Relato Margoso

9 Comments


Leiam este relato surreal:


«5 de Novembro, Assembleia Nacional. Sala da China. A Comissão Especializada de Finanças e Orçamento convida o Governador do Banco Cabo Verde, Carlos Burgo, para proceder a algumas explicações sobre o caso do Banco Insular e as suas polémicas transacções financeiras com o Banco Português de Negócios.(...)

Enquanto o Governador presta as informações necessárias, os deputados saiem da sala para atender telemóveis, atendem inclusive chamadas quando nesse preciso momento está a ser respondida aquela pergunta que tanto anseiavam ouvir e, que várias vezes se demonstraram impacientes para que fosse esclarecida. E para piorar este lindo cenário eis que em pleno discurso, o toque do telemóvel do Sr. Governador "vagueia" pela sala.

Um momento de espera: "Agora não posso atender" e retoma-se a tal audição tão importante para o País. Esquecer de desligar ou colocar o telefone no silêncio é humano, agora durante duas horas consecutivas, este esquecimento repetir-se vezes sem conta é que já não há explicação.

Um sai o outro entra, "Querida estou numa tal audição". "Ligue-me daqui a cinco minutos". "Isto deve estar a acabar". A comédia em pleno debate sobre um tal assunto que parecia ser fundamental para o esclarecimento dos deputados e cidadãos... Parecia!»


Um corajoso relato, de quem presenciou a cena, e portanto não pode estar a inventar tudo isto. A jornalista Margarida Conde publicou este texto no seu blogue Só Sei que Quero Saber e por ali se percebe como está a ser encarado pelos nossos políticos um dos maiores mistérios de índole financeiro da história de Cabo Verde. Estariam os senhores a jogar à bolha?


Imagem: gravura de Escher, «monkeymen mirror»




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9 comentários:

gicas disse...

Admirados?

Isto acontece tantas vezes, em reunioes, conferências de imprensa e outros encontros ainda mais graves e de extrema importância para o país, como é o caso deste. A mim, já nada me surpreende.

João Branco disse...

Olha, eu não tinha a minima ideia que isto era assim... Mas também, sou campeão da ingenuidade.

MYA disse...

Infelizmente de "surreal" nao tem nada. Alias nem espantada fiquei quando li. Essa postura é pratica comum.
Ate na missa isso acontece, e tou a falar do telemovel do padre. Essa poderá ser "surreal" mas é real porque aconteceu aqui em aveiro no passado dia 13 de Outubro.
Perderam-se Valores e esta perda é geral.
Alem de que na v/Assembleia nao imagino quem estivesse interessado nas explicaçoes do Governador do BCV. Todos estão "por dentro" de uma maneira ou de outra...que explicação??

João Branco disse...

Mya, por um lado o que dizes tem uma certa lógica, mas por outro custa-me acreditar que a nossa democracia está a evoluir para uma «farsa», com mudança de actores de 4 em 4 anos.

Margarida Conde disse...

Quando se "exigiu" a audiência com o Governador do Banco de Cabo Verde acho que era com intuito de esclarecer as "pontas soltas" do caso, mesmo que fosse somente para causar boa impressão. A comunicação social foi convocada para depois mais tarde informar os cidadãos. Aquela sessão desde o início foi um rebuliço, o que para quem está a trabalhar causa algum transtorno. Se calhar deveria ter sido eu a pedir desculpa aos excelentíssimos senhores por me sentir incomodada, se calhar sou eu que estou errada, porque se calhar já devia achar normal este tipo de situações. Tudo é normal...
Então é normal que um deputado que constantemente coloca a mesma questão ao governador, quando finalmente a sua pergunta está a ser respondida ele está sentado com um ouvido no burro e outro no cigano, que é como quem diz com um ouvido no discurso do responsável e outro a falar ao telemóvel? Haja paciência...

João Branco disse...

Margarida, eu prezo a tua postura e coragem neste relato. Espero que possa servir de exemplo, porque todos assistem, impávidos e serenos a muitas coisas do tipo, mas preferem manter-se, tranquilamente, no seu recanto, como se não fosse nada com eles, como se não houvesse o interesse, e o dever, de informar os cidadãos. Se não tiver interesse político, não interessa! Se não se coadunar com a «orientação» deste ou daquele jornal, não interessa! Enfim, é o que temos...

Teatrakacia disse...

Eu acho essa 'postura' uma vergonha! E é de condenar! Veementemente! Nem parece de gente considerada de 'chefes cá da zona', os mais altos representantes deste povo que, infelizmente, descamba 'ovelhamente' no mesmo sentido...
Mas também, por outro lado, não gostei dessa 'espécie de grupo maçon' a achar isso 'coisa de sub-desenvolvido'... quando eu também já vi, e todos sabemos, que acontece no Parlamento Português, por exemplo...
Perda de valores, desinteresse, mal-formação, falta de definições concretas em relação às modernices... enfim, coisas deste nosso Universo do século XXI! Globalização ou 'bestialização' em marcha reprodutiva.

João Branco disse...

Essa postura é terceiro-mundista em qualquer parte, seja aqui, no Biafra, Colômbia, Cazaquistão ou Portugal. Ainda estou de boca aberta...

Margarida Conde disse...

Não se trata de se ter passado em Portugal, Inglaterra, Cabo Verde, Urugai ou na cochinchina, mas sim de como na minha condição de jornalista ter considerado um total desrespeito perante o público que assistia àquela audiência. Através das minhas palavras quis dar conta da minha revolta. Alias não é essa a melhor arma dos jornalistas? É verdade
para alguns o silêncio é o melhor caminho. Pois, mas nunca foi o meu… Posso até comprar muitas guerras mas nunca deixarei de ser eu mesma. Obrigada João pelas tuas palavras…