Tertúlia dos Mentirosos 12

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«Sibarita. (do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira).

Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de Verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal - uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida mas pelo prazer de apalpar - faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes da indústria e do comércio. Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem tentasse subornar os Guardiões entrava por aclamação.

A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e eram conscienciosos e correctos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins-de-semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

Cada sibarita podia ter sete concubinas e sua mulher um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a engatar as suas próprias mulheres, sinal de que já não viam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. No caso do infractor ser sadomasoquista, a sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo em grupo era qualquer acto envolvendo mais de 50 pessoas. A justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo excepções como o sexo com abelhas.

Era Rei de Síbaris Flanfo, chamado o Sete Queixos, que vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, Flanfo recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. Flanfo, chamado o Sete Queixos, mastigando um pardal caramelizado, perguntou que vantagens teria Síbaris juntando-se a Crotona.

- Traremos o nosso dinheiro - disse o emissário.
- Nós já temos o vosso dinheiro - disse Flanfo.
- Traremos a indústria, a ciência, a contabilidade e as armas.

E então Flanfo, porque estava na hora da sesta que tirava de meia em meia hora, fez um gesto desrespeitoso que o emissário tomou como uma negativa, e um insulto. E só depois de acordar da sesta, inalando o seu pó de papoilas, Flanfo foi informado que Crotona declarara guerra a Síbaris. Mandou chamar o seu primeiro-ministro, Badan, para saber o que fazer.

Badan foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito e convocado ao palácio, onde informou ao rei que Síbaris precisava se preparar para a guerra. Os homens deveriam se armar e erguer barricadas. As mulheres deveriam desfiar suas sedas caras e fazer ataduras. E o rei Flanfo deveria sair da sua banheira e fazer um pronunciamento ao povo, mobilizando-o para a defesa. Com grande dificuldade, Flanfo foi até a ágora para conclamar o povo à guerra. Mas não havia ninguém na ágora. Estavam todos na praia. Quando parou de falar, o rei Flanfo só ouviu o silêncio, o borbulhar das fontes e os cachorros. Voltou para o palácio, porque estava na hora da sua sesta.

Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a.C. Não sobrou nenhum vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exacta, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de Verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste, que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

Mas até hoje ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.

Luis Fernando Veríssimo

P.S. Quem quiser continuar a conversar sobre a questão do «crioulo poligâmico», clicar aqui.

Imagem: fotogramas do filme «Eyes Wide Shut» de Kubrick




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5 comentários:

João Branco disse...

Caramba: serei eu o único a achar este texto fantástico?! Nem um comment para arrancar com mais uma bela tertúlia margosa? Isto não se faz!

Kuskas disse...

Hummm agora entendo os resultados das eleiçoes legislativas em Italia...

João Branco disse...

Hahaha... estava toda a gente embriagada pelo espirito de Sibaris!

Alex disse...

Prometo voltar. São 00:55.
Amanhã é mais um daqueles dias.

Ab
ZC

João Branco disse...

Oh Zc, esta história está mesmo ao teu gostinho, diz lá! Mas nao tenhas pressa. Ou como eu gosto de dizer, tranquilo...