Cafeína

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«Há na leitura aspectos que merecem a nossa atenção porque ligados a um difundido hábito não inspirador, julgo eu, de grandes afirmações… Refiro-me a ler na retrete. Em rapaz, quando procurava um lugar tranquilo para devorar os clássicos proibidos, muitas vezes me enfiei na retrete.(…) De conversas com amigos íntimos pude concluir que a leitura na retrete é quase sempre fútil: revistas ilustradas, selecções, folhetins, romances policiais ou de aventuras, toda a escória da literatura. Há gente que chega a ter uma prateleira de livros na retrete, local onde a leitura os aguarda como na sala de espera de um dentista. É espantoso verificar a avidez com que as pessoas passam revista à “leitura”, se assim posso dizer, que se amontoa nas antecâmaras dos médicos e dos dentistas. Para não pensarem tanto nas provações que as esperam ou recuperarem o tempo perdido, “ficarem a par”, como dizem, da actualidade?

Várias observações me garantem que estas pessoas já todas têm a sua conta de “actualidade”, quero dizer guerra, acidentes e mais guerra, desastres e outra guerra, assassínios e mais guerra, suicídios e outra guerra, assaltos a bancos, guerra e mais guerra quente e fria; as mesmas, não duvidemos, que têm o rádio aberto dia e noite, vão ao cinema o mais que podem – fora as novelas, fora a “actualidade” – e compram televisões para os filhos. Para estarem informadas!

No entanto o que sabem (que valha a pena saber) dos acontecimentos importantes que estremecem o mundo?

Muita gente devora jornais e cola o ouvido ao rádio (às vezes as duas ao mesmo tempo!) para ficar ao corrente do que se passa. Ilusão pura. No entanto activa e ocupada, essa pobre gente toma consciência do vazio aterrador que existe dentro dela. Pouco importa aonde mama: essencial é evitar o encontro face a face consigo própria. Meditar no problema do dia, ou nos seus próprios problemas, é a última coisa que a gente normal deseja fazer.

Mesmo na retrete, sítio onde não há nada para fazer nem pensar, onde ao menos uma vez por dia estamos sós e tudo se processa de forma maquinal, onde a ocasião é de beatitude (pois realmente se trata de uma espécie de beatitude), há pessoas que decidem concentrar-se na matéria impressa e, ao que imagino, têm o seu género de leitura favorito: umas absorvem longos romances, outras bagatelas sem consistência, outras voltam páginas e sonham. Que espécie de sonhos?... pergunto eu. Que espécie de tintas lhes dão a cor? (…).»

Henry Miller, in “Ler na Retrete” & etc, 1981

Nem de propósito, descobri este texto... E então, ler na retrete é ou não é um acto de cultura?




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5 comentários:

Alex disse...

É sempre! Onde (?), é mero acidente.
Passei aos meus dois filhos o "mau hábito" de ler na retrete. De facto é um prazer enorme (as duas coisas contagiam-se mutuamente, e quantas vezes um mau livro não é causa de muita prisão de ventre), mas hoje reconheço que é um erro estender o prazer da leitura muito para lá do prazo útil da coisa. Não João, não são invenções como dizes noutro Post. É assim mesmo. Há coisas que só descobrimos tarde demais. E hemorróidas é uma chatice, acredita.
Ler na retrete deve ser um dos hábitos mais universais que existe. Mas, há sempre um mas, a idade não perdoa.
Ab
ZC

João Branco disse...

O Henri Miller que o diga!

JP disse...

Dizia-me Orge:

O lugar que na terra amamos mais
Não é a relva do túmulo dos nossos pais.

Dizia-me Orge: para mim o lugar que
Mais se deve desejar será sempre o W.C.

Nesse lugar é permitida a cada um a alegria
De ter por cima a estrela, e, por baixo, a porcaria.

Lugar admirável onde se po-
De, adulto, ficar só.

Lugar de humildade: nele saberás bem
Que não passas de um homem que nada retém.

Lugar onde um corpo que no assento repousa
Faz com força e doçura por seu bem qualquer cousa.

Lugar de sabedoria onde podes com lazer
Preparar a tua pança para muito outro prazer.

Nele te darás conta do que realmente és:
Um pobre tipo que come nos WW. CC.

JP disse...

by the way, o poema é o "Canto de Orge" do Brecht, não coloquei logo por ter o dedo demasiado rápido no gatilho...

..parabéns pelo blog e abraço de Lisboa ppa bzot tud na Soncent. Sodad ê tcheu!

Abraço, João Peixoto (djon d'electra ;)

João Branco disse...

Bela contribuição, João. Um abraço de Cabo Verde!