Um Café com Corsino Tolentino

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Passou-me ao lado, por me encontrar fora de Cabo Verde, a (excelente) entrevista que Corsino Tolentino deu ao Expresso das Ilhas e cujas opiniões sobre o crioulo se aproximam bastante do que tenho vindo a defender aqui no Café Margoso.

E porque nunca é demais conversar e debater sobre este tema tão apaixonante, aqui ficam as opiniões deste ilustre académico e quadro cabo-verdiano sobre a língua cabo-verdiana. Ao ler e ouvir Corsino Tolentino só tenho pena desta ser uma pessoa cuja capacidade é pouco aproveitada pela nação, sendo certo que não sei avaliar se este aparente afastamento é o resultado de uma vontade própria ou se tem outras razões que a própria razão desconhece.

Mas isso são contas de um outro rosário. Por agora, aqui ficam os destaques sobre o tema:

"Os partidos ganham eleições e formam governos como consequência de um jogo do tipo publicidade enganosa que a sociedade aceita. São promessas que, se tivessem sido analisadas com rigor ético e técnico nunca teriam sido feitas nem aceites. O PAICV terá prometido a oficialização da língua cabo-verdiana num prazo irrealista. "

"Não faz sentido andar por aí a perguntar às pessoas se são por ou contra a oficialização da língua cabo-verdiana. O crioulo cabo-verdiano fez-se antes de nós e continuará depois de nós, não valendo a pena dar ares de estar a inventá-lo. Novidade seria prepará-lo para ser utilizado nas escolas, nas igrejas, na universidade, na administração e na comunicação oficial. A língua cabo-verdiana não está preparada para todas estas funções e prepará-la é uma tarefa gigantesca para várias gerações."

"O processo parece viciado e é contra este modo de ver e agir que muita gente estará. Ninguém está contra a língua cabo-verdiana. A mão invisível ou a conspiração não existem, mas, coisa diferente, a sociedade exige rigor e verdade, porque qualquer das duas línguas nacionais é assunto demasiadamente sério para ser deixado exclusivamente aos linguistas profissionais ou amadores, os quais são merecedores do meu respeito e admiração"

"Somos analfabetos em cabo-verdiano e a meia dúzia de estudiosos e escritores nas variantes da língua materna são os pioneiros que constituem a excepção à regra geral"


Comentários?


Entrevista completa: aqui
Via: aqui





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9 comentários:

Amílcar Tavares disse...

Meu caro,

Só discordo numa coisa: quando diz que a "sociedade exige rigor e verdade". Falso. A sociedade cabo-verdiana é apática por natureza, por isso nunca exigiu coisa alguma.

E saliento ista parte "é uma tarefa gigantesca para várias gerações", pois acho descabida, patética e disparatada toda essa onda birrenta -- tanto dos "prós" como dos "anti" -- à volta do processo.

Vamos lá com mais calma, diz o homem, e concordo.

JB disse...

Não entendi assim, e o teu comentário até vai de acordo com o que ele diz, embora digas que não concordas. Confuso? Talvez não. Repara: quando ele diz que "a sociedade exige" ele não está a dizer que isso está, de facto, a acontecer, mas sim que é algo que DEVE ou DEVERIA acontecer. Neste sentido, penso que ele pensa exactamente como tu, ou seja, a sociedade é apática e deveria exigir saber, neste caso concreto, TODA A VERDADE.

Depois não concordo que haja "ondas birrentas". O que há é muito ruído e desinformação à volta do processo. Basta ver os argumentos que se utilizam para se concluir que andamos todos muito mal informados.

Abraço

gl disse...

Nao vou entrar no cerne da questao, pois sou leigo na materia. so queria dizer que concordo plenamente com a opiniao do C. Tolentino - cuja pessoa, inteligencia e a forma ponderada como expressa as suas opinoes admiro profundamente.
Bom dia
gl

Tchale Figueira disse...

Bela entrevista do Corsino.

malaguitinha disse...

Fico sempre agradavelmente surpreendida, e quiça com esperança no futuro, quando vejo e ouço que ainda há intelectuais e estudiosos em Cabo Verde, que não estão metidos na menchulada política nem à procura de protagonismos idiotas.

Isso sim, é motivo de orgulho

Caboverdeanamente,

Malaguitinha

Tina disse...

Tive a sorte de conhecer de perto o Dr. André Corsino Tolentino e tenho pena que as suas capacidades não sejam devidamente aproveitadas pela Nação. Ele que tem um curriculum diplomático valioso, o que constitui um cartão de visita imprescindível à nação, que necessita de gente que saiba aproximar pessoas e entidades de Cabo Verde! Digo-o por experiência própria, pois foi ele, com a sua empatia, quem me reaproximou de muito do bom que a nossa cultura contém, respondendo com dignidade e verdade às minhas questões (im)pertinentes sobre diversas actividades no país.
Afinal de contas, não é qualquer um que é convidado pela Gulbenkian para vir desempenhar um cargo directivo... O Dr. André, que foi uma pedra basilar na fundação da Universidade de Cabo Verde, da qual se encontra inexplicavelmente afastado, sabe bem o que se passa com essa oficialização apressada do crioulo.
Tiro-lhe o chapéu por continuar a dizer abertamente o que pensa sobre a política do país, sendo importante relembrar que ele foi um dos que deu o seu sangue pela luta de libertação nacional.

JB disse...

Concordo com as vossas opiniões. Pena as suas intervenções serem tão raras.

Anónimo disse...

Intervenções raras? Ele está todos os Domingos na televisão. Felizmente!

Arsénio disse...

O Corsino Tolentino é daquelas personalidades que nos dá prazer em ouvir.
Infelizmente as hostes nacionais não tem aproveitado as suas qualidades.

Concordo com as suas opiniões nessa questão da língua materna.