Crónica Desaforada

11 Comments




Os méritos e deméritos do Ensino Superior

1. A entrevista que Corsino Tolentino deu na última edição do jornal A Nação é arrasadora. A todos os níveis. A visão crítica do professor e investigador cabo-verdiano é transversal a praticamente todos os sectores relacionados com o ensino superior do país, desde a actuação do Governo no sector, passando pela referência à "falta de autonomia intelectual" (utilizou este termo por várias vezes) dos actuais responsáveis públicos pela área, arrasando a qualidade do ensino público e privado, e lamentando a falta de apoio e da aposta na investigação.

2. Numa das frases mais marcantes da entrevista, afirma Tolentino que hoje "não existe uma política de Investigação em Cabo Verde” afirmando ainda que “a principal missão das instituições de Ensino Superior tem sido a ocupação temporária de uma fracção cada ano mais importante da juventude cabo-verdiana”, para rematar que faltam critérios de rigor no sector. Ou seja, as universidades tem servido mais para "ocupar o tempo dos jovens" e dessa forma disfarçar indices de desemprego e desocupação que, de outra forma, seriam ainda maiores do que são hoje.

3. Devo dizer que concordo com muito do que ele diz nessa entrevista e algumas dessas questões já foram levantadas neste blogue. E concordo também quando ele refere que a sua visão crítica não deve ser entendida como um ataque pessoal a ninguém (embora por vezes pareça), mas antes um contributo para um debate sério e descomplexado sobre uma temática que é, todos o sabemos, absolutamente decisiva para o futuro desenvolvimento deste país.

4. Não tenho qualquer problema em admitir, dentro da realidade que conheço pessoalmente, que a qualidade do ensino que se pratica nas nossas universidades é (ainda) muito precária; que há muitos alunos que estão numa instituição do ensino superior com a mesma postura preguiçosa e facilitista que provavelmente tiveram nos liceus por onde passaram; que há falta de rigor, método, condições de trabalho e uma tendência evidente para fazer deste ramo uma espécie de galinha dos ovos de ouro a explorar até ao tutano, independente dos critérios de validação dos cursos e das escolas, entre muitas outras questões que se podem apontar.

5. Bem podem as entidades estatais afirmar que a lei tem sido cumprida e que esta é rigorosa, que continuo conhecendo ditas universidades que tem professores pouquissimo qualificados para dar aulas a este nível; que continuo a ter conhecimento de instalações precárias e inadequadas; que continuam a contar-me da dificuldade que representa estudar-se numa universidade que não tem, sequer, uma biblioteca própria, que fará agora laboratórios ou salas de informática.

6. Mesmo assim há que pensar onde estamos hoje e onde estávamos há algum tempo atrás. As coisas levam o seu tempo, não se monta uma universidade pública de um dia para o outro. Erros foram e serão cometidos, certamente, mas há que dar o crédito a quem tem dado o seu melhor para a edificação de um ensino público de qualidade. Há que admitir que nem tudo é mau, que há muito boa gente, preparada, bem intencionada, com espírito de missão, a contribuir para a construção deste edifício civilizacional.

7. Há pouco mais de cinco anos atrás a grande maioria dos jovens cabo-verdianos chegavam ao final do liceu e tinham apenas duas hipóteses: parar de estudar ou ir para o estrangeiro. Hoje, o panorama é completamente diferente e um autêntico vendaval universitário tomou conta do país. Para se ter uma ideia, a ilha de S. Vicente, com os seus parcos 75 mil habitantes, tem nada mais nada menos do que 7 universidades distintas, entre públicas e privadas (contas feitas por defeito). É obra!

8. O próprio Corsino Tolentino referia, numa entrevista que deu em Agosto deste ano ao blogue Palavras Criativas que "a Universidade Pública de Cabo Verde já é uma realidade jurídica mas ainda é apenas um projecto pedagógico, científico e cultural. Necessita de visão, tempo e recursos, sobretudo humanos. Afirmo-o sabendo que posso desagradar: Cabo Verde ainda não tem uma universidade a sério, mas está reunindo condições para a ter, talvez daqui a uma década." (fonte: aqui).

9. Sendo a Universidade Pública de Cabo Verde (ainda) um projecto pedagógico, científico e cultural ainda em construção, como afirma o professor, há que admitir que está no terreno e hoje é uma realidade. Não o era há três anos atrás. Que esta Universidade Pública necessita de "visão, tempo e recursos", será questionável apenas a componente da "visão" (não é obrigatório que todos tenham uma visão semelhante), mas de tempo e recursos, certamente precisa, porque a excelência custa dinheiro. O prazo de 10 anos para se montar uma universidade pública de qualidade parece-me, pois, perfeitamente aceitável e deve lisongear quem está hoje à frente do processo.

10. Há trabalho feito. Há caminho percorrido. Há vontades mobilizadoras conquistadas. Há também muito por fazer e melhorar. Pricipalmente na vertente da regulação e inspecção dos institutos e pólos universitários que nascem como cogumelos. Por isso mesmo, todos somos poucos para dar a nossa contribuição, incluindo aqui, como é lógico, a visão crítica e a caracterização negra que sobressai do discurso de Corsino Tolentino que, com a sua experiência e conhecimento, certamente não deixará de dar o seu contributo para colmatar muitos dos aspectos que tão veementemente criticou.

11. Fundamental é remarmos para o mesmo lado e não deixar que a edificação do ensino público cabo-verdiano se transforme numa espécie de feira das vaidades onde todos saem chamuscados, poucos se salvam e o principal derrotado seria, em suma, o próprio projecto que se pretende com raizes fortes e com qualidade tal que transforme a universidade cabo-verdiana num espaço imune a quem coloque as ambições pessoais acima do interesse colectivo.


Mindelo, 27 de Novembro de 2009






You may also like

11 comentários:

Anónimo disse...

Gostaria de acrescentar aos teus comentários um aspecto que eu acho crucial, que deveria ser a obrigatoriedade dos docentes dessas instituições seguirem uma carreira académica, ou seja, muito estudo permanente, de forma a poderem estar à altura dessa muito nobre função. Deveria ser imposto um grau mínimo académico para se leccionar, ou então pelo menos a obrigatoriedade de se trabalhar para obter esse grau quando admitido a leccionar, que deveria ser ou uma pós-graduação ou mestrado. É procupante ver-se licenciados, com dois ou três anos de experiência profissional, a leccionar cadeiras como docentes principais, no 2º e 3º ano de alguns cursos superiores, isso mesmo, superiores, e não médios ou bacharelatos. Assim meus senhores , não vamos a lado nenhum. Não briquemos com coisas sérias, sob pena de criarmos uma massa de jovens impreparados, que após longos anos de labuta académica, não estarão à altura dos desafios profissionais, ou de competir com outros que tenham formação académica no exterior. E o mesmmo princípio deve ser aplicado aos outros graus de ensino: ter pessoal docente preparado e um sistema de avaliação dos mesmos.

Pimintinha

Nkrumah disse...

"Ensino superior". Sempre que oiço falar disso tremo. Talvez por ter andando 7 anos nisso ? Ainda não li a entrevista mas talvez valha a pena deitar os 100 escudos no jornal para ler sobre a "falta de autonomia intelectual".

zito azevedo disse...

É nas faculdades que se preparam as futuras gerações, as que hão-de conduzir os destinos do país a todos os niveis...Quanto melhor for a sua preparação, hoje, melhor será o futuro da naçãp, amanhã...Improvisar? Julgo que não!

Nkrumah disse...

Convinha esclarecer andei 7 anos como integrante do pessoal docente. Depois talvez por estar a sentir falta de uma certa "autonomia intelectual" ... resolvi dar um tempo ...

Anónimo disse...

João: Concordo genericamente com as opiniões expressas no teu texto. Penso, no entanto, que é absolutamente crucial fazer uma clara distinção entre a Universidade Pública e as Universidades Privadas: Quanto à primeira para ressaltar que, exactamente por ser pública (isto é, paga pelos contribuintes), ser de lhe exigir superior qualidade pedagógica e o máximo rigor avaliativo. Quanto às segundas para salientar que não só a pequenez do País e os parcos recursos de que dispõe aconselham que se evite a sua proliferação, como se impõe a manifesta necessidade de serem permanentemente auditadas e controladas, não só na vertente pedagógica, mas também na área económico-financeira.

Finalmente, por ser de elementar justiça e de meu conhecimento directo, não posso deixar de referir aqui a dedicação, o empenho, a competência e o profissionalismo exemplares da ex-Ministra da Educação Filomena Martins, não só na planificação e na implementação, no terreno, da UNI-CV, mas sobretudo na exigência que sempre manifestou quanto aos referidos rigor e qualidade.

Há ainda muito para fazer e para melhorar, é verdade. Mas as sementes estão lançadas.

a) RB

JB disse...

Bem, que não haja dúvidas: considero que os actuais responsáveis estão a fazer um trabalho notável. Estão a construir algo praticamente do zero. Aliás, basta ir ao site oficial da UniCV para ver o que tem sido feito. Há trabalho, há visão, há investigação, há opções tomadas. Ou seja, nem tudo é tão negro como alguns querem fazer passar, por muito critico que possamos ser do actual estado do ensino superior em CV.

Nkrumah disse...

No geral, concordo com o último comentário. Mas há uma passagem que me parece infeliz. Esta aqui: "Estão a construir algo praticamente do zero". Serão as instituições sobre a qual construiram a unicv "praticamente zeros"?

Por outro lado, não creio que ninguém quer passar a imagem que tudo é negro. Aliás desde de quando ser Negro é mau ???? Corrigindo portanto acho que ninguém quer passar a imagem que tudo é mau. Por acaso estou a comentar outra vez porque fui comprar "demitod" o jornal e hoje já li a entrevista (como parte interessada no assunto.)


Creio que é antes de mais um atrevimento da minha parte dizer isso,mas a entrevista parece-me ser uma análise muito importante ao nossa estado actual do Ensino Superior e Investigação. Atrevimento porque o entrevistado fala na qualidade de Doutor que estuda exactamente a questão de que fala. E a questão essencial parece-me que não é (ao contrário do que vai sendo empolado) criticar Unicv. Do que eu apreendi da entrevista a questão essencial é: de que forma podemos usar o conhecimento e a inovação para que, devidamente sustentados numa educação de qualidade, pararmos de "estender a mão"!

JB disse...

Concordo com o espírito do comentário. Nada a dizer. Mas como comentava ainda ontem numa conversa informal, é estranho como a maior parte dos alunos e professores, apesar do muito que se tem falado da qualidade (ou falta dela) do ensino superior em CV, nos blogues e fóruns, parece querer ficar á margem desta discussão, até como, usando uma expressão tua, são "parte interessada". Mas muitas vezes não parecem.

Anónimo disse...

Eu sempre chego tarde a esses debates: e me deparo quase sempre com umas guinadas do JB que me espantam de todo. A entrevista do Corsino é "uma dor de cotovelo" de todo o tamanho. Primeiro, chamá-lo de professor e investigador é forçadíssimo; segundo, todos sabem o que ele ataca, quem ele ataca, e porque razões o ataca. Tu não devias ser tão ingénuo. Criticas ao ensino superior são bem vindas e existem razões para tal, mas Corsino pela sua obcessão comprovada não reúne credibilidade objectiva mínima para influenciar quem quer que seja. Que venham mais críticas, mas nunca encobertas... cai mal, muito mal.

Passar bem.

JD

JB disse...

JD, há que saber ler o que está escrito. Para mim está muito claro. Não há ali críticas encobertas. Ele pode ter dito o que disse pelas razões que o senhor referiu, mas "nem toda a gente sabe disso", como parece ser tão claro por aí.

Não há aqui nenhuma guinada. Há uma reforçar de certas críticas com as quais concordo, independentemente de quem as proferiu - este tem sido tema recorrente aqui no Margoso, como deve saber se é cliente habitual - e faço questionamentos sobre as intenções de tal intervenção.

Portanto...

P.S. E pelos vistos, tal entrevista, de muitas e muitas páginas, onde foram ditas coisas graves, mas a única reacção pública que houve foi aqui mesmo. Enfim, pelo menos alguém comentou a entrevista do homem!

Ariane Morais-Abreu disse...

O anonimo JD falou certo!! Na verdade, a grande maioria carece de "autonomia intelectual" parafraseando a expressao de Nkrumah e podera ser isso o maior fracasso da Unicv. A criatividade nao vale somente para as coisas artisticas, mas também para a organizaçao do indispensavel ensino superior PUBLICO que podera garantir a perpetuaçao da mais valia cv, como para a organizaçao/gestao do pais no seu todo...