Moeda Cafeana

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Cara: leio os dois números da revista «Ilhas», apresentada como «a revista de todos os cabo-verdianos» e tenho que dar razão a um comentário que li por aí que se resume bem nesta frase: «vocês da blogosfera andam numa de bota-abaixo, numa onda muito má, que só visto!». Porra! Anda tanta coisa boa acontecendo em Cabo Verde! Eu vi em Santiago, estradas novas, paisagens deslumbrantes, momentos em que o nosso pré-conceito do lugar nos põe a pensar se não estaremos antes na Dinamarca ou na Holanda. Vi gente simpática, bebendo cerveja tranquilamente no Plateau à 1 da manhã. Cruzei-me com tanto talento durante tão pouco tempo. E penso, por exemplo, no espectacular aeroporto da ilha da Boavista, na nova gare que vai ser inaugurada hoje mesmo em S. Vicente. No Hospital de Santiago, um mimo de obra. Na Universidade de Cabo Verde, que tem feito um trabalho tão extraordinário que poucos se lembram que não existia à cerca de dois anos. Na autêntica revolução agrícola, silenciosa e paciente, que está acontecendo no país, com sistemas novos de rega, com a bairragem de Santa Cruz, com a florestação de vastas áreas. Na construção de novos liceus, e no trabalho de formiga que está a ser feito pela classe docente para aplicação de um novo plano curricular, mais condizente com a realidade e a história de Cabo Verde. Com os campos de futebol relvados que andam a ser inaugurados, quando há bem pouco tempo se jogava no meio da terra e do pó. Com o fantástico progresso a nivel informático, não só de infra-estruturas, mas também pelo facto de hoje vivermos num país que permite ao cidadão ter uma certidão sem sair de casa, via Internet. Em Cabo Verde! Os múltiplos representantes internacionais que nas entrevistas sempre falam do país como um exemplo a seguir, com orgulho e confiança. Não podem andar todos a ser enganados ao mesmo tempo! Há mesmo coisas boas acontecendo no nosso país!

Coroa: um cronista da Praça, aqui mesmo, escreve de forma clara alguns dos motivos que podem explicar a criminalidade da nossa cidade capital e também tem toda a razão. Só não vê quem quer. Destacam-se os seguintes males: pessoas que vivem em condições inumanas; jovens que crescem e vivem em ambientes de violência latente, de violência real; alarmante desemprego jovem; baixo rendimento familiar aliado a um alto custo de vida na cidade da Praia e no país em geral; ostentação do Criolo; o homem não é o centro das políticas do Estado; partidarite aguda; classe média sem consciência social, arrogante e pretensiosa; cientistas sociais transformados em mercenários que falam e são convidados para programas de televisão sem conhecer a realidade no terreno; excesso de conferências, reciclagens, simpósios, acções de formações e carência de intervenções reais no terreno; a enorme quantidade de cabo-verdianos que se definem como artistas, intelectuais; o pouco hábito de leitura; défice de boa música nas rádios da praça. Etc e tal. Parece que Cabo Verde é também um país cheio de problemas por resolver!


Comentário cafeano: no meio disto tudo, relembro uma frase que escrevi a propósito de uma peça de teatro: no país do mar, parece que é proíbido pensar azul. Ou somos amarelos ou verdes. A realidade é rosa ou é negra. Somos todos potenciais bandidos e corruptos ou somos um exemplo para as outras nações africanas. Esquecemos tantas vezes, mesmo tendo várias no bolso, que uma moeda tem sempre duas faces.

Imagem: «temper.m'lagueta» de Kizó Oliveira




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8 comentários:

gilia disse...

Olá Joao
Gostaria de acrescentar somente uma coisinha no teu comentário: "Somos todos potenciais bandidos e corruptos ou somos um exemplo para as outras nações africanas" mas sim eu diria, "somos um exemplo para as outras nações africanas e não-africanas".
Olhando para a america latina, existem países mais corruptos que Cabo Verde. Somos tão pequenos mas tão importantes! Um crê bai...

João Branco disse...

Eu sei disso. Mas coloquei a frase «nações africanas» por é um dos argumentos mais utilizados. A comparação com outras nações africanas, nomeadamente na questão dos indices de desenvolvimento.

gilia disse...

Nesse contexto aplica-se mesmo "Nações Africanas", tal como cá na Europa... sabes cada vez tenho mais orgulho dos Países Africanos e seu erguer.
E Cabo Verde... é Exemplo pra muitos.
Bijim

João Branco disse...

Sem dúvida. Curiosamente, nesta moeda, a cara ficou maior do que a coroa... Chama-se a isto ser positivo?

gilia disse...

Claro que sim! sem dúvidas!
Agora temos de olhar para a "Coroa" e corrigir e melhorar os pontos que falaste.

Anónimo disse...

Passo a citar: A "Universidade de Cabo Verde, que tem feito um trabalho tão extraordinário que poucos se lembram que não existia à cerca de dois anos". Aproveitaria o comentário cafeano e diria que "uma moeda tem sempre duas faces"!
Ana

Anónimo disse...

É o que precisamos ser, positivos. A blogesfera está cheia de blogs, na minha opinião, muito pessimistas. Precisamos saber o meio termo, ter a consciência de que realmente existe uma cara e uma coroa.

João Branco disse...

Ana, com certeza! Aliás, em todos os pontos de cada face, há por sua vez mais faces. Tudo tem o seu custo. Nada nasce perfeito. Estou ciente & informado de alguns dos problemas inerentes à instalação e funcionamento da UCV. Mas pelo menos estamos a fazer, não é?