Declaração Cafeana

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E Manuel Veiga, mais o linguista e cidadão do que propriamente o Ministro da Cultura reagiu (aqui) ao autêntico vendaval de discussões que segue na Internet, seja no Fórum de ASemana seja no Tertúlia Crioula (aqui), este último batendo autênticos recordes de participação, com mais de 500 comentários até à data (e com esta longa reacção de Veiga, promete continuar).

Sou daqueles que pensa este tipo de discussão pode ser não só útil como bastante elucidativo sobre a forma como cada um defende os seus pontos de vista, assim como nos mostra como a intolerância, o ódio e a maledicência entre cabo-verdianos está demasiado presente na discussão desta temática da língua. Uma discussão que, pela forma e conteúdo que a caracteriza, pode tanto ajudar a esclarecer quanto a confundir os mais incautos, até porque há argumentos válidos de "um e do outro lado". Além de que acontecem fenómenos curiosos, como o facto de haver alguns indivíduos que acabam dominando o debate, assumindo os mais diversos pseudónimos mas cujo estilo de escrita facilmente indicia se tratar de uma só pessoa; ou o caso curioso de eu próprio ter "aparecido" no debate do blogue Tertúlia Crioula sem ter feito nada para que tal acontecesse (alguém colocou, no meu nome, um dos textos que escrevi aqui sobre o tema.)

Mal ou bem, chama-se a isto socializar uma temática. Ou seja, dar à sociedade a oportunidade de dizer de sua justiça, de se informar melhor, de debater e propor. E o grande avanço que está a ser dado na actualidade, com décadas de atraso, é-nos permitido pelas novas tecnologias, onde centenas de pessoas situadas em locais diferentes do planeta, podem participar, praticamente em tempo real, numa discussão sobre qualquer assunto. Isso é algo que nunca foi feito de forma convincente, sendo que, volto a dizer, o maior erro que se cometeu em todo este processo foi a opção pela política do facto consumado.

Volto a chamar atenção para a postura equilibrada assumida pelo Corsino Tolentino sobre esta matéria (aqui), assim como para a frase final do texto de Manuel Veiga que originou a presente declaração: "Fico por aqui, na certeza de que o debate vai prosseguir de forma serena, assumida, fundamentada, respeitadora, e melhor ainda, se for com a morabéza que tem caracterizado a tradicional idiossincrasia do nosso povo." Sinceramente, pela forma desastrosa como este processo tem sido conduzido, e pelo que se tem lido e ouvido um pouco por todo o lado, parece-me que já vai um bocado tarde. Por aqui ficamos à espera dos próximos capítulos.


Adenda: aconselho a leitura atenta de mais um extenso e elucidativo texto sobre a matéria, desta vez dando ênfase ao aspecto legal e jurídico de todo este processo. A ler, este texto de Virgílio Rodrigues Brandão "A inconstitucionalidade da institucionalização do Alupec - o ius abutendi do cabo-verdiano", aqui.




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4 comentários:

zito azevedo disse...

Nem sempre o óbvio é despiciendo!
Zito

Amílcar Tavares disse...

Lembras-te da foto do discurso do Muammar al-Gaddafi na ONU? Pois, eu sou aquele gajo que é o presidente da mesa da sessão. Está fartinho de ouvir o blá, blá, blá.

ESTOU FARTO DO DEBATE À VOLTA DO ALUPEC.

Oficialmente.

JB disse...

Estás farto mas não devias. O debate não é apenas em torno do Alupec mas mais em relação a uma questão fundamental para Cabo Verde: o que fazer no que diz respeito à língua cabo-verdiana? Não estamos a discutir o tipo de batatas a cultivar em cada ilha.

Amílcar Tavares disse...

Se não se está, parece. Pois este suposto debate tem sido uma coisa muito bastante pueril.

As línguas são dinâmicas, meu caro. Isto é, o Manuel Veiga e os demais podem teorizar à vontade. Suponho que devem saber isto: daqui a 10/20/50 anos ninguém lhes garante que ela estará como se propõe hoje.

Posto isto, botem a coisa cá fora que o tempo e o uso tratarão dela!

Em minha opinião, os defensores e, sobretudo, os detractores do ALUPEC perdem tempo e energia nesta conversa de surdos -- é por isto que ando farto -- ao não se lembrarem da mais básica lei, julgo, das línguas: dinâmica.

Metam isso na cabeça!