheres e crianças e, fundamentalmente, não calarei e não deixarei de lutar contra o que considero ser uma das mais hediondas formas de violência humana. Um filme dizia "este país não é para velhos". A mim apetece-me dizer "este país não é [não devia ser!] para cobardes mentecaptos que batem nas mulheres."






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12 comentários:

Catarina disse...

Puseste-me logo a chorar de manhã... mas, é difícil não sentir as coisas com ainda mais intensidade nestas datas... o teu grito é lindo... mais 2 ou 3 João Brancos mudariam as coisas... um João Branco muda, concerteza, muitas cabeças. Dodu na bo!

Sarabudja disse...

É uma luta de todos.
O principio é mesmo educarmos os nossos filhos para o respeito, para com eles mesmo e com os outros.
Os agressores devem ser punidos e as vitimas devem ser ajudadas, porque se suportam tamanhas barbaridades precisam de uma mão (braço ou mesmo empurrão) para sairem daquela situação.
A violência doméstica não é um problema de classes, idades ou religiões.
Lembro aqui o "Ás Marias de óculos de sol e dor na alma" que escrevi no Sarabudjadeideias. Inspirei-me em relatos que ouço, não só na rua, mas no meu telefone, nos lanches e fugidas à casa de banho nos convivios entre amigos.
Hoje é um bom dia para mostrarmos a nossa indignação e dela fazer alavanca para a luta contra esta doença que moi mas também mata.

Helena Fontes disse...

Obrigada JB

Dia bom e que todos os dias sejam dias de luta contra a violência contra as mulheres e as crianças.

HF

zito azevedo disse...

Sobre esta chaga social já quáse tudo terá sido dito ou escrito....Mas, o que é que já foi feito?

Minhokinha disse...

Oh João, continuo a adorar ler-te. Este teu texto chama a atenção para o tipo de educação deformada que insistimos perpetuar. Basta, dizes bem. Chega de dizer que somos desenvolvidos quando na verdade ainda nos comportamos de maneira tão primitiva...

Abraço*

Felina disse...

Solidária com as mulheres que ainda sofrem... impotente para mudar algo de forma eficaz mas tenho duas filhas e já conversei várias vezes com elas para nunca aceitarem qualquer tipo de violencia e exigirem respeito sempre

K disse...

Pena joão é que vivemos num país onde tens por exemplo um deputado da Nação, que tem duas familias constituidas, bate em ambas as mulheres, é todo devoto de nosso senhor Jesus Cristo e ainda tem a cara de pau de fazer discursos na igreja onde frequente sobre a moral e valores!

Ou ainda o caso de um GRANDE e ALTO responsável que bate na mulher como se ela fosse um saco de areia para treinar boxe, não possuindo nenhuma verganha em bate-la em publico, inclusive em actos com presença do corpo diplomático (e esse gajo é da minha geração, ou seja uma geração que considero esclarecida e culta).

Depois me perguntam pq é que não demostro nenhum respeito por esses dois SENHORES, esses dois homenzinhas de M*****

Tendo sido criada em um meio onde a violencia fisica e verbal era uma constante, digo que não é fácil sair dela, mas fico feliz em ver que a minha mãe soube fazer de nós os filhos mulheres e homens que não praticam a violencia seja fisica ou verbal.

K (sabes quem sou)

Lily disse...

Nunca é demais lembrar, lembrar, lembrar...
Como mulher, agradeço-lhe este post.

HF disse...

Já agora tem outro senhor, actual membro de governo, que batia nas três ex-mulheres, entre as quais eu.

Parece que ser agressor é trampolim para ocupar altos cargos em Cabo verde. Tá-se bem!

HF

Anónimo disse...

Houve algum complot, por parte de alguns blogs, para proteger o KK B da cena que fez no parlamento essa semana? Porquê quase ninguém falou disso? Ai artistas dessa terra… Protegem-se uns aos outros? Lamentável!!!
João Silva.

JB disse...

Em relação às acusações e denúncias aqui feitas reitero o que tenho defendido: que não se cale, que se reaja, que se ponha a boca no trombone, doa a quem doer. Não me interessa se a pessoa em causa é ministro, deputado, artista ou jogador de futebol. Se bate ou bateu em mulheres, não podemos compactuar com isso.

Esse o meu apelo.

Mirian disse...

Na minha opinião, além de uma questão cultural e antropológica, homens batem em mulheres por que sofrem também de transtornos comportamentais, são DOENTES sádicos que gostam de humilhar e maltratar, sente PRAZER em fazer isso. Podemos afirmar que culturalmente, homens são criados e educados para exercer domínio sob a mulher, mas por mais doida que seja a nossa sociedade, culturalmente não ensinamos nossos filhos a QUEIMAR A PARCEIRA COM CIGARRO, FERRO, OU COLHER QUENTE. Não transmitimos que é certo SOCAR A CARA DA ESPOSA ATÉ ELA DESMAIAR. Isso é uma questão psiquiátrica. Homens assim são insanos sádicos, que tem sérios problemas com a sua sexualidade (é claro, são gays que não tem coragem de assumir publicamente sua preferência sexual e desconta suas frustações nas parceiras). Sofreram abusos quando criança e dedicam sua vida a abusar de alguém também.
E para falar a verdade, não mudam!!! nem com terapia! Não suportam frustações, são egoístas, e tem baixa autoestima. Precisam sempre de uma parceira submissa para aliviar suas TENSÕES do dia-a-dia. Deixo bem claro que mulheres que se submetem a essas situações também estão DOENTES, precisam de nosso carinho e amparo. São dependentes, acham que merecem o que estão passando, precisam de ajuda, muita ajuda.
Esse texto reflete a minha opinião, você pode concordar ou discordar...a verdade nunca é definitiva