A Ausente

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      Amiga, infinitamente amiga
      Em algum lugar teu coração bate por mim
      Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
      Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
      Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
      Como que cega ao meu encontro...

      Amiga, última doçura
      A tranquilidade suavizou a minha pele
      E os meus cabelos. Só meu ventre
      Te espera, cheio de raízes e de sombras.

      Vem, amiga
      Minha nudez é absoluta
      Meus olhos são espelhos para o teu desejo
      E meu peito é tábua de suplícios
      Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
      E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
      Como no mar, vem nadar em mim como no mar
      Vem te afogar em mim, amiga minha
      Em mim como no mar...


Vinícius de Moraes


Imagem: «Early Evenings» by Meta






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4 comentários:

Teatrakacia disse...

Se o Vinícios de Moraes não existisse... o mundo seria bem mais pequeno, a beleza poética, o amor, os sons... (et j'en passe!) seriam bem mais limitados.
Tchá

neulopes disse...

Muito lindo o poema.
Tchá, concordo contigo.
Acabo de ficar surpreso neste preciso instante. Estou a ouvir um trecho do CD "Memórias Atlânticas" do Vasco num programa sobre culinária na SIC. Ah, já me lembro, a música chama-se "Búzios soprados pelo vento".
O jornalista está a comer peixe, mas não estou a ver vento nenhum.

João Branco disse...

A poesia é fenomenal tal como o seu autor, sem dúvida. Neu, bo agora, já kabá ke mim!

Sisi disse...

Ardente e autenticamente Vinícios de Moraes. O Tchá está repleto de razão.