Ficção Cafeana

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"Aguardemos então por Novembro, esse mês místico e mágico, quando se quebram promessas e se constroem sonhos sobre o manto dourado de um sol tímido e gasto… que em verde ouro se agitam." Leu a frase que acabara de escrever. Está bom. Quer dizer, escapa. Tem ritmo, metáfora quanto baste, poesia na medida certa, sem ser nem demasiada lamechas ou saudosista. Logo depois pensou, "mas porquê aguardar Novembro, se é Outubro quem nos visita neste preciso momento e se espraja dentro da nossa casa, com o seu vendaval mais o tempo que passa?". Eis uma pergunta que poderia fazer a si próprio. Vive a vida, diacho, deixa-te de merdas. O que adianta chorar por um mês no início do mês anterior, é como deitar uma folha do calendário inteira ao mar, com dias, horas, minutos e tudo o que neles couber. Um desperdício: a vida, o tempo que passa ou lá como se chama esta nossa travessia por este mundo, é um bem demasiado precioso para ser assim largada ao desbarato, mesmo que seja em pensamento. Já nos basta ter que fazer isso a cada momento que passa por causa do ordenado que esticado nem chega ao início do mês e aí sim, temos razão para ficar ansiosos, desejando que os dias passem depressa e as contas tardem em chegar. "Olha, sinceramente! Isto não pode ser senão um sinal dos tempos: começo um texto todo simbólico, cheio de poesia e acabo a pensar como é que vou comprar leite e pão para amanhã. Filha da puta da crise, já não se pode ser criativo!"




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2 comentários:

zito azevedo disse...

Pois é! A imagem diz tudo: PRÉGAR NO DESERTO...
Zito.

Anónimo disse...

Contrariedades. A poesia e a realidade. Cesário Verde:

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

a) RB