Declaração Cafeana

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Segundo os últimos resultados da sondagem do Afrobarómetro, divulgados na comunicação social, 83% dos cabo-verdianos mostram-se «desinteressados» pelos assuntos políticos em Cabo Verde. Também se fica a saber que 52% não fala de política por «receio de perseguição» (seja ela de que tipo fôr) e que apenas 38% considera positivo o desempenho dos nossos políticos.

Não se pode olhar para estes dados com um sorriso nos lábios.

São números assustadoramente elevados, e apesar do que foi dito por duas das principais figuras da historiografia política cabo-verdiana, Carlos Veiga e José Maria Neves, de que os cabo-verdianos se deviam «orgulhar dos seus políticos», a verdade é que cada vez mais, somos confrontados com acontecimentos que não só vão contra essa opinião, como explicam muito dos números do Afrobarómetro e do divórcio, cada vez mais evidente, entre os cidadãos e a classe política.

O caso do não avanço da (fundamental para o País) reforma do sistema judicial cabo-verdiano que, pelo que foi relatado, não aconteceu devido a birras político-partidárias; o caso do comportamento dos deputados, denunciado por uma jornalista, na comissão parlamentar que recebeu o Governador do Banco de Cabo Verde, para esclarecimentos sobre o caso do Banco Insular e BPN português; o caso do veículo 00 Kms do Presidente da Câmara Municipal da Praia, mesmo que adquirido a preço de saldo (a troco de quê, não se sabe); o caso do Presidente do Conselho de Adminstração da companhia aérea cabo-verdiana, com menos de 6 meses de casa, que resolve ir de férias para o Brasil durante três semanas, numa altura muito crítica para a empresa estatal.

Tudo isto apenas e só nos últimos dias. É muita fruta. E não sei o que espanta mais: se é o facto de as pessoas escreverem comentários do tipo «não sei qual é o teu espanto, toda a gente sabe que isso é assim mesmo!» ou de ainda haver cerca de 17% de cabo-verdianos que se interessem pela política nacional. Muito provavelmente, esses, serão aqueles que lucram directamente com isso.

No meio de tudo isto, é um facto que temos grandes políticos, sérios, competentes, altruístas, mais preocupados com o todo do que com a parte, no Governo, na oposição, nas empresas públicas. Isso é inquestionável. Mas o que parece é que ou isto dá uma grande volta, principalmente de mentalidade, ou até esses bons exemplos, acabarão, mais tarde ou mais cedo, por se afogar no terreno movediço que parece querer dominar o espectro político cabo-verdiano.


Imagem: Jornal do Hiena




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2 comentários:

Sisi disse...

Esses nºs apesar de serem assustadores, já seriam de esperar. Acho que este elevado desinteresse do povo pela política é das principais causas do modo como ela está...é só repararmos na % de abstenção que há em todas as eleições. Quanto aos 52% que receiam uma perseguição, temos que ter em conta não só o nosso passado político, como tb alguns acontecimentos recentes para perceber este medo. Relativamente a postura dos nossos políticos, acho que não tem muito do que se orgulhar. Eu sempre achei que o nosso parlamento, o que mais faz é descutir partidarismos ao invés de questões relevantes para CV.
É verdade que existem os "bons" políticos, mas esses ou não sobrevivem a esta "selva" ou acabam sendo corrompidos por ela, e lá se vai todo o idealismo.

Acho que a grde mudança de tudo isto começa no Povo que deve e pode (através do voto)ter uma postura mais activa e escolher,de forma consciente e inteligente,os representantes do seu país.

João Branco disse...

Sisi, concordo com uma coisa: a palavra chave deste processo é MENTALIDADE. Mas como se tem visto com o exemplo do Jogo da Bolha, temos todas as razões para estar pessimistas.