Tertúlia dos Mentirosos 74

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Marina Amaral - O que você gosta na televisão? Tem algum programa?

Antonio Abujamra - Odeio tudo. Não é só televisão, eu odeio tudo, o ar, o mar, a mim mesmo, odeio tudo, só gosto do meu neto, o único homem que mexe na minha cabeça, como diz a minha mulher para ele. Eu não gosto de nada.

Mylton Severiano - Que idade tem esse seu neto?

Antonio Abujamra - Seis anos, vai fazer 7 em janeiro. Maravilhoso. O resto... Eu não gosto de nada. Eu faço porque viver deve ser fazer, né? Não tenho nada. Eu quero, realmente, se puder, ser aquele cara na rodoviária de sandália, bermuda, vendendo tíquete restaurante, ficha de telefone...

Marina Amaral - Você diz que o Brasil é uma merda. Você acha que sempre foi uma merda ou piorou? Como você vê esses últimos anos?

Antonio Abujamra - Desde que me conheço, só piora, cultura e educação só pioram. Aí dizem que o mundo vai assim, é mentira. Estive agora em Berlim, em Paris, em Lisboa, as coisas lá são realmente muito melhores. Fiz uma entrevista lá arrebentando com o Brasil, quase me mataram, dizendo que o Brasil é maravilhoso, é florido e tal, mas não é. Vocês, que são gutemberguianos, dão manchetes: "Cinquenta milhões de indigentes". Vou procurar no Aurélio o que é "indigência", é pior do que pobreza, todos os jornais publicam isso e não acontece nada.

Mylton Severiano - Você não acha que isso pode ser um episódio? Porque a nossa vida é muito curta, Abujamra.

Antonio Abujamra - Pois é, na minha vida, eu odeio tudo.

Mylton Severiano - Você mencionou a ditadura militar, essa ditadura, pra mim, não acabou ainda...

Antonio Abujamra - Você é provocador mais que eu, hein?

Mylton Severiano - ...ela não acabou ainda, né? Para uma vida, você não acha que é muito cedo pra falar que o Brasil é uma merda?

Antonio Abujamra - Você não está entendendo. O que eu quero dizer é o seguinte: para a minha vida, tudo piorou. Pode ser que para o filho do meu neto, para o bisneto, pode ser que não. Para mim, as coisas só pioraram, não vi melhora cultural, não vi melhora educacional, vi somente esse neoliberalismo abrindo faculdades de fundo de quintal, a educação só piorando, eu não estou entendendo o que acontece.

Mylton Severiano - Mas você está cumprindo o seu papel.

Antonio Abujamra - Ah! Mas eu não sou padre, cumprir meu papel! Que é isso? Eu faço meu teatro, falo mal. O meu espetáculo agora lá no Rio... a crítica arrebentou, mas o público aplaude de pé e grita "bravos". Faço o público todo gritar. Falo sobre a democracia, digo que a democracia é fashion, tecnológica, maravilhosa, que só numa democracia ocidental fantástica como essa podemos falar como são asquerosos, sujos, canalhas os nossos políticos. E vou arrebentando. Temos que falar qualquer coisa. Temos que falar assim: "Senhores, isso aqui não é Kosovo, este país não é a Bósnia, não é o Paquistão". Será que não é? Mas digo que não é. "Vocês comeram a comida do povo, vocês comeram a música brasileira maravilhosa." Não entendo por que ainda não aconteceu o desastre de uma guerra civil! É porque Deus ainda não nos entendeu. Aí eu digo: "Nós sabemos que todo governo é filho da puta!" Aí entram dois atores e dizem: "Você tem razão, Abujamra, todo governo é filho da puta". "E vocês aí? Vocês também acham?" "Também." "E desse lado aqui?" "Também." E fica um negócio que parece que eles vão fazer a revolução. Aí eu digo: "Chega, chega, chega! Senão eles saem daqui e derrubam o Fernando Henrique. Calma!". E aí eles se aplaudem, entendeu? Não é que me aplaudam, eles se aplaudem. Eu fazer a minha vida não quer dizer nada. Queria, sei lá. Não me enche o saco! Não me enche o saco! Que mais? Acabou?

Marina Amaral - Não.

Antonio Abujamra - O que é isso? Caralho! Tenho que almoçar. Comer primeiro, depois a moral. De quem é? Brecht. Senhores que pretendem nos moralizar: "Você é bom, Abujamra, você faz bem". Nos dêem primeiro o que comer. Comer primeiro, depois a moral.

Marina Amaral - Como foi a sua experiência como professor?

Antonio Abujamra - Não foi questão de preferência. Eu jogo em cavalos, perco dinheiro, entendeu? Minha mulher me aguenta há 45 anos, é uma santa. Deve a mim, se não fosse eu ela não seria uma santa, na classe teatral todo mundo gosta muito mais dela do que de mim. Ah, tenho dois filhos, um é maravilhoso, que é o mais velho, faz economia e trabalha no Senai; e um é artista, que faz música, um gênio. Não é porque é meu filho! Não é porque é meu filho! O outro filho: "Não fala de mim, pai, quero ser low profile...". Entendeu? Então eu tô aí... O que você perguntou? Ah, então eu trabalhava e, "onde vou ganhar um dinheirinho?" "Professor." "Onde é que vou ganhar um dinheirinho?" "Televisão." Eu busco trabalho.



Excerto da entrevista de António Abujamra, figura maior do teatro brasileiro, conduzida por Marina Amaral, Julianne M. do Carmo, Marina Vergueiro, Mylton Severiano (ler entrevista completa, aqui). António Abujamra encontra-se neste momento em Cabo Verde, e é protagonista do espectáculo "Começar a Terminar", que será apresentado amanhã, terça-feira, no âmbito do Festival Mindelact 2009.




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2 comentários:

Miguel Barbosa disse...

esse é sem duvida um Monstro, muito inteligente. se tiveres a oportunidade, suga.
Lembro-me de um programa dele na TV no Br, chamado "Provocações", que eram entrevistas baseadas em perguntas provocativas - ver youtube.
Parabéns!

zito azevedo disse...

Este, sim, podemos considerá-lo o primcípio do fim! Ou será ao contrário?
Zito