Um novo bode expiatório II?

5 Comments


Recebi, a propósito do post «um novo bode expiatório», um comentário elucidativo, de uma cliente margosa que, pelo que se pode perceber, vive em Portugal e é tudo menos parva. Pareceu-me interessante partilhar isso num post renovado, porque isto dos blogues passa muito rápido, ainda mais com o ritmo que o Café Margoso parece querer impor a si mesmo. Além do mais é um texto com muitas perguntas. Como eu gosto.

Então é assim:

«Não pude deixar de comentar, pois a realidade de Portugal anda ao sabor das marés e dos ventos: calmos ou tempestuosos. Tanto são os “Brasileiros” como os “Pretos” ou “Africanos”, como os “Ciganos”, como o pessoal dos bairros mais problemáticos (dizem não sei bem quem), como por exemplo a Cova da Moura.

Sou Portuguesa, nascida e criada em Lisboa. No entanto minha Bisavó era Sevilhana e Cigana. Minha Mãe partiu de Lisboa aos 14 anos (sozinha) à procura de melhor vida em Angola e meu Pai viveu os 13 anos de guerra colonial.

Estão a imaginar minha vivência?

Minha Mãe chega cá com uma mentalidade distinta dos tugas pós 25 de Abril, meu pai continua militar e nos serviços ditos secretos militares (já posso finalmente falar disto). Minha Mãe ficou em estado de choque pela frieza com que foi recebida, pois ela era retornada e a minha casa nos primeiros anos era uma mistura de tugas com ambiente africano. Doeu e dói muito à minha mãe as diferenças de mentalidade… eu cresci e convivi com muita etnia e culturas.

No entanto a diferença de idades entre o meu irmão (ele é mais novo do que eu) fez com que ele criasse anticorpos e se afastasse dessa multicultura e eu … bem, eu me sinto um cidadão do mundo, cada vez mais colorblind. O que se passa em Portugal nada mais é o que outros países passam: choques culturais, de ideologias e de vivências.

Estamos aqui a falar dos Brasileiros… bem, e o que se passa em França? Com o pessoal de segunda e terceira linhangem? E não são só os filhos dos Portugueses… Estamos aqui a falar da Cova da Moura…? Eu frequento a Cova da Moura.

E antes de atirar a primeira pedra ao que for, olhemos bem para a nossa mistura, com quem vivemos, com quem trabalhamos e com quem relacionamos.

Os estrangeiros são precisos na Europa, e se eles não estão bem integrados devemos essa responsabilidade ao Governo e á Administração Pública, nomeadamente ao SEF. Temos graves problemas internos e os estrangeiros são o bode expiatório para que o Povo se revolte contra eles. Isso já aconteceu com os cabo-verdianos, com o pessoal do leste, com os ciganos.

Vamos é ter calma e ler entre linhas os jornais e a informação que nos querem passar. Vejo uma vez por semana o telejornal e é o suficiente: sempre mesma coisa. Ou então noticias deturpadas. O Povo necessita sim é de ter os olhos abertos e massa cinzenta crítica e construtiva.

Estamos como estamos e é porquê? Sabiam que por cá, os livros de história para os primeiros anos tem a revolução do 25 abril como algo que passou muito ao de leve? E as pessoas que morreram para ter a sua independência? Os que saíram de cá para procurar melhores condições (como minha mãe) e que regressaram e foram olhados de lado, e inseridos em guettos? E os militares? E as misturas que nasceram daí?

Acho que deveremos todos ter calma antes de dizer algo que vá magoar quem está ao nosso lado e acima de tudo, se sabemos mais, se estamos mais informados e conscientes da realidade do mundo onde estamos inseridos, devemos ajudar e não apontar dedo.

Outra coisa, além desta mistura todas no sangue e na cabeça, meu companheiro é cabo-verdiano. Já imaginaram um filho nosso?

Imagem: Cova da Moura, fotografia de Pedro Vilela




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5 comentários:

Anónimo disse...

Um pequeno comentário relativamente ao facto da cliente margosa abordar o facto de, em Portugal, os livros de história para os primeiros anos terem a revolução do 25 abril como algo que passou muito ao de leve. Convidava-a a apreciar os nossos manuais da 1ª a 6ª classe! Teria seguramente uma fonte inesgotável de motivos para "abrir os olhos" (de espanto!), criticar e construir...
Ana

João Branco disse...

Esperemos que com a mudança dos curriculos também os manuais possam mudar... Urgente!

gilia disse...

Olá Ana
Eu os conheço,por isso a minha critica. A nível de história muita coisa está fraca, noutras... até melhorou. Mas tudo è ciclico, agora a ignorancia... essa não é ciclica mas intemporal.
No meu tempo (e não foi assim á muito) eram melhores ( e estou a falar a nível de história).
Mas, como já disse mais que uma vez, a História como disciplina deveria ser obrigatória em Portugal até ao 12º. ano (como em muitos paises) ou ir mais longe, continuar na faculdade como optativa para que saibamos o que realmente se passou e entender as razões de muita politica, e muitos choques culturais existentes.
João, vamos ter Esperança.

João Branco disse...

Não conheces o teu passado, não podes entender o presente nem te preparar para o futuro. É um lugar comum, mas é verdade verdadinha.

gilia disse...

Olá novamente...
Não sei se acreditam em coincidências, mas vejam só a noticia de hoje no DN (http://dn.sapo.pt/2008/09/26/sociedade/acusacao_leonel_carvalho_potencia_at.html), em que o titulo é: Acusação de Leonel Carvalho "potencia atitudes xenófobas" -> Líder do Gabinete de Segurança associa abertura de fronteiras a onda de insegurança.
"Os estrangeiros têm uma grande responsabilidade no aumento da criminalidade violenta em Portugal". Foi com esta ideia que o secretário-geral do Gabinete Coordenador de Segurança, o General Leonel Carvalho, gerou ontem a controvérsia junto da associações de defesa dos imigrantes, que alertaram logo para o perigos de estas afirmações originarem atitudes de xenofobia.”

E isto é simplesmente o que? Ignorância? Controlo interno? Virar a mentalidade? Deturpar realidades?

"Os estrangeiros são cada vez mais responsáveis pelo aumento da criminalidade violenta em Portugal e é preciso ter consciência desta nova realidade e adaptar o sistema de controlo de fronteiras". -> E esta afirmação? Este senhor não sabe o que é o SEF certamente, ou então a Administração Pública no seu global, pois mesmo o cidadão nacional (português) tem grandes dificuldades por vezes em resolver situações que a Admin. Pública cria e não admite.

Vamos ver o impacto que isto vai ter… mas certamente uma é: “estes pretos, este pessoal do leste, esta escumalha dos brasileiros deveriam ser todos deportados”…

No entanto, e quem quiser ir à noticia, este senhor deveria ter falado do potencial cartão azul para os imigrantes, para facilitar a entrada na Europa, e não exclusivamente em Portugal, pois não somos o único pais que recebe estrangeiros.

E outra coisa, é sabermos que a Europa precisa de mão de obra, por isso recebemos estrangeiros que queiram ficar cá. Falando nos Brasileiros, existem freguesias que se não fossem ele, já estariam abandonadas, porque os portugueses que vivem lá saíram para as grandes cidades, deixando essas mesmas regiões abandonadas.

Outra curiosidade: finais de Julho de 2008 tinham saído de Portugal de vez 27.000 portugueses, e em Agosto morreram mais portugueses do que nasceram, deficit entre mortalidade e nascimento.

Infelizmente, sinto que cada vez mais o português está mais cinzento e triste.