Crónica Desaforada

12 Comments



É para rir ou para chorar?

1. Descobri, via Bianda, que o Guia de Cabo Verde publica algumas pérolas que deixam qualquer um de boca aberta. Aliás, o guia - ver o link aqui - começa avisando os mais incautos de que:

«O Guia Turístico de Cabo Verde que temos vindo a produzir ao longo dos anos, com o prestígio que todos lhe reconhecem, é um veículo essencial para a promoção de Cabo Verde, dando a conhecer de uma forma simples e fiável a sua história e cultura, a culinária variada, as características de cada uma das 10 ilhas e todas as informações úteis para quem escolher Cabo Verde como destino.»

2. Será mesmo assim? Senão vejamos:

3. «O processo de formação social cabo-verdiano operou-se mais por uma africanização do europeu do que por uma europeização do africano. Hoje, cerca de 70% da população é mestiça, 28% negra e 2% branca.»

Pergunta óbvia: qual é o teor de «escuridão cutânea» necessária para se poder ser considerado «negro» em vez de «mestiço»?

4. «Na costa Sul, a 10 km da cidade da Praia, a primeira capital de Cabo Verde – Ribeira Grande – revela ainda hoje a sua ascendência europeia, enquanto que as populações que habitam nas montanhas – cujos antepassados foram escravos que fugiram à repressão – denotam comportamentos culturais tipicamente africanos

Pergunta óbvia: revelar «ascendência europeia» implica falar muito no telemóvel e ter televisão em casa? Denotar comportamentos culturais «tipicamente africanos» implica ser adepto de rituais vudus e não ter água potável à disposição?

5. «Numa explicação muito sucinta, o crioulo é um dialecto resultante do cruzamento do português com as línguas das costas da Guiné (ramo mandinga). Ou dito de outra maneira, é o português profundamente alterado pelos africanos, tanto na fonética, como na morfologia, semântica e sintaxe.»

Pergunta óbvia: se o crioulo é o «português profundamente alterado pelos africanos», podemos dizer que o português é um «latim profundamente alterado pelos lusitanos»?

6. «A cultura cabo-verdiana tem o seu coração a pulsar na poesia, espelhada nas mornas, nas histórias de sabor popular e nas novelas... a sua alma gira em torno da ‘sodade’, termo que deriva da ‘saudade’ portuguesa.»

Pergunta óbvia: andamos a ver novelas demais ou o funaná, batuque e coladeira já não são o que eram?

7. «Actualmente, os escritores cabo-verdianos estão ocupados em recriar o seu enraizamento africano. Entre eles destacam-se Germano de Almeida e Corsino Fortes.»

Pergunta óbvia: como é possível que ainda não tenhamos reparado que o Germano Almeida anda, afinal das contas, ocupado há anos em recriar o seu enraizamento africano?

8. «O trabalho criativo dos artesãos populares de Cabo Verde tem sido merecidamente apoiado pelo Centro Nacional de Artesanato (que será reinaugurado em 2007), sedeado no Mindelo, e cuja função consiste em investigar, formar, produzir, comercializar e divulgar as diversas expressões do artesanato cabo-verdiano.»

Pergunta óbvia: como é possível que ainda ninguém tenha dado por isso?

9. Obrigado César Schofield por descobrires estas pérolas do Oceano.

Pergunta final, a mais óbvia de todas: tendo em conta que estamos a falar do «Guia de Cabo Verde», isto é para rir ou para chorar?


Imagem: colagem de Abraão Vicente, série «Lem di Li»





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12 comentários:

Catarina disse...

para chorar de tanto rirrrrrrr

Salim disse...

LOL LOL LOL!

Isto foi demais. Não sei o que tem mais piada (eu sei, é triste) os "quotes" ou as perguntas óbvias que fizeste.

Em particular, quase que me matou de riso a «escuridão cutânea». LOL!

Mas, voltando ao sério: Meu Deus!

Caso para se lembrar o Bianda(nator): "Aqui não é planeta terra; aqui é Cabo Verde, um país um pouco ao lado da realidade".

Francamente...

Eileen disse...

Bárbaro. A minha preferida foi o comentário que fazes á o que significa ser "tipicamente africanos".
Digo que é para chorar.

João Branco disse...

A palavra utilizada pela Eileen resume tudo: Bárbaro...

neulopes disse...

PORRA!
Desculpa, João.
Isso é um atentado! Afinal nem só o que faz o Bin Laden é terrorismo. Com as perguntas óbvias do AV, não sei se terá ficado com vontade de rir ou com a revolta que sinto neste instante.
Isto é sério, e essa gente deveria ser severamente punida com interdição perpétua de escrever barbaridades, mediocridades e sacrilégios do género. Já pensaram se os nossos estudantes, que cada dia menos investigam a sério e a fundo, encontram na net essas informações? Seria preferível que só fossem à net abrir o hi.5
Estamos cada vez mal neste país. Quem escreveu isso? Quem foi o autor de tamanha estupidez?
Além de informações falsas esse guia turístico é pobre e tendencioso.
CONVENHAMOS!!!

neulopes disse...

A propoósito, a imagem condiz com o post.
DE FICAR COM OS CABELOS EM PÉ

Kuskas disse...

oh João
Não imaginas a guerra que tenho com este pessoal do guia cabo verde. Estou a procura de alguma coisa na legislação que me permita fazers essas ANTAS, ratificarem as barbaridades que publicam naquele guia e nos outros.

João Branco disse...

Neu, nem tinha pensado nisso, mas tens razão em relação à imagem...

Kuskas, o grave da situação é que nem deviamos estar a falar de legislação. Ou não há organismos do Estado que possam por cobro a essa pouca vergonha? Eu acho que deve haver. Ou se não há, que se criem os mecanismos que possam impedir barbaridades destas serem escritas em nome do País.

Sisi disse...

É para rir para não chorar...nem quis acreditar na parte referente ao centro nacional de artesanato ("tem sido merecidamente apoiado", isto sim é para rir hahhahahahah)

João Branco disse...

Essa é desculpável. Foi tantas vezes anunciado oficialmente...

Redy Wilson Lima disse...

A culpa é do Salazar quando considerou oa cabo-verdianos "pretos especiais" justificando o porquê de não terem o estatudo de indígena.

João Branco disse...

??? O que é que essa polpa tem a ver com aquela calça ???