Declaração Cafeana

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Quando me foi perguntado por um primeiro balanço do Festival Mindelact, escrevi o seguinte: "estranho o afastamento de certas individualidades do evento, que tem primado pela ausência. É estranho não só pela posição oficial que alguns ostentam assim como pela função social e educacional que assumem, alguns com carácter de pioneirismo. Não podemos estar sempre a dizer que o Mindelo é isto e aquilo e depois voltar as costas a um evento que pode trazer mais valias - traz certamente - a quem desenvolve certo tipo de actividades na área da educação artística ou da política cultural e não aproveita as sinergias que são criadas com este festival."

Quero com isto dizer que me custa aceitar o desligar ostensivo de figuras da cidade ligadas à política (cultural ou outra), à gestão pública, à educação artística e ao próprio meio artístico - com excepção do próprio meio teatral, de quase tudo o que se faz (e não apenas no que diz respeito ao Mindelact) desde que não tenha ligação directa com cada um destes intervenientes. Quer dizer: não se partilha, não se visita os colegas, não se está pronto para aprender com as experiências dos outros. Onde estão os ilustres da cidade do Mindelo? Sinceramente, nem é por mim. Estou-me nas tintas. Mas tenho pena que gente com tanto peso - pelo menos assim parece - não estejam a ver obras raras, contemporâneas, originais, que com muito esforço são apresentadas em território nacional. Tenho pena que não se aproveitem algumas figuras que cá chegam e se promovam tertúlias, entrevistas, encontros paralelos, que se alimentem sinergias. Que não se façam planos outros, que sejamos tão pouco oportunistas. Como se tivessemos medo de ficar devedores do trabalho dos outros.

Aqui o teatro marca a diferença. Gente de todos os grupos participa, trabalha, contribui, aplaude e comenta. Partilha, em suma. Até porque temos uma tradição informal que sempre foi cumprida e que considero um exemplo: aqui no Mindelo ninguém ligado ao meio teatral paga para ver os colegas. Todos os grupos abrem as suas portas para que os membros dos outros grupos possam ver as peças gratuitamente, desde que entrem depois das pessoas que compraram os seus bilhetes. Ao alimentar este espírito, o teatro mindelense torna mais forte o que nos une do que aquilo que nos possa eventualmente separar e marca também a diferença neste aspecto.

Uma coisa é certa: as portas estão abertas e o panorama é muito bom de se ver. Só não vem quem não quiser. Vá-se lá agora saber quais as razões de tal desaparcimento.




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2 comentários:

zito azevedo disse...

Às vezes, a arte, por ser descomprometida, incomoda, até à dor, os comprometidos...
Zito

JB disse...

e às vezes, o deserto é uma coisa linda!