Crónica Desaforada

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Vou, mas com muitas dúvidas

1. Aceitei participar no Fórum Internacional sobre a Economia da Cultura organizado pelo Ministério da Cultura, e que começa já na próxima 2ª feira, motivado pela minha mais absoluta ignorância: não entendi ainda o que raio significa isso da "Economia da Cultura", nem qual o papel do Estado nessa perspectiva mais liberal, menos ainda num país como Cabo Verde.

2. Vou, pois, sobretudo para ouvir e aprender, e quem sabe, voltarei da capital com as minhas dúvidas totalmente esclarecidas e a proferir entusiásticos discursos inspirados no tema central do Fórum, ele próprio extremamente inspirador: A Economia da Cultura no Debate da Mudança.

3. Este encontro arrastará consigo, para além da partilha de experiências e conhecimentos, tudo aquilo o que é comum neste género de grandes reuniões introspectivas, senão vejamos: a malta vai encontrar-se e conviver, quem sabe até nivelar novos projectos e parcerias para o futuro;

4. Os artistas vão partilhar, conversar e conspirar, alguns certamente irão evocar a falta de apoio para os seus projectos individuais, até porque não são muitas as ocasiões para largar o já habitual e useiro choradinho da praxe;

5. Os intelectuais mostrarão o seu domínio e poderoso vocabulário em certas matérias específicas e os políticos aparecerão ao lado de artistas de nomeada, mas não só, o que cai sempre bem (para ambos os lados, diga-se de passagem);

6. Os poucos produtores culturais bem sucedidos trarão a sua experiência pessoal, num painel cujo título me parece infeliz e até um pouco revelador de que talvez isto tudo não seja também, mesmo que apenas em pequena parte, uma forma de tornar mais leve a enorme responsabilidade que o Estado tem que ter nesta área fundamental para o desenvolvimento de qualquer Nação, como aliás está mais do que demonstrado em inúmeros estudos feitos e publicados por esse mundo fora.

7. "Economia da Cultura e experiências de sustentabilidade", é esse o painel (e o título) em causa, que vai ocupar parte substancial deste meting e eu devo dizer desde já que o que a experiência de vida e a percepção me dizem destas coisas da Arte e da Cultura em Cabo Verde, é que a maioria dos casos de sucesso em eventos, grupos ou indivíduos criadores neste país tem pouco a ver com Economia, e muito mais com coragem, perseverança, paciência, talento, criatividade e uma dose considerável de loucura.

8. E isso inclui a própria Cesária Évora, sempre utilizada nestes casos como exemplo de maior sucesso da "indústria", o que é estranho tendo em conta que ela só começou a tirar dividendos do seu imenso talento para cantar, depois de muitos e muitos anos a penar e a comer o pão que o Diabo amassou, e isso porque houve uma pessoa - "lunática", lá está - que se lembrou que tanta capacidade concentrada poderia dar certo (lá fora, claro!).

9. Vamos todos aprender, certamente. Há sempre aspectos positivos a retirar e não só acredito que possa ser este o caso como não duvido nada da boa fé do Ministério da Cultura na aposta que faz com este Fórum, há longo tempo anunciado e preparado com todo o cuidado.

10. Eu, por exemplo, já fiquei a saber que pouco mais de 20% dos "artistas" nacionais (alguns com muitas aspas) em actividade em todas as áreas de intervenção criativa em Cabo Verde, tem alguma formação específica e adequada nas suas áreas de criação, sendo a grande maioria pura e simplesmente, auto-didacta. Isto parece indiciar, do meu ponto de vista, que a grande urgência hoje seria discutir a base das bases, ou seja, as possibilidades, os caminhos e as perspectivas para uma verdadeira e sustentada formação artística no nosso país.

Sem isso, não há Economia que resista.


Mindelo, 14 de Novembro de 2008




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8 comentários:

Anónimo disse...

...eu não penso que, apesar do meu optimismo duvidoso,"isso" trarà algo de bom para "os artistas"...pelo simples facto que "bruxo não da as receitas das suas poções milagrosas"...ou seja vamos dar uma volta ao caldeirão e sair sem prato de comida.Os que ja estão establecidos, da industria musical por exemplo sô pensam em ganhar mais, e não em promover a cultura, falta de visão? propositadamente? ninguém respondera ...certamente teremos algo positivo que saira do forum, mas não resolvera os problemas basicos,uma politica verdadeiramente cultural(+acção - discursos), infraestruturas(nao tou a falar de levantar paredes) formação(da orquestra e não de chefe d'orquestra), e acção...

Hiena( metaforico)

gicas disse...

Andas a ler o "A Naçao".

:)
mas é verdade. Há muito que se bem alertando que acima de tudo é um problema de base. Criar as bases para "uma verdadeira e sustentada formaçao artistica", e isso começa no jardim infancia, no ensino básico e por ai fora...deixar cada um desenvolver as suas capacidades desde criança e os verdadeiros artistas irao sobresair pelo seu talento, mas claro que devidamente orientados por uma formaçao, uma educaçao para arte.

Criando as bases, os alicerces, o resto do percurso e o seu sucesso é muito mais "fácil".

Virgílio Brandão disse...

João, estive no site do Ministério da Cultura à procura do programa e, depois de o ver, fiquei, sinceramente, com séria dúvidas se o que se vai falar será sobre a «indústria da Cultura»…

E depois, fiquei sem saber quem irá participar no Fórum, já sei, através do Margoso, que estarás lá. Espero, até o início do evento, saber mais sobre o evento é o programa não elucida nada de nada.

«A ECONOMIA DA CULTURA NO DEBATE DA MUDANÇA», é o mote do Fórum. Mas que que mudança se irá debater? Será que podes elucidar a minha pobre alma?

Conto com os teus ofícios para saber mais… se souberes.

Abraço fraterno

João Branco disse...

Hiena, este fórum pelo menos, mesmo antes de acontecer, já te deu um pouco de seriedade.... hehehe

Gi, pois...

Virgilio, nem eu sei, por isso vou. O titulo deste «desaforo» diz tudo, não é. Vou, com muitas dúvidas. E desconfiado, depois de ler o lema do fórum e o programa. Mas pode ser que mude de ideias.

geracao20j73.blogspot.com disse...

Sobre a produção artístico e se quiser cultura em Cabo Verde por estar ausente não sei de concreto o quê que se passa. Mas tenho a sensação de Cultura enquanto instrumento e meio de produção (a industria cultural) é inócua e até posso dizer mais é uma folha em branco.

Neu Lopes disse...

Só deixo aqui perguntas divididas:
1) Além dos "suspeitos do costume" quem de real importância vai a tal fórum de que tanto se fala? Não será mais um mero encontro de "camaradas" com um vocabulário caro e entupidos de falta de humildade?

2) Não haveria assuntos mais importantes e urgentes a tratar à volta dessa nossa cultura que, infelizmente, às vezes dá-me vontade de dar razão ao tipo que disse que "num país como Cabo Verde Cultura é luxo"?

Esse é meu desaforo.

João Branco disse...

Geração, mas olha, se calhar vamos escrever o Livro Branco da Cultura... :)

Neu, vamos ver, vamos ver. Vou lá estar para poder procurar uma resposta a essas perguntas...

Anónimo disse...

Vamos lá provar que a cultura é rentável, sustentável, geradora de riqueza e previne a miséria!!!!!!