Crónica Desaforada

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O Renascimento do Teatro Musical

1. Hoje, quando descia do Alto de S. Nicolau para o trabalho, um senhor chamou-me na rua para me dizer, mais ou menos, o seguinte: «fui ontem com a minha mulher ver a peça e fiquei muito contente. Adorei. Bela homenagem a Manuel d'Novas! Gostei principalmente de ver que tudo isto é também o resultado da vossa escola lá do Centro Cultural Português, que sempre nos vai oferecendo novos valores para o teatro das ilhas. Parabéns!».

2. Fiquei também eu satisfeito, embora o principal destinatário deste cumprimento não fosse eu, mas sim a Companhia Sarron.com que apresentou em reposição a peça «Biografia d'un Criôl», em duas sessões, ambas com um público que praticamente esgotou o auditório do Centro Cultural do Mindelo. Uma peça que, como sabemos, é acima de tudo um tributo não só à obra gigantesca desse mestre trovador que é Manuel d'Novas, mas também ao teatro musical que se fez no Mindelo durante décadas, desde os anos 30 com o Grupo Cénico dos Sokol's e, posteriormente, com os grupos teatrais ligados aos grémios desportivos, de onde se destacou o Grupo Cénico do Grémio Desportivo Amarante, que teve o seu apogeu na década de 50.

3. Ou seja, Neu Lopes e a sua equipa não se limitaram a construir um espectáculo de teatro corajoso, tecnicamente complexo e extremamente exigente. O que o Sarron tem feito de forma apaixonada, é resgatar uma tradição teatral que foi rainha durante muitos anos no panorama cénico mindelense. Mesmo que inspirado inicialmente na Revista à Portuguesa, este estilo de teatro musicado foi, à boa maneira mindelense, apropriada, assimilada e transformada em algo de novo na época, tendo não só a música e a coreografia, mas também o crioulo como instrumento fundamental, o que não deixou de ser notável naquela época.

4. Não sou crítico teatral, mas quando entro para uma sala de teatro carrego, como qualquer espectador, a minha vivência, as minhas referências, a minha experiência e conhecimento para dentro da plateia e é com tudo isso que faço os meus juízos de valor. Como qualquer espectador, repito. Isto quer dizer que não só todas as opiniões e as críticas são válidas mas que sobretudo são o espelho e carregam consigo um desenho da personalidade de quem as faz. No meu caso, por exemplo, que sou demasiado ansioso, sofro muito na plateia, porque entro com vontade de gostar, de dar uma boa resposta ao esforço que os elementos que estão em cima do palco fizeram para estar ali, porque sei bem o que custa, os sacrificios que se nos pede e exige a montagem de uma peça de teatro. Não há melhor tónico para mim do que sair satisfeito depois de ver uma boa peça de teatro.

5. Ainda há pouco tempo, e também a propósito desta temática, contava-me uma actriz amiga brasileira, que existe no Rio de Janeiro uma figura, quase iconográfica, no teatro carioca e brasileiro: uma senhora, já velhinha, que é o terror das companhias porque escreve para o jornal mais lido do Brasil a (sua) coluna de crítica teatral e ao que parece é absolutamente implacável, venenosa, contundente. Diz a lenda que ela começou o seu percurso no teatro como actriz e que um dia saiu uma crítica no jornal que arrasava a sua actuação numa determinada peça. Ao que parece a senhora não só nunca mais pisou um palco de novo, como passou para «o lado de lá», transformando-se na crítica mais feroz do meio teatral brasileiro... Vá-se lá saber porquê!

6. Fui ver o espectáculo duas vezes. O que sobrou de energia do elenco para superar graves problemas técnicos no primeiro dia, faltou um pouco no segundo, embora este tenha sido bastante melhor porque as deficiências de som foram praticamente resolvidas entre uma actuação e a outra. Não é, naturalmente, um espectáculo perfeito. Mas isso não existe. Em nenhum estilo, em nenhum país, em nenhuma circunstância. É, pelas razões acima apontadas, um desafio corajoso porque a maior parte dos actores que compõem o elenco era pouco experiente, no teatro, e mais ainda, na música, ou se quisermos, na interpretação musical.

7. Neu Lopes construiu toda uma dramaturgia a partir das letras das músicas de Manuel d'Novas e aqui reside o maior mérito desta obra: o seu conceito. Aquilo que alguns ignorantes podem considerar como «piada fácil só para fazer o público rir», são excertos de coladeiras do grande mestre, autênticas pinceladas sociais do meio urbano do Mindelo. O público não se ri porque a «piada é fácil», ri-se (e emociona-se) porque se identifica. Conhece aqueles expressões. Muitas delas em vias de extinção do nosso léxico crioulo. São tesouros patrimoniais que deviam ser mais estudados e preservados. O teatro aqui, também cumpre a sua função.

8. Assim, a dramaturgia está construída de uma forma inteligente. Claro, e isso é uma opinião minha, há ali cenas que não acrescentam muito ao fio condutor da história - quase toda ela feita a partir de uma das mais conhecidas e belas mornas de Manuel d'Novas - e não acrescentando nada, não precisavam de ali estar. Mas o teatro não é só racionalidade, é também emoção. Não é só cerebro, é também coração. E a peça era um tributo a um grande compositor, feito por um filho (biológico). Nada mais natural do que a vontade de colocar esta ou aquela cena, porque esta ou aquela música «merecem» estar no quadro musical do espectáculo. Penso que «Biografia d'um Criôl», com menos duas ou três cenas «paralelas» ficaria a ganhar em dinâmica, ritmo e qualidade

9. A encenação e a cenografia não tem segredos nem surpresas, mas não tinham que ter. O estilo não o pedia nem exigia. A dinãmica do teatro musical, seja aqui, na Revista à portuguesa, ou na Broadway americana, e até no cinema musical, vive de um esquema simples e linear: entra personagem, cena, música, sai personagem. Na cenografia, o mesmo: telões pintados, geralmente por grandes mestres, com motivos relacionados com o tema da peça. Pode-se sempre inovar, mas como já disse aqui, não há espectáculos perfeitos. Costumo dizer que a justeza de uma encenação pode ser medida pelo número de vezes que mudamos de posição na nossa cadeira, ou ligamos o telemóvel para consultar as horas, enquanto público. Dito de outra forma, se não damos pelo tempo a passar, é porque o espectáculo está com o ritmo certo, melhor, que espectáculo e público, respiram ao mesmo ritmo, o que é ainda mais belo e mostra bem o supremo prazer do fenómeno teatral. E na peça do Sarron o tempo corre ligeiro e vi poucas luzes de telemóveis a se acenderem. Só pode ser um bom sinal!

10. Num elenco com quase 20 pessoas tem que haver desiquilíbrios. Mais ainda num grupo que avança pela segunda vez nesta aventura de montar um musical (o primeiro foi «Un Vez Soncent era Sabe», em 2006). Houve alguns actores que me surpreenderam pela forma competente como construiram os seus personagens. Outros, que claramente se sentiam pouco à vontade não só com o resgisto musicado como - e talvez principalmente - com a dificuldade acrescida relacionada com questões técnicas de amplificação sonora, ficaram aquém do que o desafio exigia. Mas o que mais me chamou atenção foi a coragem de todos eles para cantarem, em palco, sem serem cantores. Cantarem enquanto actores. Cantarem interpretando, sem sair do personagem. E juntando falas naturais, com as músicas e destas passar para as falas naturais com uma desenvoltura que desculpa alguma ineficácia ou tremideira, perfeitamente natural, dadas as circunstâncias.

11. Parece que a ante-estreia não correu nada bem. Um pouco como o primeiro espectáculo que assisti, que foi um desastre a nível técnico. Mas com disse no inicio, quando entro numa sala de espectáculo, não entro apenas como mais um elemento do público, mas também como encenador que sou, como professor que fui, como amigo que serei. Para o bem e para o mal. E devo dizer que qualquer grupo tremeria - quem sabe mais ainda - se tivesse que se sujeitar aos problemas técnicos vividos no primeiro dia pelo Sarron. Sairiam de cena antes de terminar a música, poderiam até parar o espectáculo. Mas não. The show must go on!

12. Belo tributo ao mestre Manuel d'Novas. O importante, do meu ponto de vista, e senti isso quando fui cumprimentar os actores nos camarins, é que todos tenham consciência das suas próprias deficiências, do que correu bem e do que correu mal, e saber que no teatro a morte e a vida convivem irmamente, lado a lado. Uma peça de teatro nasce e morre todos os dias, a cada apresentação. E não há partos sem dôr. E não há morte sem angústia. Mas há também a celebração da vida e a memória do que foi feito. Não se pode ser feliz sem isso, celebração e evocação. Não se pode viver bem sem isso. E é isso que o teatro nos dá.

13. Finalmente uma nota final óbvia, tantas vezes esquecida: o teatro é uma arte plural que permite dezenas de caminhos diferentes, abordagens contraditórias, teorizações diversas (quase tudo já experimentado e teorizado, porque hoje já ninguém inventa nada!), e nem por isso deixa de ser teatro. Podemos não nos identificar tanto, e por isso gostar menos. Podemos avaliar da qualidade do trabalho e isso no teatro até que é simples, porque esta é uma arte transparente e sem truques na manga. Mas não devemos desdenhar, minimizar ou desprezar só porque não é o nosso caminho, a nossa abordagem ou a nossa teoria. Podemos afirmar, como criadores, que não é este o meu caminho. Mas isso é que é fantástico: apesar da mesma paixão, cada um seguir o seu caminho, desbravar o seu percurso e fazer as suas descobertas. E partilhá-las na única arena possivel: o espaço cénico.

Mindelo, 28 de Julho de 2008

Fotografia de João Barbosa




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7 comentários:

Miguel Barbosa disse...

Oi João.
A critica basieira a que referes chama-se Barbara Heliodora.
+ informações em http://www.barbaraheliodora.com/frames.htm

Aquele abraço

neulopes disse...

João, bela crítica. Concisa e verdadeira. Aceito as partes negativas porque é a partir daí que melhoramos e as partes positivas são nosso orgulho. É assim que devem ser as críticas. Verdadeiras, sentidas, e um espelho do que nos vem na alma. E assim vamos aprendendo sempre uns com os outros. Obrigado sempre pelo apoio. Obrigado também por me poupares de algo que na verdade estava a pensar fazer, embora com um pouco de enfado. Tua crítica serve perfeitamente como minha resposta ao artigo do Herlandson Duarte saído no "A Semana" de 19 de Julho. Realmente percebeste a intensão desse trabalho.
Aquele abraço

João Branco disse...

Bem, obrigado pela informação.

Neu, este texto seria sempre publicado, independentemente das asneiras que andam por aí a ser escritas - e publicadas. Não é nenhuma «resposta», porque em certas situações o melhor a fazer mesmo é sorrir (ou dar uma boa gargalhada) e seguir em frente. E mais uma vez, parabéns!

Paulino Dias disse...

JB,

Estava a espera deste post como agua no deserto. Li o artigo no A Semana, ainda nao pude ver a peca, infelizmente, e por isso estava aqui sentado a espera. Porque sei que viria - mesmo que independente do tal artigo - mas pela dimensao da obra que o Neu ousou colocar no palco. Por que sei que mais tranquila, mais justa, mais coerente, mais realista.

Isso reforca um pouco a minha (ousada) posicao sobre os "criticos de arte"...

Neu, estas de parabens por essa coragem. Forca ai, nos ca na Praia ficamos a espera.

Um abraco,
Paulino

João Branco disse...

Paulino, «aquilo» não era uma «critica». Era uma catarse de outras frustações. E como disse no meu comment anterior, iria escrever este texto de qualquer das formas. Porque o esforço do Neu merece. É o minimo.

Adriano Reis disse...

João não li o artigo, mais pelos os comentario já percebi que foi uma força para continuarmos a levantar o teatro caboverdeano,
Cabo verde deveria agradecer a dimensão dos cursos de teatro do centro cultural portugal que têm vindo a criar grandes artistas que têm vindo até dar carta fora do País, quando estive de férias em cabo verde fiquei emocionado da ousadia do Neu em trabalhar musicais. Sendo Caboverdeano Sinto-me previlegiado receber grandes elogios do nosso festival de teatro em cabo verde e não só. Uma das razões que somos tratados com muito respeito cá em Portugal.
Os meus parabéns pelo o artigo!

João Branco disse...

Obrigado pela força, e um abraço, Adriano!