Declaração Cafeana

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Há momentos em que não conseguimos deixar de pensar mesmo que contra a nossa vontade "porra, que situação de merda!". E ou lutamos com todas as forças ou baixamos os braços e desistimos, deixando que a contrariedade vença a determinação. É o que acontece agora, por exemplo: é uma merda ter água e lama a invadir todo o espaço onde organizamos um festival de teatro perante o olhar incrédulo de quem sabe não poder vencer o poder da natureza (ou nem sequer faz o mínimo esforço para minimizar os estragos); é uma merda ver os nossos amigos e convidados desolados por não poderem apresentar os seus trabalhos ou por não conseguirem regressar a suas casas; é uma grande merda sentir que algo que preparamos durante meses com uma equipa de fantásticos cidadãos cabo-verdianos pode desabar como um baralho de cartas apenas porque parece que nenhum responsável político, camarário, fiscal de obras, engenheiro ou arquitecto deste país se lembrou que um dia pode chover a sério na sua cidade.

Mas depois paramos para pensar: caramba, desabar como um baralho de cartas, nem pensar! Nada desaba esta vontade férrea de continuar a lutar, de vencer os obstáculos as invejas, as cheias ou os boicotes. Para isso basta pensar nos últimos dias, nalguns momentos que tivemos oportunidade de viver, nas experiências, nas pessoas. Sim, sobretudo nas pessoas.

Pode vir a chuva que vier, mas nada vai fazer desaparecer a tremenda lição de humanidade dos integrantes da companhia Comédias do Minho, que fazem teatro com quase nada, no meio do quase nada para gente que de uma outra forma continuaria sem ver mais nada além do lixo televisivo, e que apesar de todas as dificuldades, do frio horrendo que faz naquela zona de Portugal durante o Inverno, nunca deixam de sorrir, nunca abandonam o brilho que só gente que gosta muito do que faz consegue transportar. Só gente boa e competente como esta consegue fazer um espectáculo como o "Auto da Paixão", onde quatro actores e duas actrizes vivenciam com energia, capacidade e versatilidade os últimos dias de Cristo.

Lembro-me dessa gente boa que vai passando por aqui, dos amigos que estão do nosso lado e não hesitam em arregaçar as calças, sujar pés e mãos e pegar numa pá e num balde para ajudar a tirar o lixo, a merda e a lama que invade o nosso espaço sagrado, num espírito de comunidade que parece estar cada vez mais a leste do paraíso e aí não há fenómeno da natureza que me possa derrubar. A peça "Auto da Paixão" e os integrantes da companhia Comédias do Minho já se foram mas deixaram mais uma daquelas lições de vida que nos fazem resistir às maiores intempéries.




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6 comentários:

argumentonio disse...

força, que não doa na alma, nas mãos, na barriga, para a cabeça ter sempre a determinação de que é preciso fazer o que há a fazer, tratar dos vivos, animar em redor e refazer, refazer, refazer

as energias aparecem e contagiam, vais ver, se há vida, é para a viver e de ter que labutar ninguém nos livra, nem a tempestade

alegria e alento, pois!!!

forte abraço amigo e solidário


ps - é post scriptum, nada de interpretações eleitoralistas: e no Minho dizem: "ano de cheia, arca cheia" !

lalage disse...

"Comédias do Minho" teve um gesto muito bom, mas o vosso esforço e empenho, ultrapassando obstáculos e diciuldades, na organização do evento, também merece toda a admiração :)

zito azevedo disse...

POR MUITO QUE CHOVA, VOCES CONSEGUIRÃO !!!
Zito

Carla disse...

Força aí João!

continuem o grande trabalho que estão a fazer.
tenho esperança que um dia os politicos vão perceber que em são vicente é preciso obras de fundo por causa das chuvas. só espero que não demore muito.

M.Estevão disse...

Também, lembra-me o esforços que temos vindo a fazer ano após ano para manter de pé o nosso teatro, no nosso meio que é mais agreste e cuja indiferença das autoridades dói.

Tina disse...

É bom que nos contes estas lições de Amizade e Fraternidade para esquecermos as desgraças deste mundo cão.

Quando o Homem quer...