Declaração Cafeana

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Foi apresentado ontem em estreia absoluta, no âmbito do Festival Mindelact, uma versão - não definitiva - do filme / documentário Kontinuasom. Essa mesma versão poderá ser vista também na cidade da Praia no próximo dia 19 de Setembro.

Para quem está à espera de ver apenas «mais um» documentário sobre Cabo Verde, desengane-se. O filme, realizado pelo espanhol Óscar Martinez e que tem Beti Fernandes como protagonista é uma obra de arte primorosa a todos os níveis, mesmo sabendo que há ali questões importantes por resolver, como o final do filme, ainda em aberto. Mas a realização, a fotografia, o argumento e a interpretação de Beti - que faz o papel de si própria, é a todos os títulos notável.

Para que percebam um pouco mais, explico: Beti Fernandes é uma bailarina que está em dúvida, se vai para Lisboa e faz uma carreira profissional por lá, ou continua em Cabo Verde, desenvolvendo o seu trabalho como monitora, coreógrafa e bailarina no chão das ilhas, recebendo diariamente uma energia que - sabe ela e sabemos nós - não encontrará em mais lado nenhum. O que se ganha em partir e o que se conserva por ficar? É o dilema secular do crioulo, mas neste filme apresentado com uma poética - visual e dramatúrgica - absolutamente tocantes.

A personagem, nesta encruzilhada, encontra-se e aconselha-se com alguns dos maiores nomes da cultura de Cabo Verde que aceitaram, de forma aberta e decomplexada, entrar neste «faz-de-conta-quase-real». E há neste filme cenas antológicas. Daquelas que ficam gravadas para todo o sempre. Beti aconselhada por Nacia Gomi; Beti perdida no meio da apoteose do carnaval do Mindelo; a cena com Cesária Évora; lutando em Santa Luzia, onde vive a sua maior sublimação; parada nas montanhas de Santo Antão, onde Bento Oliveira diz «não quero mais sentir saudades»; o desfile vulcânico, frenético, desvairado na cidade da Praia, com bailarinos e muitos dos mais importantes nomes da história da música de Cabo Verde; a viagem para Lisboa e o encontro com Toni Tavares, Lura ou Celina Pereira; a coreografia com Beti e os Raiz di Polon no meio de um deserto de terra e água.

Tanto por dizer. Tanto por dizer!

Este filme tem tudo para ser um marco indelével na história cultural de Cabo Verde. Acreditem que não exagero. Pode - e deve - fazer carreira comercial, nas grandes salas da Europa. Mostra-nos que no mundo de hoje a poesia ainda conta. Já não é pouco.




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6 comentários:

neulopes disse...

E eu peerdi... enfim, por uma boa causa. Mas gostaria imenso de ver o filme. E tenho a certeza que deve ser muito interessante c'ver esta versão agora e depois a versão final. Será possível?

João Branco disse...

Só se fores até à cidade da Praia no próximo dia 19...

Anónimo disse...

algum dia chegara' a luanda?

João Branco disse...

Se tiver o circuito comercial que merece, chegará certamente a Luanda.

Sisi disse...

Esta tua descrição deixa qq um com água na boca para ver o filme.

Catarina disse...

O avião chegou às 20h30 do Maio!!!! Malditos TACV!