Crónica Desaforada

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Uma Bolha Cabo-verdiana?


Lembram-se deste post sobre a febre da bolha em S. Vicente? Bem, parece que há por aí muitas outras «bolhas», que é como quem diz, esquemas estranhos, negociatas pouco claras, trocas ilícitas, fugas aos impostos e sabe-se lá o que mais. Já diz o povo, não há fumo sem fogo, e a fumarada originada com uma nacionalização ocorrida em solo luso foi tanta que chegou desaforada a este pacato arquipélago.

O caso da nacionalização do BPN (Banco Português de Negócios) e o facto deste escândalo ter vários tentáculos ligados de forma clara a Cabo Verde e uma entidade misteriosa - que só agora fiquei a conhecer da sua existência - chamada Banco Insular, é preocupante, e pelas reacções públicas, parece que toda a gente anda a lavar as mãos, sorrindo para o lado, com a mensagem de que não se passa nada e que não nos temos que preocupar, porque o nome de Cabo Verde «não está em risco».

Mas como sabemos desde Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E para algum lugar aquele dinheiro todo foi. Falam-se em 360 milhões de euros de prejuízos relacionados com o Banco Insular. Reparem: 360 milhões de euros. É muito dinheiro.

O que se disse e escreveu?

1. Trezentos e sessenta milhões de euros de prejuízos terão sido «camuflados» pelo Banco Insular;
2. Esses movimentos «estranhos» foram detectados pelo Banco de Cabo Verde;
3. À frente da holding que detinha o BPN está a Sociedade Lusa de Negócios, envolvida já em vários casos pouco claros em Cabo Verde, envolvendo inclusivé a demissão de um ministro;
4. O lamaçal fedorento dos negócios de terrenos e imobiliários nas ilhas, com possíveis comissões à mistura, parecem estar ligadas a este escândalo;
5. Um alto responsável do Banco Insular, informou que se há ilegalidades, «é no BPN»;
6. Chama o mesmo indivíduo a atenção para a diferença extraordinária entre o que é uma «irregularidade» e uma «situação irregular», confessando que houve esta mas não aquela;
7. O Governo tranquiliza o país garantindo que Cabo Verde nunca será «um paraíso fiscal»;
8. Entretanto, um alto funcionário que dá a cara - uma excepção - e que é nem mais nem menos que o director de Supervisão de Instituições Financeiras do Banco de Cabo Verde (e portanto, não é um mero funcionário admnistrativo), afirma à Rádio Nacional, que tinha conhecimento, «desde Junho», da existência de irregularidades no Banco Insular, nomeadamente que a instituição recebia «parte dos activos na ilegalidade, a parte clandestina»;

Todas estas informações foram retiradas dos jornais desta semana. Não os inventei, apenas faço eco deste insólito caso. O que me parece é que a culpa vai morrer solteira neste caso.

Se o Estado de Cabo Verde, através do seu Banco Central admite desta forma directa e inequívoca que há ou houve irregularidades, tem que actuar. E contribuir para que se responda a esta pergunta básica: onde está o dinheiro?

Tal como me parece muito claro no caso do «jogo da bolha», também neste alguém anda a ganhar muito dinheiro e alguém vai ter que pagá-lo, porque ainda não houve nenhum cientista que tenha vindo desmentir o que Lavoisier conseguiu demonstrar à mais de 300 anos.


Mindelo, 07 de Novembro de 2008




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4 comentários:

Redy Wilson Lima disse...

Pois é João. Antes ele disse que houve irregularidades (expresso das ilhas, liberal e RTP) para dizer a seguir que afinal nunca houve irregularidades (liberal). Isso tudo depois de uma reunião relâmpago entre os administradores do BI e de algumas empresas de nome na nossa praça, com muitos telefonemas pelo meio (sabe-se lá para quem) num restaurante cá da capital.

João Branco disse...

Wilson, a mim o que me preocupa e espanta é a leveza com que este assunto está a ser abordado.

Redy Wilson Lima disse...

João, para além da leveza com que o assunto está aser abordado, leia o post da Margarida Conde (http://seiquequerosaber.blogspot.com/2008/11/comdia-numa-tal-audio-sobre-o-banco.html), ela foi quem cobruiu a audição no Parlamento pelo Expresso, para veres até que ponto os nossos deputados estão preocupados com tudo isso.

João Branco disse...

Vou ler isso. Estou curioso, embora deva confessar que já nada me espanta.