Tertúlia dos Mentirosos 79

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«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.»

José Saramago - primeiro parágrafo do novo romance "Caim", lançado esta semana. Genial, não?

Pintura "Adam and Eve" de Tamara de Lempicka





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5 comentários:

ManuMoreno disse...

O meu Poeta/Escritor/Artista/Campositor ideal, sao aqueles que se metam na minha vida!

ManuMoreno
Kel Abxom Di Kuraxom!!!

da caps disse...

Será lançado em Portugal esta semana uma nova versão da bíblia, num conceito diferente do habitual, para quem já teve contacto com o livro sagrado para os cristãos. É a bíblia na versão prosaica, que demorou 10 anos a ser elaborado.

Fica a informação, para que os frenéticos anti-bíblia e amantes da proza, e que eventualmente muito pouco o poderão conhecer na realidade.

P.S.
Pessoalmente estou curioso e presumo que a reacção de quem conhece a bíblia tradicional pode gostar ou não, de forma semelhante como quando gostamos ou não da tradução de um livro em filme..

Ivan Santos disse...

djes flaba ma staba sabi...ma n'ka fazia ideia ma era assin...!!!
djam fika ku águ na boka!

zito azevedo disse...

Parece faltar algo, para além de enfiar a lingua pela garganta abaixo: é que, que eu saiba, sem cordas vocais ninguém fala, por maior que seja a lingua...Saramao parece ignorar!
Zito

zito azevedo disse...

Confirmando as afirmações da extrema violencia da Biblia, lembrei-me que houve aquela guerra em que morreu 1/4 da população da Terra - quando Caín matou Abel...
Zito