Provocação Margosa

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Uma Universidade para os «Pretos»?

Foi anunciado pelo ministro da educação do Brasil a criação, já para 2009, da Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab) que será instalada em Redenção, estado do Ceará, por ter sido a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão, no século XIX. Segundo o ministro Fernando Haddad, serão oferecidos cursos de saúde, física, biologia, tecnologia, engenharia, administração e agronomia, áreas de interesse dos países africanos. Mas lá também poderão estudar alunos de outras proveniências, inclusive do Brasil e de Portugal. Na verdade, além do Brasil, a Unilab conta criar pólos em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, S. Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Esta é a notícia, agora algumas perguntas em jeito de provocação:

1. Isto soa ou não soa a uma réplica da famosa Universidade Patrice Lumumba na antiga URSS? Como escreveu um leitor da Semana online «a mim cheira-me a coisa feita para os "coitadinhos" dos africanos.»

2. Com o processo da UniCV a andar de vento em popa, mesmo com todos os problemas que possam surgir num projecto desta complexidade, precisamos mesmo de mais uma Universidade privada no arquipélago?

3. Por muito bem intencionada que seja esta iniciativa, não se está a correr o risco de sair «pior a emenda que o soneto», ou seja, discriminar querendo «integrar»?

4. Porquê que se continuam a utilizar termos como «afro-descendentes» tendo em conta que, historica e antropologicamente, somos todos descendentes de africanos?

5. Porque é que no Brasil se continua a falar de «África» como se o continente fosse constituído por um só país, uma só cultural, uma só realidade?


Agora, não se esqueçam daquela frase que nos diz que «perguntar não ofende»!




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10 comentários:

Anónimo disse...

É isso mesmo: porquê continuar a falar de "Africa" como se o continente fosse constituido por um só país, uma só cultura,uma só realidade? Mas é só o Brasil? Tenho para mim que esse equivoco é generalizado...
Este tipo de iniciativas só visa discriminar, diferenciar e excluir, mais nada! Eu espero que CV tenha o juízo e o bom senso de não acolher nenhum pólo...
Ana

Kuskas disse...

AHAHAHAH oh João

Isso acontece porque a maioria dos Brasileiros, assim como os NorteAmericanos, nem sabe que a africa existe.

Uma vez fizeram uma pesquisa para saber se o Brasileiro sabia onde é que o Brasil se localiza no Mapa. A maioria apontou o Continente Africano.

A minha maior guerra com meus colegas de curso, quando estive lá a estudar, era corrigir-lhes sempre que diziam "do Cabo Verde"

João Branco disse...

Ana, no Brasil é generalizado. Aliás, talvez em todo o continente americano, EUA incluido. Mas em Portugal não tenho sentido isso, talvez pela aproximidade histórica e maior mutuo conhecimento. Cabo Verde é Cabo Verde, Angola é Angola, Guiné é Guiné e por ai fora.

Kuskas, mas sabes, até no meio académico brasileiro se continua a falar de «Africa» como se fosse uma só realidade. Isso é que me irrita um bocado!

Kuskas disse...

Se te irrita, imagina a mim.!!!!
Tive um professor do Zaire e ele farta-se de rir da "ignorancia" dos colegas dele e dos seus alunos.

Nunca cansava de explicar que Africa é o que, que em africa há pretos, brancos, há coisa boas e más, assim como havia e há no Brasil.

Anónimo disse...

João, permite-me discordar do teu comentário- os Portugueses na sua grande maioria só sabem distinguir o nome dos PALOP e não aquilo que lhe confere uma identidade.

Um abraço

Catarina Cardoso

João Branco disse...

Kuskas, as coisas que temos que explicar... E imagina como não se sentirão os marroquinos, argelinos ou egipcios, esses «árabes»,,hehe

Catarina, achas? Sinceramente, não tinha essa ideia. Bem, se o termo de comparação for o que se diz por outras paragens, continuo a achar que Portugal está mais esclarecido neste aspecto. Até porque muitos viveram aqui, participaram na guerra colonial, etc.

Dundu disse...

Penso que isso há um pouco em toda a parte. É claro que é mais gritante nos países continentais como os EUA e o Brasil. Desconfio (não conheço a realidade) que seja assim tb na Rússia e na China.
Nesses países uma grande parte da população desconhece o próprio país.


Em Portugal acho que seja menos por ser um país menor, por ter tido colónias em Africa e por, de alguma forma, se falar um pouco mais dos países africanos na comunicação social do que no Brasil, por exemplo.

João Branco disse...

Dundu, não estou falando do «povo», do pessoal com menos acesso a educação e informação. Mas de académicos! Aí, parece-me tudo bem mais grave...

Sisi disse...

1- concordo plenamente com o leitor da semana...foi apenas uma forma subtil de o dizerem.

2- Eu perguntaria de forma diferente: "será que CV tem "canela" para mais um projecto destes?"

3- Exactamente João, é o mesmo que aquelas cotas para negros que estabelecem nas universidades americanas. O intuito é ñ haver discrimição, mas ao mesmo tempo estão discriminando, quando impõem que a universidade tem de admitir x% de negros.

4-Mais uma vez são as subtilezas João. Racismo é crime, logo há que arranjar termos politicamente correcto para designar os negros. Não sei se já ouviram falar em racismo subtil, foi a nova forma que o racismo tomou depois de ser declarado crime e existe muito por aí.

5- Não quero generalizar, mas pelo menos do convívio que eu tive com alguns colegas brasileiros, isto é a mais pura verdade...são poucos deles que sabem sequer onde Africa fica geograficamente e desconhecem por completo que se trata de um continente com vários países e muito menos ainda que esses países são culturalmente diferentes.

João Branco disse...

Ora cá está: a sissi mostrou-me, e eu nem tinha reparado, que fiz cinco cafeanas de uma só vez! Bem que poderia dividir isto porque foi dose! Mas pronto, a noticia justificou por completo este «investimento» massivo em dúvidas existenciais.