Cafeína

12 Comments



«Afinal, quantas pessoas se interessam pela cultura?, se põem o problema da vida?, do homem?, se põem a interrogação sobre o que nos rodeia? É um erro tocante o imaginar-se que as pessoas cultivadas se interessam pela cultura. A cultura não vem nos livros, nem nos cursos, nem nas salas de conferências, espectáculos, exposições com uísque ou a seco. A cultura é um problema que tem que ver com os nossos cromossomas e tem a dimensão secreta, oculta, privada, íntima, de uma vivência sagrada

Vergílio Ferreira, in «Conta-Corrente 3»

Imagem: pintura de Antoine Tàpies




You may also like

12 comentários:

Miguel Barbosa disse...

Caro João, a pergunta que não quer calar: O que é CULTURA, afinal?

Anónimo disse...

Discordo em absoluto!

Há muito que o paradigma inatista está completamente desactualizado e portanto acredito que a cultura, o consumo de cultura,as vivências culturais dependem em larga medida da educação e observação de outros significativos.

O olhar, o sentir o produto cultural, assim como qualquer outro aspecto também se ensina. Agora não pode é ser ensinado no sentido tradicional do ensino.
É necessário envolvimento activo do aprendiz!

Abraço

Catarina Cardoso

João Branco disse...

Miguel e Catarina: duas notas em relação a este texto,

1. Nem todas as «cafeínas» que são publicadas no Margoso reflectem necessariamente o ponto de vista do gerente do Margoso. São aqui colocadas porque nos parecem ser bons potenciadores de interessantes discussões. O que parece ser este o caso, como se comprova pelas vossas reacções.

2. É importante ler nas entre-linhas em relação a certos textos. Eu penso que neste caso específico, o Virgilio Ferreira insurge-se contra um certo tipo de intelectualidade amorfa, que vive dentro de gabinetes e se acha dono da razão e de todo e qualquer conceito cultural, impondo aos que os rodeiam conceitos do que é «bom», do que tem «qualidade artística», sabendo-se da subjectividade que sempre envolve o confronto entre o artista e o observador da obra. Penso que é mais por aí que vai este pensamento do escritor.

Catarina disse...

Ze Cunhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa....onde andas?????

precisamos de ti!!!!!!!!


Catarina Cardoso

João Branco disse...

ZCnha, depois deste apelo sentido e público da Catarina Cardoso, só te resta como alternativa apareceres! Já! A clientela do Margoso começa a ficar nervosa com este súbito silêncio...

Alex disse...

1- Vão-se habituando à ideia. Um dia deixarei de aparecer, pelo menos com a frequência actual (à parte a vaidade que esta frase possa inevitavelmente conter). Sem desgosto algum. Tenho participado com prazer e proveito, e é esse património de partilhas e de afecto(s) que, enriquecido, guardo. Seja neste sítio, seja em todos aqueles por onde habitualmente vagabundeio. E já vão sendo alguns.
2- Começo por uma interrogação. O texto está correctamente transcrito? Nada de pessoal na pergunta João. Tem a ver com esta afirmação do VF: “É um erro tocante o imaginar-se que as pessoas cultivadas se interessam pela cultura.” Por alguma razão sinto nesta frase (perfeitamente Virgiliana, aliás, no seu estilo categórico, contundente, e pessimista) a falta de um SÓ. Assim: “É um erro tocante o imaginar-se que SÓ as pessoas cultivadas se interessam pela cultura.”. O que faz toda a diferença. Assim não sendo discordo da afirmação.
3- Dizer que a cultura “não vem no…” é tão defensável quanto dizer o oposto. Temos apenas que definir de que cultura estamos a falar. Mas entendo o tom provocatório do VF, nem tanto pelo que ele exclui, mas mais pelo que ele diz a seguir, e que motivou o comentário indignado da nossa querida Catarina. Há que contextualizar a afirmação do VF no texto, no contexto mais abrangente da sua obra, e do seu pensamento, prática a que ele se dedicou com igual vigor à de romancista. Catarina, percebo a tua objecção mas não creio que seja esse o ponto de vista do VF. Creio que ele situa, neste contexto, a cultura como algo inerente à natureza humana, ao ser humano, àquilo que nos torna humanos, e nos diferencia na natureza dos outros seres vivos, e da própria natureza ‘tout-court’ (o que não significa obrigatoriamente ‘inatista’). Assim, a cultura terá no pensamento de VF o mesmo valor simbólico que o Mito ou a Religião (p.ex.) tiveram para o ser humano, algo que pertencendo-lhe, intimamente o transcende, ou ao contrário, algo que lhe transcendendo nele está profundamente enraizado (se quiseres, está inscrito nos nossos ‘cromossomas’ – não no sentido literalmente biológico, mas como metáfora do que ele a seguir diz, secreto, íntimo, privado). Para mim o que nos ajuda a perceber o que ele pretende dizer (daí eu ter ido buscar os exemplos de Mito/Religião e a ideia de transcendência reificada no ser-humano) são os adjectivos OCULTO e SAGRADO. Ora o que me parece VF denuncia, é aquela visão humanística da cultura (que o João aflora no seu contracomentário) em oposição a uma visão antropológica da cultura. A questão a saber, é se VF consegue o seu objectivo, ou se, por outro caminho, ele acaba permanecendo dentro, ou na periferia, da visão humanística da cultura, ao dar-lhe esse cunho tão filosófico e místico.
4- Caro Miguel. Essa não vale. É a chamada resposta de 1000000$.
5- Quanto a mim tudo o que imana do ser humano é cultura. Mesmo o que por vezes se propõe negar o seu próprio ser. Cultura será assim a expressão (boa, ou má, benéfica ou prejudicial, bonita ou feia, superior ou inferior, etc., nada disto importa) da nossa natureza mais íntima, a afirmação da nossa condição na natureza.
6- Catarina, eu não contestaria o ‘inatismo’ com essa veemência. Não sou grande apreciador de ABSOLUTOS. Afinal o que é hoje verdadeiro amanhã no lo sabemos, verdad? A neurobiologia faz hoje progressos surpreendentes. À parte este relativismo pragmático, também tenho da cultura (essa que aí defendes) uma visão mais adventícia. Se VF pretendia ser “inatista” como defendes, mas eu não, então tens razão, e eu estou contigo. Mas como penso que ele não o faz, discordo da tua leitura porque me parece excessivamente literal. Quanto ao resto concordo. Na cultura (a mais radical e distintiva afirmação da natureza humana) quase tudo se aprende, se apreende, nos forma e nos enforma. O problema é que anteponho aí um prudente QUASE. Talvez o meu gosto pelas questões abertas.
Termino lembrando-vos esta frase do VF, uma das mais bonitas (porque a um tempo profunda e poética) que me acompanha há muitos anos.
“UMA LÍNGUA É O LUGAR DONDE SE VÊ O MUNDO E EM QUE SE TRAÇAM OS LIMITES DO NOSSO PENSAR E SENTIR. DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR.”

Quando o autor a escreveu, a questão do pensa e do sentir, associadas mais tarde de forma inequívoca pela investigação científica neurobiológica como as duas faces da mesma moeda, ainda não estava vulgarizada. O que lhe dá um saber e um sabor muito especial.
Abç’s a todos.
ZCunha

P.S.- Peço desculpa pela extensão.

João Branco disse...

Deixa-te de merdas, ZC, isto de pedir desculpa pela extensão não cabe neste estabelecimento. E depois deste susto - dois dias ausente? - a Catarina não se atreve a voltar a criticar esse aspecto de alguns dos teus comments...

Quanto ao «sumo» do teu texto, há ali muita coisa para digerir. Voltarei!

Anónimo disse...

Bolas ze cunha estiveste a recarregar baterias????
So li transversalmente mas pareceu-me esmagador...como quase tudo o que escreves!

Assim como o Joao tambem volto mais tarde para reler e eventualmene para esclarecer algumas coisas...

Ja agora porque e que pensas desaparecer? Nao te atrevas! hehehehe

Um abraco
p.s hoje estou com um problema de
acentuacao

Catarina Cardoso

Alex disse...

Pois é, eu tb já sinto saudades de algumas presenças (deveria dizer ausências).
Que é feito do Tchá?
E do César?
Por onde anda esta malta?
E já agora de alguns outros ilustres Bloger's para enriquecer este "Mercado de Ideias"(Tax Free).

Abç's aos presentes, e ausentes.
ZC

João Branco disse...

E não só... O Káka, que deve andar na campanha eleitoral... O Tchá, também deve andar todo atarefado com a gestão do seu pessoal lá na TCV Mindelo. Enfim, valores «mais altos» se levantam!

Teatrakacia disse...

Essa é boa!
No momento em que leio a referência à minha ausência... já tinha 'regressado' com vários comentários. (O 'gerente deste estabelecimento' como o João gosta de se referir a si próprio aqui no Margozo, pode comprovar isso mesmo... hahaha) Só que tenho estado a descer no tempo, e só agora cá cheguei...
Sobre este post, estou d'acordo com ZC, porque sinto e acho, da experiência, vivência, constatação e leituras, que o Homem nasce com uma 'parte significativa da sua cultura já escrita' e uma outra que se vai forjar, e depender do que vai aprender/apreender da vida que levar... ou for levado a viver.
Tchá

João Branco disse...

E voltaste em força, Tchá. A clientela do Margoso já estava a sentir a falta... hehe