Crónica Desaforada

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O Jazz crioulo de Hernani Almeida

1. O concerto do Hernani Almeida, para apresentação do seu album de estreia «Afronamim» foi um acontecimento enorme em todos os sentidos. Digo eu, que não sou crítico de música, mas que não posso ficar quieto nem conter as apreciações de momentos tão inolvidáveis, como aqueles que vivi na noite de Sábado passado. E passo a explicar porquê:

2. O público: o auditório da Academia Jotamont estava a rebentar pelas costuras. A plateia de 325 lugares estava completamente cheia e pelo menos mais umas 75 pessoas em pé, nos diversos corredores. Um público composto, maioritariamente, por amigos do Hernani e que, por o serem, também eram, maioritariamente, entendidos em música. Se o jovem músico ainda não sabia, ficou a saber nesta noite: Soncent é dôd na el. E mais uma vez ficou provado, se preciso fosse, que o público do Mindelo reconhece o talento lá onde ele existe. E que não aplaude a mediocridade. Antes pelo contrário.

3. A produção: ora cá está uma das razões porque a maioria dos concertos pagos, organizados em salas de espectáculo, não tem muita gente. Falta produção. A todos os níveis: promoção, design, som e luz a condizer. Este concerto teve tudo isso ao mais alto nível. A sala tem uma boa acústica - apenas perturbada por vezes com um ruidoso sistema de ar condicionado, melhorou com a enchente de pessoas, o som estava equilibrado e de excelente qualidade, a luz (do meu amigo César Fortes) valorizou, e de que forma, o aspecto visual do espectáculo. Enfim, apetecia dizer que estavamos a assistir a um show «de gent grande».

4. Os músicos: fenomenal, é o mínimo que se pode dizer em relação a este concerto. Os músicos que acompanharam Hernani, virtuoso e com uma identidade própria na guitarra, estiveram à altura da responsabilidade e do acontecimento. N'du (que já acompanhou Tcheka) esteve muito bem na percussão, Vando Pereira no baixo e Carlos Pereira, a grande surpresa, quanto mais não seja por ter apenas 15 anos, foi um teclista de uma qualidade técnica e um virtuosismo espantoso («um génio», segundo o próprio Hernani). Kisó Oliveira foi também convidado para tocar um tema, com o seu contrabaixo eléctrico visualmente imponente. Todos estiveram fantásticos. Não se encolheram na hora dos improvisos, souberam acompanhar com um rigor criativo os temas do Hernani que foram sendo tocados. Em suma, excelente quarteto, um quarteto de jazz, como há muito não se via nem ouvia em Cabo Verde.

5. Finalmente, o próprio Hernani Almeida. Pelo talento, pela humildade e pela postura ao longo do concerto. Sempre tímido (mas menos do que o habitual porque aqui «só estão pessoas que eu conheço»), foi apresentando as músicas com pequenas explicações, que reflectiam quase sempre a sua própria personalidade. Como a música em que ele confessa ter feito por tentar «imitar o Voginha» (presente, com Bau, na primeira fila do auditório) ou a história que relata a sua ida a um concerto de música sinfónica no Porto, onde lhe deu uma enorme vontade de estar ali no meio daqueles músicos, na orquestra, a tocar com a sua guitarra. «Como não pude, un fazê ess musikinha».

6. Uma noite memorável. Seria bom que aprendessemos, de uma vez por todas, que ouvir música ao vivo, pode ser feito não só em grandes palcos onde a grande maioria nem está ali para ouvir música, ou nos hoteis, bares e restaurantes, que não tem as condições próprias para quem quer, realmente, ouvir e apreciar alguns dos muitos talentos que temos neste abençoado país.

7. Uma palavra final, no que ao concerto diz respeito, para a Câmara Municipal de S. Vicente. Teimou que queria finalmente abrir a Academia Jotamont e abriu. Esta infra-estrutura, aos poucos, vai-se habituando à cidade e vice-versa. Já temos tido encontros, foruns, cerimónias, teatro e concertos de música. O concerto de Hernani Almeida provou que, com uma boa produção, temos aqui uma excelente alternativa para fazer no Mindelo um programa de concertos musicais de alto nivel, em todos os sentidos.

8. Relativamente ao disco «Afronamim», o mínimo que se pode dizer é que quem ouviu o concerto e ouvir o disco para casa, não se vai sentir defraudado. E neste momento, este é o maior elogio que se pode fazer a esta primeira experiência discográfica de Hernani Almeida, a face emergente do novo jazz crioulo. (Que bem que sabe dizer isto: o novo jazz crioulo!)


Mindelo, 21 de Julho de 2008

Fotografia de Spenk




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7 comentários:

Anónimo disse...

João,
Infelizmente não estive no lançamento do disco por motivos que me ultrapassavam completamente mas incentivei amigos a lá estarem, lá estiveram e de presente tive a minha casa inundada pelo lindo jazz criado por esse menino lindo e humilde. O CD é simplesmente uma delicia. Assim, de pouco ouvir, adorei o "dzem kma sim", mas ainda há muito por descobrir no Afronamim...
Abraços
Nude

Dundu disse...

Deixo aqui declarado o meu ciúme a todos vós que tiveram a oportunidade de ver a apresentação do Hernani.
Vejo que em Mindelo o espaço era pequeno para 325 (+ 75) pessoas. Quem dera tivesse sido apertado assim na Praia, talvez pudesse me disfarçar de convidado.
Cá na Praia o espectáculo foi organizado num espaço (no lounge do K) acolhedor mas minúsculo. A sessão era só para convidados e eu não possuía tais credenciais: nem cara, nem crachá.
Ora, por isso mesmo, tratei de comprar imediatamente o CD para compensar minha frustração. Agora também eu tenho Afronami.
Admiro muito este artista, pelo seu talento, postura e bom gosto.

Só me resta aguardar pelo show para o outro público. Até lá fico com minha aparelhagem.

João Branco disse...

Nude e Dundu, peço então humildemente perdão pela descrição do concerto... porque realmente foi qualquer coisa. Mas estou certo que haverá muitas outras ocasiões. O rapaz é novo e talento não lhe falta!

Teatrakacia disse...

O Hernany maravilhou a todos, concerteza! Sentiu-se isso, e comprovou-se isso mesmo, pelas palavras/comentários de gente extasiada/satisfeita, no final do espectáculo. O próprio guitarrista/autor/compositor/intérprete/director musical emocionou-se e di-lo na RCV, que ficou surpreso, não esperava tanto da reacção do público. E prometeu carreira à base disso mesmo: concertos sempre!
João, a sala tem um quê de nobre, boa acústica, cria o bom ambiente para a 'escuta' da música.
Viva a (Boa) Música!
Tchá

João Branco disse...

Sobre a sala, sem dúvida, Tchá! O espectáculo do Bernard Massuir no Mindelact já o havia comprovado. Pena não ser mais utilizada...

Sisi disse...

Pena que perdi um espectáculo deste nível. Do Hernani, não se podia esperar outra coisa, ele já vinha demonstrando, ao lado de outros músicos o quanto ele vale e só faltava esse voo a solo, que pelos vistos foi em grande e que continue sempre assim.

Aplausos!

João Branco disse...

Sisi, aplausos, muitos e bons, foi o que não faltou no Sábado passado. E bem merecidos...