Crónica desaforada

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Subir escadas na Praia

1. Esta é uma reflexão sobre teatro na capital. Ou, melhor ainda, sobre o não teatro na Praia. Motivada pelos agradáveis dias que lá passei, pelas conversas que tive com gente inteligente, interessante e interessada. Pelo facto de ter ido apresentar um livro com cinco peças originais, de um dramaturgo que é músico e que nasceu no Tarrafal. Quatro delas já apresentadas em palco. Isto tem que significar alguma coisa.

2. O teatro, como se sabe, vive do diálogo na primeira pessoa. São personagens que num determinado contexto, num universo particular e motivados por um leque imenso de sensações e estados d'alma, comunicam uns com os outros e através destes, com o público.

3. Por isso mesmo, a escrita teatral pede uma técnica específica que é complexa, dificil de dominar ou mesmo de entender. Um dos pontos d'ordem dessa textura literária é o de que o tempo teatral e o tempo real não são os mesmos. Ou não deviam ser os mesmos. O teatro é a arte da condensação. A arte do close-up. Um jogo de espelhos que, melhor do que qualquer outra, serve para que a Nação, cada Nação per si, se (re)veja a si própria.

4. O teatro permite que cada Nação se possa rir desbragadamente de si própria. Se dê a si mesma o direito de se emocionar com as pequenas belezas que no dia-a-dia nos passam ao lado, porque o ritmo quotidiano como o que se vive hoje na Praia nos impede cada vez mais de usar o bem mais precioso que todos temos à partida por igual: o tempo.

5. Ora, colocar tudo isto no papel de forma a que a sua transposição para o palco não se transforme num supremo aborrecimento é uma tarefa que exige técnica, vontade e sobretudo, muita coragem. E é também um desígnio, sabendo-se, como se sabe, que não há teatro nacional sem uma dramaturgia nacional.

6. Apesar do quadro dramatúrgico nacional não ser tão desolador quanto possa parecer à primeira vista - e isso fica claro com a leitura do capítulo dedicado à dramaturgia cabo-verdiana inserido no livro «Nação Teatro» - muito mais se poderia fazer. Talvez seja aqui que resida o ponto de partida para nos questionarmos do facto de numa cidade tão cheia de vida, de poesia, de contrastes, de cores, de cheiros, de sensações, de impossibilidades, de ironias, de absurdos, em suma, numa cidade tão descaradamente teatral, não haja, no presente momento, um teatro que lhe possa fazer justiça.

7. Digo isto, não para diminuir, ignorar ou destratar os poucos que vão tentando fazer alguma coisa nesta área, mas apenas para chamar atenção de que o material humano que está à vista de todos, a nível temático, social, inter-pessoal, artístico, poético, plástico, rítmico, etc., é infinitamente mais denso, mais complexo, mais interessante, do que o panorama teatral pode indiciar, se tivermos em conta a realidade actual.

8. Ou seja, temos aqui todos os ingredientes necessários que permitem a uma cidade como a da Praia, capital de Cabo Verde, ter um teatro ousado, experimental, criativo, intempestivo, provocador, poético e auto-exigente, capaz de seduzir um qualquer público que se predisponha a parar por apenas uns segundos.

9. É como se tivessemos um grande supermercado, com todos os ingredientes, os temperos, os legumes, oriundos directamente da terra, mas muito poucos com vontade e coragem para pegar nestes, nos utensílios de uma boa cozinha e deixar a imaginação e a criatividade trabalhar ao serviço dos paladares mais diversos. Sem receio de inventar, desbragadamente, as receitas mais improváveis.

10. Aqui, parece-me, os escritores, cronistas, poetas, intelectuais, e a muitas vezes chamada de forma algo paternalista, a «malta nova da movida praiense», deveriam ter uma palavra a dizer. O Mário Lúcio, ao escrever e editar um volume com cinco peças originais, dá-nos uma grande lição. Porque aprendeu, fazendo. Conhecendo, aos poucos, os meandros e os pequenos segredos da arte teatral. E nem são assim tantos como isso, até porque o teatro é uma arte que só se afirma, assumindo a sua própria teatralidade, ou seja, fazendo com que os segredos não o sejam, porque ficam à vista de todos. No momento presente e no espaço partilhado.

11. Costumo dizer aos meus alunos de teatro que o teatro é a arte mais transparente que existe. Tudo está à vista. A nudez faz parte da sua mais profunda natureza. A própria cerimónia que é o acto solene de se entrar numa sala de espectáculo para assistir a uma peça de teatro é constituída por um acordo tácito entre o público e o criador. Um contrato que se celebra, com regras pré-definidas. Ninguém é enganado. Engana-se sim quem afirma que o teatro é a arte do fingir. O teatro não é a arte do fingir, é a arte do ser. Pode haver algo mais humano do que isso?

12. Homens e mulheres da capital, que tanto gostam de escrever: ponham mãos à obra. Não se deixem intimidar por Dionisius, até porque este trás uma máscara na mão e um copo de vinho tinto na outra, e temos sempre forma de afogar as nossas mágoas depois de uma experiência mal sucedida sem que com isso tenhamos que desistir. E aprender, aprender sempre, como escreveu Amílcar Cabral.

13. Conheço gente impregnada da cidade, que ama a cidade, que vive e defende(-se) (d)a cidade, que sente de forma apaixonada o amplo e diversificado tecido urbano praiense, que escreve bem e que sabe observar e interpretar o que a cidade transmite a cada instante. O mais dificil está feito, digo eu. A partir dos textos, há-de haver quem perca a vergonha e os queira pegar e, através das ferramentas que o teatro utiliza, possa materializar os sonhos dos homens, fazer do teatro desta cidade o que esta cidade merece que ele seja. Só não podemos assobiar para o lado e dizer que não temos nada a ver com isso e depois lamentar nos bares que não há teatro na cidade capital.


E assim, subiremos as escadas.


Mindelo, 02 de Abril de 2008

Imagem: fotografia de Cesar Schofield



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14 comentários:

Alex disse...

Que foto magnífica. Que luz! Mesmo sem a figura subindo, seria fantástica!
Belo enquadramento César!

ZC

Unknown disse...

Concordo. Mas gostava de ter lido algo sobre o modesto texto que acompanha tão bela imagem... Abr. JB

Alex disse...

Quanto ao teu texto, deixa-os pousar, deixa-os pousar!

Finalmente fui ao Meridional ver LISBOA INVISÍVEL. Pouco mais de meia casa, para Páscoa não estava mal.
Grosso modo, gostei. Gostei de algunas interpretações (dois ou três muito bons, ele e elas), gostei da encenação (bom trabalho da Natália Luiza e do Miguel Seabra). Quanto à dramaturgia, nem tanto. Texto frouxo, demasiado didáctico e ilustrativo(mesmo percebendo a intenção, achei primário por vezes), excesso de cuidados no tratamento do tema, a roçar o paternalista, sem cair no coitadinho. Duas ou tres cenas bem conseguidas (a notícia da morte de um parente lá na terra; e a cena final do bairro com uma solução cénica brilhante da Marta Carreiras, creio.
Uma peça ideal para itinerância, uma boa oportunidade para se fazerem à estrada, e fazerem funcionar a LUSOFONIA, se tal coisa funcionasse (não é verdade Djinho!). Segundo consta esta é a primeira de ums série de 3 peças com o objectivo de cobrir todo o espectro da Imigração em Portugal. Esta era sobre as Comunidades Africanas. As próximas serão sobre as Comunidades Brasileira e do Leste. Suspeito que tudo aquilo seja feito com dinheiros públicos. Não se entende então o desperdício.

ZC

P.S.- Na assistência estava Sofia Aparício. A modelo que, sem peneiras ou tiques de vedeta, se tem revelado uma excelente actriz. A última peça, O BOSQUE do David Mamet (excelente cineaste, guionista e dramaturgo) no Teatro Aberto, é praticamente ela a brilhar. Já vi mais coisas dela e nunca me desiludiu. Enche a cena e abafa literalmente o Ricardo Trépa (pelo menos no dia em que lá fui).

Alex disse...

João, creio que essa escada é aquela que vai da Central Eléctrica para o Plateau. Se não é, é parecida (embora o muro branco ao fundo me deixe com dúvidas). Não importa. Se não for façamos de conta que é.
No meu tempo ela culminava com uma outra, em cimento, ainda mais íngreme. O último degrau representava metade da subida (precisamente na curva para a Várzea/Cimitéri). Para nós, há 40 anos, mesmo jovens, era o Calvário. O pior momento do percurso, quando regressavamos da Praínha ao fim da manhã, a pé, cansados e esfomeados, debaixo de um sol abrasador, vencidas as areias da Gamboa e da Ponti Bédju, ter de as enfrentar era o maior desafio do dia. Trepei por ela muitas vezes.
Aqueles degraus fazem parte dos muitos caminhos da minha infância, e juventude.
Esta foto do César, é o que se pode dizer, OURO SOBRE BRANCO.

Abç's

Anónimo disse...

Pois é JB, o que ñ falta à nossa capital são ingredientes para escrever e transpôr para o teatro, mas parece que falta ousadia e audácia ao pessoal (sem ofensa), e vamos concordar que não faltam pessoas capazes para o fazer. A mim parece-me que a história do Dragão na garagem enquadra-se,de alguma forma, muito bem em alguns dos pontos da tua crónica.

Anónimo disse...

um texto de corpin pegode...margozin, acho que pode-se mesmo generalizar pra outras
" areas artisticas e de criação" na nhâ opinião ta fazé falta dum ponte pa fazé ligação entre artistas,criadores ja establecidos e a nova geração(seja quem for) , pecamos pelo falta de dialogo e falta de abertura, é cada um ta dzenrascâ sê catchupa moda el puder...e também quebrar o gelo desse pseudo-elitismo que reina, abrir portas(e janela),pa entra ar fresco ,troca expriencias,pontos de vista,opinião, falar , falar falar... acho que blogs é um dakés coza mais interessantes que podia ter contecido, pessoas pode dialoga e troca sês impressão sem medo de parcé feio , e ess café margozo assim como outros blogs têm esse papel de abri portas ,facilita troca de opiniões,expriências etc etc ,etc

Miguel Barbosa disse...

Teatro é Educação. Em qualquer país do mundo, as crianças são ensinadas desde a mais tenra idade sobre a importancia do teatro.
Considero-me +/- educado, morei no Rio de Janeiro e São Paulo, cidades com cultura tetral muito forte, e NUNCA fui ao teatro, mesmo sendo vizinho durante anos de um dos mais importantes teatros de SP ( Teatro Cultura Artística).
Só vim a frequentar o teatro com minha filha, no Rio, cidade cuja prefeitura tem uma rede de teatros, dirigidos à época pelo multifacetado Miguel Falabela, que determinou que no ultimo domingo de cada mês os ingressos para todas as peças custassem 1 real, como medida de incentivo( lá está!).
Tudo está na educação!

Unknown disse...

ZCunha, sobre o Teatro Meridional deixa-me dizer-te uma coisa: conheço bem os seus principais mentores e eles conhecem bem a realidade «afro» de alguns países e certamente conhecem bem a questão dos africanos residentes em Portugal. Não te estou a dizer que certos «desconfortos» não sejam possiveis, é normal, depende de cada um de nós. Mas paternalismos ali, não me parece. Tenho pena que não tenhas visto (não mesmo?), o espectáculo que o meriodonal fez sobre Cabo Verde, chamado «Contos em Viagem, Cabo Verde», com uma colagem de textos de autores cabo-verdianos. Estreou no mindelact 2007 e foi dos momentos mais emocionantes da minha vida. Para mim, o Teatro Meridional é a melhor companhia teatral de Portugal, e já estou como se ouvia na publicidade: «o que é Meridional, é bom»! Sobre a foto, concordo contigo, outro sobre branco. Abr.

Sisi, estas coisas estão sempre ligadas, não é?

Hiena, já esteve pior. Acho que hoje à uma maior abertura para diálogos inter-geracionais e inter-regionais. Começam-se a desmistificar certos absurdos que dantes eram dados como certos, nomeadamente uma certa «incapacidade» de nos entendermos uns aos outros. Concordo também que os blogues são - não um caminho - mas um instrumento que pode ser poderoso na construção de um discurso artístico, cívico, poético, reivindicativo que tanta falta faz a este país. Sou um optimista por natureza. Tenho que acreditar, não é?

Miguel, em qualquer país do mundo, não é bem assim. Infelizmente.

Anónimo disse...

Claro, nô têm que acredita...e concordo que ja foi pior, espero que continue melhorando, e acho que uma coisa que faz falta é, por exemplo, o ter direito a uma opinião respeitando os outros , coisa que muitas vezes não fazemos, " temos"(qués k são) a mania de ter uma opinião formada e de não aceitar visões diferentes matando à partida qualquer tentativa de dialogo, de sermos(kés k são) senhores da verdade absoluta e de esmagar pura e completamente outras verdades, e o dialago é muitas vezes um nado-morto ,as vezes por falta de coragem de inicia-lo ,às vezes por arrogância em termina-lo...
P.S. _ sorré um ter mudôde rumo de bô post mas acho que ta tudo ligado..

Unknown disse...

Hiena, tranquilo. É a vantagem dos blogues e da possibilidade de se ir conversando, via comment. A gente vai onde a conversa nos levar. E ninguém vai levar a mal por isso. Abr.

Alex disse...

Caro João

Falei APENAS da peça que fui ver. Isto é, de uma única sessão. Não fiz qq juizo sobre o Teatro Meredional. E mantenho tudo o que disse, SOBRE ESTA PEÇA. Elogios e críticas. Elenco desiquilibrado, e um texto fraco (mesmo que às vezes só eu e mais dois ou tres nos ríssemos de uma ou outra piada em crioulo). Foi o meu primeiro trabalho do Meridional. Conto ir mais vezes. Gentes e espaço mt simpáticos e acolhedores (tb conta). Não vi "Contos em Viagem", apesar de ter ouvido ecos (positivos) dela. Estás no teu direito de gostar, adorar e até glorificar a malta do Meridional. Acredito piamente que gostes tanto deles assim. Espero poder vir a dizer o mesmo no futuro. Eu cá avalio as coisas não por atacado, mas à peça. Nenhum dos meus grupos, encenadores, ou actores, preferidos estão isentos de crítica. Bem pelo contrário. Por vezes até sou mais severo por isso mesmo. Sejam elas produções da Cornucópia, do Bando, da Comuna, da Barraca, do Teatro Aberto, do Maria Matos, do D. Maria, dos Filhos da Noite/Coimbra, das troupes do S. Luis/Teatro Mário Viegas ou do Jorge Silva Melo/Artistas Unidos/T. Beato, espaços que frequento com regularidade. Não dá para ir a todas, mas faz-se um esforço para se ir vendo qq coisa. De todos eles já vi coisas muito boas, e coisas que não me ficaram na memória. Por isso, não te posso acompanhar nessa avaliação que fazes do Meredional, a MELHOR COMPANHIA DE PORTUGAL. Sinceramente, não acredito nestas coisas. A ver vamos. Sobre o Meridional o juízo é teu. Sobre a peça, e só sobre esta, recaiu o meu juizo.
Abç's
ZCunha

Unknown disse...

ZCunha, não era minha intenção condicionar o teu juizo critico. E tens razão, não há «melhores companhias». Meto a viola no saco e sigo viagem com mais um ensinamento. Abr.

Cesar Schofield Cardoso disse...

Olá Alex,

A escada é mesmo essa da central até ao plateau. Na altura da expo dei-lhe o título "Lus d'oru ta limiau kaminhu"...e foi a maior piada, porque: à noite é escuro como o breu e dá acesso à electra, que dá tudo menos luz. A foto serviu inclusive para um debate. Obrigado pelo elogio. É dos meus favoritos.

Quanto ao tema. Eu e o João conversamos sobre...Realmente dói ver tanto material, sem que ninguém tenha coragem de lhe por a mão. Tentamos, tentamos, mas há tantos senãos!...A cidade da Praia está agressiva, não é só pela agressão física; é por estar a se transformar numa cidade que obriga a correr como um louco, para não se ser ultrapassado. É a resposta que dei ao João, qd ele pergunta: "porque não metem as mãos". Metemos as mãos, mas sobreviver oblige.

Ou então, até que apareça um outro mandrongo desocupado por essas bandas e não faça mais nada na vida, a não ser montar um Praiact, eheheheheh

Abraço Alex, abraço João.
César

Unknown disse...

Ah Cesar, golpe baixo!