Destruição

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          Os amantes se amam cruelmente
          e com se amarem tanto não se vêem.
          Um se beija no outro, refletido.
          Dois amantes que são? Dois inimigos.

          Amantes são meninos estragados
          pelo mimo de amar: e não percebem
          quanto se pulverizam no enlaçar-se,
          e como o que era mundo volve a nada.

          Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
          que os passeia de leve, assim a cobra
          se imprime na lembrança de seu trilho.

          E eles quedam mordidos para sempre.
          deixaram de existir, mas o existido
          continua a doer eternamente.


          Carlos Drummond de Andrade




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3 comentários:

Sisi disse...

Só podia ser Drummond...nu, cru, mas lindíssimo!

João Branco disse...

Um dos meus preferidos. E já que estou caminhando pelos seus passeios...

Alex disse...

Porque razão os grandes poetas, e a grande poesia fala sempre esta linguagem clara, limpa, cantante, humana, simplesmente humana?
Quando leio um grande poeta raramente vou a um diccionário, a uma gramática, ou a um manual de retórica. Não preciso. Está lá tudo isso, mas sem se notar.
Talvez por que as palavras, a gramática, a retórica não sejas formas de exibição, objectos de vaidade. Há quem se sirva delas, e há quem as saiba servir. Só os grandes poetas conhecem a diferença.
Ab
ZC