Cafeína

2 Comments


«Cultura, traduzida em Arte, deve ser criação permanente, revolucionária, conquista do novo, nunca estratificação do conquistado. Pode-se transformar em Indústria, pode-se inserir na Economia, sim, mas desde que o criador seja o Artista, sempre o Artista, e não o produtor, que deve trabalhar com aquilo que foi criado, e não criar limites à criação. O artista cria o que não existia; o produtor, ao que existe, abre caminhos. Se o produtor serve ao Mercado, deve ter claro que Mercado quer a repetição estéril, do já feito e conhecido, sem sobressaltos; o Artista quer inovar. O Mercado, eclético, mercadeja arte e sabão em pó, porque ambos são necessários e vendáveis, mas não é justo confundir artista e saponáceo. É verdade que nós, artistas, queremos vender nossos discos, livros e quadros, queremos a casa cheia, mas não ao preço da renúncia daquilo que nos explica e justifica: a Arte, que será sempre revolucionária, ou nada será. Repito, sempre, que não temos nada contra o comércio, como tal. Admiro mesmo os comerciantes que fazem do seu comércio uma arte, mas tenho pena dos artistas que fazem, da sua Arte, um comércio

Augusto Boal, encenador brasileiro, fundador do Teatro do Oprimido

Ilustração de Klee




You may also like

2 comentários:

Teatrakacia disse...

Aí está uma luta que há-de ser constante! O Artista versus o produtor... muitas vezes dá 'faísca'! A verdade é que devem estar sintonizados, o segundo a trabalhar para criar as condições para que o Artista crie, mais e mais... e cada vez melhor(!) o que não é nada evidente.
Tchá

João Branco disse...

O problema é que para o produtor «cada vez melhor» é sinónimo de «cada vez mais rentável». Para mim é muito claro, o factor decisivo que equilibra estes dois campos tem que ser assumido pelo Estado. Condições para a criação. Que passam pela formação, pela existência de locais fisicamente apropriados para a criação, o apoio na divulgação, etc. etc.