Cafeína

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Teatro de operações

Há na República Democrática do Congo uma situação humanitária que o Presidente em exercício da UE, Bernard Kouchner, descreve como “difícil de tolerar”. Há relatos que falam de massacres de civis, de acções de limpeza étnica e da possibilidade de voltar a acontecer algo semelhante ao genocídio do Ruanda. Ainda assim, a UE não parece disposta a enviar tropas para o Congo, uma vez que o país é imenso e a situação complicada. Luís Amado, o chefe da diplomacia portuguesa, considera até que o envio de tropas iria “complicar ainda mais um teatro já de si tão complexo”. Ficamos, pois, esclarecidos. Os massacres em África dão bons filmes a posteriori, mas não servem para teatro de operações humanitárias. Os países africanos são grandes e complexos e os europeus que os talharam a regra e esquadro não querem ter nada a ver com confusões dessas. E sobretudo não vale a pena ir para lá atrapalhar e complicar a vida de quem quer chacinar em paz.

Manuel Jorge Marmelo - Teatro Anatómico




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14 comentários:

geracao20j73.blogspot.com disse...

Há muito mais do que isto na questão da Guerra dos Grandes Lagos. Talvez a Europa não queira dar aos seus soldados "ordem para morrer".Porque não há uma linha de paz nesta guerra.

João Branco disse...

E o que está em questão? Explique-me como se eu fosse um garoto de 9 anos...

A verdade é que o divórcio das grandes potências - para não dizer interesse ou hipocrisia - em relação ao continente africano e seus graves problemas (entre os quais as guerras) é chocante, quando comparado com as preocupações e acções em outros locais do globo.

Teatrakacia disse...

"Toda essa comédia, representada pelos diplomatas em congressos internacionais, não passa de formidáveis mistificações, método seguro dos governos mútuamente se enganarem, dando ao mundo o edificante exemplo da mentira, da hipócrisia, da traição!" - Eugénio Tavares
O esclarecimento do visionário ET diz tudo em relação ao 'funcionamento sem critérios claros para todos' no teatro de operações dos chamados 'polícias do mundo' chamado civilizado. Quando há mais necessidade de intervenção, pela gravidade da situação... é essa mesma gravidade que serve de desculpa para a não acção. É muito mais fácil fazer de Pilatos, sobretudo porque não há 'interesses' que justifiquem o 'esforço'...

Burcan disse...

A grande verdade é que a UE, assim como os USA só "acodem" a um país em guerra quando lhes é interessante. Petróleo do iraque, por exemplo, é algo muito interessante, pois os Americanos e seus aliados não querem "largar o osso", digo o petróleo. Aí sim devem estar dando aos seus soldados "ordem para morrer", se me permite roubar suas palavras. Haja hipocrisia!

João Branco disse...

Tchá, bem apanhada essa frase do nosso Eugénio Tavares!

Burcan, pois o Congo não tem petróleo... ou tem?

septuagenário disse...

Esta guerra que dura com mais ou menos intensidade, 48 anos, ou seja de Junho/60 até hoje, iniciada com o hastear da bandeira do Congo Zaire e o arrear da bandeira belga, na presença do rei balduino, tem muitas explicações e muitas desculpas.

A principal é que os belgas não tinham capacidade nem vocação para manter um neo-colonialismo como faziam outras grandes potencias coloniais. Daí, logo no dia da independência se deu uma ponte aérea Kinshasa-Luanda-Bruxelas, de todos os belgas com a roupa do corpo, em fuga, como os tugas 15 anos depois com os retornados, de Angola.

Agora pensemos nas duas potências da guerra fria, na ONU e em milhentos turistas que se dizem de ONG's e a respectiva sinceridade.

E curioso que os angolanos, vizinhos do Congo, parece que estabilzaram mais cedo que Congo, Ruanda e Burundi.

Talvez que por verem as barbas do vizinho a arder, é que imensos angolanos enfileiraram ao lado do exercito português durante a guerra colonial.

Mas a ONU parece alheia ao drama.

João Branco disse...

Caro Septuagenário: não estou muito por dentro, mas não há questões étnicas no cerne e centro de todas estas guerras? Sempre tive ideia que sim!

septuagenário disse...

João Branco, eu falei em "muitas desculpas".

Essa das etnias é a mais logica e a mais fácil de apresentar.

Mas, para quem assistiu a quase tudo, as desculpas são tantas que até podemos dizer que a culpa foi das independências na hora errada.

E aí chegávamos ao ponto de afirmar que a única solução era "baralhar e tornar a dar" e voltávamos a 1880 e recomeçavamos.

João Branco disse...

Septuagenário, pode-me esclarecer então: a questão das etnias - o ódio existe, a raiva existe, entre eles devido essa questão - é ou não é central em todo este processo?

Quer dizer, as questões étnicas nos conflitos dos Grandes Lagos, são afinal, causa ou consequência?

Abraço fraterno

geracao20j73.blogspot.com disse...

Na verdade a complexidade da Guerra do Congo é étnica, territorial, colonial e de riqueza. Uma resposta em forma de pergunta: sabes o EL Dourado africano para este século é a bacia do Congo. Geograficamente linha começa na bacia do rio Niger, passa pelo centro do deserto de Saara (até as bandas do Darfur, vais um a curva nos grandes lagos e vai até a bacia de Luanda. Quer um sinal ocidental visível: o Comando Africano dos EUA em plano, a reestruturação da Força Militar francesa em Djibute e os interesses das emergentes (até o Brasil quer lá ter a sua sombra, já viste o Brasil com política imperialista para o exterior?). Na mescla de todos esses interesses de certeza que não vai surgir uma linha para a paz. O Ocidente está descredibilizado nesta área, principalmente as forças da UN, não havendo uma linha visível para negociação nenhum Estado da UE enviará os seus homens para a morte.

João Branco disse...

Cenário assustador, na verdade. Há soluções? Baixam-se os braços e pronto?

geracao20j73.blogspot.com disse...

Há soluções! Vou lhe desenhar um quadro lindo de surrealismo, no qualquer quero ter fé mais não tenho esperança. A UE organiza-se em formas de camada de cebola: os países periféricos e os de centro. No inicio o centro era franco-germânico-italiano e hoje pelo realidade tenta-se criar um centro franco-germânico-saxão é neste eixo que as directivas são tomadas. Agora o meu desenho. Um União Africana centralizada neste eixo: África do Sul, Congo, Nigéria, Sudão, Egipto, Angola e Senegal capaz de orientar o conjunto. Para mim é um desejo, uma utopia, para não dizer uma fantasma. Como acredito que não existe fantasma, não acredito nesta utopia.

septuagenário disse...

João Branco, eu não gostaria de continuar neste assunto porque devido à minha idade já não mudo de ideias, e não quero expôr totalmente essas minhas ideias. Mas vou-lhe dizer a ideia de um angolano que era um simples servente numa repartição pública em Angola aquando dos retornados portugueses: dirigindo-se a mim na hora da despedida, patrão, agora vamo-nos matar todos uns aos outros.

Esse servente tinha a 4ª classe, era do Cuando Cubango, onde nunca tinha havido guerra, mas que neste momento está tudo semeado de minas.

Se um simples servente profetizou a desgraça da guerra que se deu em Angola (27 anos), porque não deixar os africanos resolver os seus problemas?

A ONU já deu mostras que os negros são carne para canhão.

João Branco disse...

E quem domina a ONU a seu bel-prazer? Uma questão que fica no ar...