Cafeína

13 Comments



«Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...) Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois

José Mário Branco - excerto da obra «FMI»

Imagem: 25 de Abril de 1974


P.S. José Mário Branco, um dos símbolos vivos da Revolução de Abril, lutou contra a pide e cantou contra a guerra colonial. Foi preso e teve que se exilar em França. Lá teve dois filhos. Um deles estava na barriga da mãe em pleno Maio de 68, no meio das barricadas de Paris, a um mês de nascer. É filho da Revolução e de revolucionários. Sou eu. E tenho um orgulho dificil de descrever por ter este homem como meu pai.




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13 comentários:

Miguel Barbosa disse...

Beleza João.
Nada é por acaso; agora entendo mais a respeito de muita coisa - não vou te elogiar, não. hehehe
Seguinte: Maio está aí, decerto estarás a preparar material para os 40 anos de Maio/68 e cá estaremos para debater se O SONHO ACABOU OU NÃO.
Cumprimentos ao Pai.

Anónimo disse...

ja desconfiava mas não tinha certeza
Hiena

Catarina disse...

E é mesmo para ter orgulho... eu, daqui, tenho uma dívida impagável... transmite-lhe, se puderes, o meu agradecimento por ter acreditado e lutado por todos nós e por escrever e cantar coisas indescritivelmente belas... Parabéns, João, pelo pai que tens e pelo "avô cantigas" das tuas filhotas!

João Branco disse...

Miguel: vê lá agora se não vais apagar os teus comments! A tua participação é muito bem vinda aqui!

Hiena: estou inocente!

Catarina: não preciso transmitir, aliás estou muito pouco com ele. Mas estou certo que ele sabe perfeitamente da importância que teve (e que tem) na vida de certas pessoas. Talvez por isso, e até hoje, mantém uma profunda coerência no discurso e na carreira artística.

Anónimo disse...

João, havias de ver um coliseu inteiro à espera do teu pai num concerto que acabou às 4h. da manhã, e onde ele foi dos últimos, muitos já não aguentaram, mas quem ficou, não foi defraudado.
Entra em http://www.vozesilenciadas.blogspot.com/ lá encontras links para as músicas e os cantores da época.
Recomendo especialmente o 'cantores de intervenção' onde podes ouvir a obra, curta e datada, de um grande grupo chamado GAC, lembras-te? Ou eras muito pequeno?

Kalu disse...

só por isso já mereces outra consideração.

És bem-vindo (é claro que já te sentes), mas há coisas que é preciso tempo para se compreender.

Apesar de laços, Cabo Verde não é Portugal, mas é como te disse é preciso mais tempo para perceberes isso.

João Branco disse...

Anónimo: estou a ficar velho. Se me lembro do GAC!? Eu cantei no GAC! Em concertos do GAC, em discos do GAC, fazendo coros. Já estás a imaginar: o periodo de férias, naquela época era tudo menos monótono...

Kalu: não entendi o teu comentário ou então és tu que não conheces a minha história. Tenho mais de 15 anos de Cabo Verde, tenho a dupla nacionalidade há muito tempo, filhas e mulher cabo-verdianas, assumo-me como cabo-verdiano, gostem disso ou não (apesar do nome... Branco) Tudo isto é mais do que suficiente para compreender, perceber, assimilar e renascer outro. J'm fui criolizôde diazá na mund, rapaz!

Kalu disse...

Isso a propósito de considerares que 25 de abril devia também ser feriado em Cabo Verde.

Como diz um amigo meu "let's separate waters.."

P.S. O meu comentário a este post veio a seguir ao outro no outro blog.

João Branco disse...

Kalu, não vou entrar em diálogo contigo sobre isto. Aliás, já considero que foste, no minimo, inconveniente no outro blog. Estás no teu direito. É apenas a minha opinião. Aliás, a maioria dos feriados nacionais é «importada», para tua informação. É só consultar o calendário. Um abraço

Anónimo disse...

Gostei do P.S. na foto... sei bem quem é o teu pai, cresci a ouvir as suas canções (bem como as do Zeca) apesar de ter apenas 1 ano em 74. Os meus pais (e tantos outros) tb lutaram pela Liberdade e gosto muito de ler que tens orgulho no teu pai pois é precisamente o que sinto em relação aos meus - ORGULHO! E faz falta mais pessoal da nossa geração assumir o orgulho pelos seus pais (seja por as pessoas que são e que fazem, seja por aquilo que nos ensinaram e ainda ensinam, seja pelas batalhas que já travaram e por outras que continuam a travar, seja pelo que fôr...). A geração dos nossos pais é digna de ORGULHO!

João Branco disse...

Concordo, Anónimo!

Kaustika disse...

Gostei do teu orgulho de "filho babado". Fica-te bem.Muito bem mesmo.
Além de que ter um pai nascido no Porto, exilado em Paris e activista de profissao é um privilégio e tu valorizas a obra do teu ascendente.
É bonito.
A proposito, ja pensaste na prenda para o proximo dia 25 de Maio?
66 é uma Capicua e costuma dar sorte.
Fica bem

João Branco disse...

Caramba! Ainda bem que me lembraste disso? São 66 anos, mesmo?! E ele fazer anos no Dia de África, é apenas uma coincidência? hehe Quanto a valorizar, é fácil. É apenas um dos musicos mais brilhantes do seu país e com um percurso politico, intelectual a todos os titulos notável. Mas eu sou suspeito para dizer estas coisas, não é?