«Para quem faz teatro, Setembro é sempre um mês de esperança, o mês feliz das marés vivas e das estreias.»

Jorge Silva Melo - encenador

Fotografia de Abraão Vicente




Achei este mail delicioso e não resisto em partilhar. Novos tempos, novas tácticas...

«Nada como a paciência e a psicologia para resolvermos problemas domésticos, não?
A maioria das pessoas considera hoje em dia que “pegar pesado” com as crianças seja inapropriado.

Eu tenho usado outros métodos para controlar meus filhos quando ocorre "um daqueles dias". E um método, especialmente, tem se mostrado muito eficiente: é simplesmente levar a criança para dar uma volta de carro.

Durante o tempo que dura a volta, não falamos... e deixo tempo para que ela reflicta sobre seu comportamento. Não sei se são as suaves vibrações do veículo que os relaxa, ou simplesmente o fato da criança ficar distante por um tempo das suas distracções habituais: TV, playstation, computador, etc. O que sei é que meus filhos, depois da volta de carro, ficam muitíssimo mais tranquilos.

Creio que o contacto visual que temos durante todo o tempo é o que realmente consegue estes resultados tão bons. Mando uma foto que tirei num desses passeios. Se quiser pode utilizar a técnica. Garanto que funciona. Este método é muito útil também com sobrinhos, primos e netos.

Veja um exemplo na foto abaixo!»











Até nas cidades grandes e caóticas, podemos voar. Basta querer...

Bom fim de semana





1%

Num banco de jardim da Praça Nova do Mindelo:

Ele: já mudei 99% do meu comportamento. Estou a esforçar-me. Tens que reconhecer isso!
Ela: qual história! E então esse 1% que falta, como é que fica?


Moral da história: as mulheres nunca se contentam com o que tem. Ah e a história é veridica.






«Os quatro homens que o regime do Presidente Obiang, no poder desde 1979, acusou de terem participado no ataque ao palácio presidencial, em fevereiro de 2009, foram executados no sábado, no próprio dia em que foram condenados à morte por um tribunal militar.»

Notícia, aqui


E agora? Continuamos a achar normal todas estas negociatas com um Estado assassino?A última que me lembro de ler, foi a notícia de que a Bolsa de Valores e NOSI «metem a sua lança» na Guiné-Equatorial. Será que é para medir quanto vale uma vida humana naquele pedaço de chão? Da CPLP, curiosamente presidida por Angola, o silêncio hipócrita do costume. Tá-se bem.






"Fragments" é uma nova obra com um conjunto de escritos de Marilyn Monroe até agora inéditos. Este livro mostra que havia, por trás do corpo com mais sex-appeal de todo o século XX, uma actriz apaixonada por Whitman, Joyce, Yeats e Beckett. Nele, a actriz revela a sua frustração por ver o seu lado intelectual ignorado, por se ver confundida com os seus papéis. «Ela também admirava Samuel Beckett desde que começou a frequenter o Actor's Studio. Mais surpreendente ainda, a sua fascinação pelo bardo Walt Whitman, fundador da poesia americana moderna».

Afinal, como se pode ler no blogue A Terceira Noite, «a menina Norma Jean não tinha apenas os diamantes como os seus melhores amigos. Gostava muito de ler e não correspondia bem ao protótipo da loura burra das piadas de subúrbio».

Reportagem completa aqui






Um leitor mais ou menos atento veio aqui questionar, com toda a legitimidade, diga-se de passagem, a aparente apatia actual e veraneante da blogosfera crioula, utilizando até um termo algo bombástico para caracterizar o actual estado dos blogues cabo-verdianos: não acham que a blogosfera está (ou anda) moribunda?, perguntou categórico o atento cliente cibernético, o que é a mesma coisa que dizer, como se pode comprovar pela leitura rápida de qualquer dicionário, em formato digital ou em papel, que  a blogosfera berdiana estará quase a morrer, com os pés para a cova, pronta para a extrema unção.

Achei exagerado, mas esta percepção tem uma razão de ser, aliás várias: em primeiro lugar, o sumiço de um escriba como Abraão Vicente do espaço virtual acaba com uma forte percentagem do teor mais ou menos terrorista que a blogosfera possa apresentar, e entenda-se aqui a palavra não no sentido literal, mas no metafórico, sendo claro que não é agora necessária a consulta de nenhum dicionário, nem virtual nem de papel., pois neste caso o termo terrorista significa algo como agitador, o que não tem língua travada, com opinião própria, sem medo de escrever, o que coloca os pontos nos ís, o que chama os bois pelos nomes ou, utilizando uma outra metáfora que aprecio particularmente, aquele que age como um elefante em loja de porcelanas (mesmo que mad in China).

Mas as pessoas tem que entender, por outro lado, que os que por aqui andam, e nem são tantos como isso, não tem a obrigação social e imperturbável de lançar o seu fel sobre tudo e todos só porque esse é que deve ser o estilo de um blogueiro, seja lá o que for que isso signifique. Até porque aqueles que são mais duros no seu espírito crítico facilmente são acusados de azedos ou mal-dispostos. Enfim, não se pode agradar a gregos e a troianos, esta é daquelas máximas que toda a gente conhece e sobre a qual ninguém  coloca uma réstia de dúvidas, mais a mais num país politicamente dividido a meio como este.

Toda esta conversa de encher chouriços (só aparentemente) para quê? Para dizer que esses, que alguns classificam de blogueiros, também gostam de música, de cinema, de livros, de poesia, de amar, de futebol, de mulheres (ou homens) e que não tem a obrigação de ser uma espécie de farol da sociedade civil que alumia duas vezes porque vai na frente nessa nobre tarefa de reivindicar direitos, chamar atenção para o que vai mal, desventrando as tripas dos políticos ou as entranhas dos negócios escuros. Até porque está um calor dos diabos, demasiado calor para se estar aqui a deitar mais achas para a fogueira e este mês de Agosto, minha gente, parece que nunca mais acaba!







Ibrahimovic sobre Guardiola: 
«Em seis meses falámos duas vezes»

Resposta de Guardiola: 
«Vou falar com Ibrahimovic uma terceira vez»


Moral da história: a falar é que a gente se entende













O teu cupido usa bom-senso, mau gosto, drogas (leves ou duras), desespero ou falta de vontade de procurar melhor?

À melhor resposta, ofereço um café






Falta pouco...








E se hoje, como quem não quer a coisa, em vez da falta de política cultural, do desânimo de ter estado na televisão pública a dizer as mesmas coisas que andamos aqui a repetir séculos há, eu resolvesse, apenas e só, falar de amor? Vocês levariam a mal?

Vocês levariam a mal se hoje, apenas por ser dia 24 de Agosto, um dia como qualquer outro bem entendido, em vez das eleições que aí vem, do preparo que temos que ter para todas as maledicências e má-língua que vamos ter que ouvir, das promessas que sabemos de antemão que não vão ser cumpridas, das propostas que nos batem à porta, desconfiadas, porque algumas delas deveriam já nos ter entrado pela casa adentro séculos há, eu resolvesse, apenas e só falar de amor? Vocês levariam a mal?

Vocês levariam a mal se este amargo do dia de hoje não seja para as ironias, os sarcasmos, as críticas mais ou menos veladas, sobre festivais, preguiças, festas, deixa-andar, cortes de electricidade e falta de água, bota baixismo, lixo e lama, neste país que tem verde no nome mas cujo mar se torna castanho em dias de tempestade, e fosse guardado, o amargo-doce, apenas guardado, apenas e só, para falar de amor? Vocês levariam a mal?

Como escreveu o grande Drumond "Que pode uma criatura senão, entre outras criaturas, amar?" Pois é, há dias assim, em que tudo à nossa volta é pura redundância, em que nos tornamos de certa forma egoístas, e só temos olhos para aqueles que nos aquecem (ou nos refrescam, conforme o caso) e dão um verdadeiro sentido à nossa vida vivida. Tudo o resto é paisagem. Vocês levariam a mal?


Fotografia de Gregory Colberg, claro, o magnífico captador das imagens do puro amor






«O Governo concedeu para esta segunda-feira, 23, tolerância de ponto na função pública na ilha de São Vicente. Sendo assim, os festeiros que passaram pela Baía das Gatas terão um dia para retemperar as energias e voltar com outro ânimo ao trabalho amanhã, terça-feira.» (fonte: aqui)



Soncent é sabe, é sabe pa cagá. Tolerância de ponto todo o santo dia!
(E eu que não sabia de nada...)






"Houve um dia em que adormeci na toalha. Acordei com a Raquel a afastar-se para ir tomar café numa das esplanadas da praia e fiquei a vê-la a desenhar na areia pegadas mudas. É estranho como a repentina ausência de quem gostamos nos acorda e a sua presença nos embala num sono leve. Sempre em silêncio."

Bagaço Amarelo (aqui)








Este é um relato que me chegou. Aconteceu há poucos dias. A globalização é só para alguns. Um grupo de teatro barrado ou como ainda há muito filho da puta nas fronteiras da Europa. Leiam e tirem as vossas ilações.


«Queridos amigos

Há aproximadamente 6 meses, a nossa Companhia – Teatro da Curva – recebeu um convite do Camden Fringe Festival , de Londres, para apresentar o espetáculo “Otimismo”, de Voltaire, adaptação de Ralph Maizza. Estreamos esse espetáculo em 2008 e ao longo de 2 anos fizemos 3 temporadas. Esse convite representou a expansão e coroação de um espetáculo realizado com poucos recursos, mas com muita dedicação, profissionalismo e amor. Durante esses 6 meses, trabalhamos continuamente e intensamente no levantamento de recursos afim de financiar a nossa viagem, visto que não haveria remuneração financeira, e sim apenas o intercâmbio cultural. Levantamos a verba necessária e adaptamos o nosso espetáculo para atender às necessidades do público inglês, de forma a proporcionar uma ampla compreensão do texto encenado, sem que o mesmo perdesse a sua essência.

Enfim, reunimos toda a documentação necessária de acordo com a legislação da imigração inglesa e seguindo orientação do Festival, que inclusive nos enviou uma carta convite, constando o nome de todos os envolvidos, para que a mesma fosse apresentada na imigração. Nos endividamos, recebemos o apoio de amigos, familiares e classe artística, e embarcamos rumo à concretização dos nossos sonhos e expectativas. Após uma longa viagem de 12 horas, chegamos cansados, porém muito empolgados e felizes, em solo inglês. Num primeiro momento, fomos recebidos cordialmente pelos agentes da imigração inglesa. Apresentamos todos os documentos necessários, demos as devidas explicações e fomos sinceros e claros quanto aos nossos objetivos em território inglês. Entregamos ao oficial nossos passaportes, a carta convite, as passagens de ida e de volta, o endereço no qual ficaríamos hospedados com carta de acomodação e informamos o quanto possuíamos em libras, quantia essa mais do que suficiente para bancar a nossa permanência em Londres durante os 10 dias de viagem.

Enquanto o oficial da imigração checava toda a documentação apresentada, fomos conduzidos a outra sala, onde nos revistaram e também as nossas bagagens, tudo de maneira cordial, porém, com algumas perguntas evasivas e atitudes invasivas (como, por exemplo, pedir para traduzir a carta de “boa viagem” da mãe de um dos atores, entre outras violações). Após 5 horas de espera, sendo ludibriados pelos oficiais da imigração, que nos diziam tudo aquilo se tratar de procedimento padrão para que pudéssemos entrar em território inglês, fomos comunicados da nossa inadmissão naquele país. A imigração alegou que não poderíamos entrar, pois não se tratava de um festival que possuía registro oficial e, portanto, o mesmo não tinha o direito de nos convidar. Sendo assim, necessitávamos de um visto de trabalho. No entanto, segundo cláusula do site de imigração londrina (no qual não consta a lista de registro dos Festivais Oficiais), é permitida a entrada no país de turistas e artistas para mostrarem o seu trabalho temporariamente, num período de 10 dias, não necessitando do visto de trabalho, já que não há remuneração. Mesmo sem o direito da palavra, dissemos isso ao oficial da imigração que, com muito cinismo e prepotência, nos replicou que poderíamos entrar como turistas, porém não naquele dia e, se quiséssemos, poderíamos voltar no dia seguinte. Ainda assim, manifestações, e pessoas do festival estavam no aeroporto tentando falar com a imigração para confirmar a veracidade das nossas informações, a falha de um documento complementar por parte do festival, bem como explicar que a nossa situação era completamente legal. A imigração, com seu radicalismo e xenofobia, não permitiu que essa comunicação fosse efetuada. A partir desse momento, a cordialidade dos oficiais ingleses transformou-se em uma hostilidade injusta e inadequada, já que estavam lidando com artistas (turistas) com documentação legal, que não haviam cometido nenhum delito. Digitais (mãos inteiras) e fotos foram tiradas de todos, e o direito de réplica nos foi negado de maneira estúpida e ameaçadora. Nos revistaram novamente, mas dessa vez de maneira agressiva. Nenhuma explicação. Agentes da segurança foram chamados para impedir qualquer manifestação da nossa parte, que apenas desejava conversar e entender o ocorrido. O pedido de tomar banho, trocar de roupas ou mesmo de fumar um cigarro foi negado rudemente, bem como a comunicação com a nossa produtora local. Os celulares foram apreendidos para que não tirássemos fotos. Em seguida, fomos escoltados por um grupo de seguranças até o momento de entrada no avião, cuidando para que não abríssemos as bagagens. Nos cercaram na zona de embarque na frente de todos os passageiros, até que os mesmos entrassem no avião. Nos sentimos envergonhados e acuados, e enquanto embarcávamos de volta, os seguranças ingleses nos davam um “tchauzinho” cínico e um sorriso sarcástico.

É importante registrar o quanto foi saudosa a recepção da tripulação da TAM, assim como a reação dos passageiros a nossa volta, bem como a calma e solidariedade da Policia Federal ao chegarmos no Brasil.

Com relação à falha da documentação complementar que não foi emitida pelo festival (registro), o grupo já está tomando as devidas providências. Vale ressaltar que tal falha do festival não tornava a nossa condição ilegal para que pudéssemos, de alguma forma, entrar em solo “shakespeareano”.

Escrevemos essa carta para o esclarecimento dos fatos, para que não haja dúvidas e tampouco distorções a respeito do ocorrido. Sobretudo, colocamos aqui que o objetivo não é o ressarcimento financeiro, e sim a expressão de nossa tristeza, indignação e sensação de impotência, visto que nos sentimos envergonhados sem termos feito nada de errado, bem como nos sentimos fracassados e humilhados sem termos falhado. Não é possível descrever o sentimento de rejeição e injustiça gratuita que experienciamos. No mais, acima de tudo, queremos fazer jus a nossa dignidade. Chegou a hora de lutarmos efetivamente contra a xenofobia, bem como reivindicar nossos direitos de cidadãos do mundo e artistas.

Abraço a todos,
Teatro da Curva»

Fonte: aqui







«A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também a amar os nossos inimigos provavelmente porque eles são, em geral, as mesmas pessoas.»

Mark Twain - Escritor

Fotografia de Pedro Soares (aqui)






Uma cidade sem os seus loucos é uma cidade sem alma. Hoje o Mindelo está estranho com os loucos todos fora de circulação. Bem, quase todos, porque isto dos loucos é como tudo na vida, uns vão outros vem. Nunca mais me esqueço de um espectáculo de rua que fizemos na Praça Nova do Mindelo, cada um interpretando estranhos personagens animalescos, que começou com 20 actores e terminou com 21, porque um dos loucos do lugar - que antes da actuação fazia discursos políticos furiosos a altos berros - sentiu naquelas duas dezenas de estranhos seres colegas à altura de competir com os seus devaneios mais estranhos e se juntou à festa teatral, não só dentro do espírito da coisa, como interpretando, ele próprio, um personagem que se enquadrava no que todos nós estávamos ali a fazer. Foi épico, digo-vos. E terapêutico para o louco, não tenho dúvidas.

Vem isto a propósito desta imagem que encontrei nas minhas andanças pela Internet, que trouxe de novo Kmê Deus, provavelmente o louco mais emblemático da cidade do século XX, que com as suas latas ao pescoço e o seu apurado sentido de humor, dava ao centro do Mindelo um ar de rebeldia anárquica que tão bem lhe vestia. Morreu faz tempo, e como gostaria de dizer que o seu espírito ainda ronda pelos becos e ruas da morada, mas infelizmente sou daqueles que está cada vez mais convencido que até o espírito de Kmê Deus os tempos modernos estão a conseguir varrer do nosso quotidiano. É pena.






Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas
O resto é a sombra
de árvores alheias

Fernando Pessoa






Já fui a tantos festivais da Baía das Gatas que estou naquela fase irritante em que tenho saudades do que já foi. Agora nem a lua cheia nos deixam ter. Pela primeira vez em muitos anos, que eu me lembre, o maior festival de música do país não vai ter a bela lua cheia a iluminar a piscina natural que é a delícia das milhares de pessoas que se deslocam para a baía nesse fim-de-semana. De resto, poucas novidades, que é como quem diz, o mesmo de sempre. O que não tem que ser necessariamente mau.

Sim, já sabemos. O que importa é o convívio, as barracas, os pinchos, as cervejas estupidamente geladas, o balanço foi positivo, vai certamente exceder as melhores expectativas, vamos parabenizar o comportamento da população, praticamente não há acidentes a registar, o civismo impera como sempre, fora uma ou outra rixa normal dado o consumo acima da média de bebidas espirituosas de grau e qualidade variáveis, média essa já de si bem superior ao desejável, lá teremos certamente a presidente da câmara rejuvenescida a dar o seu show habitual para um povo sempre em festa. Viva a liberdade.

No entanto, aqui como quem não quer a coisa, continuo a não entender certos critérios e escolhas, mas pronto, o mal é que se espera sempre mais e há gente que só sabe criticar e deitar abaixo o que os outros, com tanta e valente generosidade, demoram a construir. Mas tenho que confessar que depois do anúncio do célebre concerto de Norah Jones na cidade da Praia, que é excelente artista mas não tanto que possa estar a actuar em dois lugares ao mesmo tempo, como se veio a comprovar, depois desse episódio, dizia, ficou--me água na boca. 

Por exemplo: o facto de um dos cabeças de cartaz do festival da Baía das Gatas deste ano e representante brasileiro ser o grupo Calcinha Preta, sem desprimor para quem gosta deste género de música, não me parece ser do melhor que um país musical como aquele nos pode dar, mas pronto, o povo gosta e o povo é que sabe, não é? Eu só lamento que não se consiga trazer um de tantos e tantos nomes de músicos que este fascinante país não se cansa de brotar para o mundo de forma ininterrupta. Já imaginaram um Gilberto Gil, Djavan, Caetano, Ney Matogrosso, Beth Carvalho, Maria Bethânia, Maria Gadu, Ana Carolina, Seu Jorge ou, sonho dos sonhos, um Chico Buarque a cantar na Baía das Gatas? Eu iria lá, senhores, eu iria lá.






O poeta cabo-verdiano Zé Cunha escreveu a propósito da última cafeína aqui publicada algo que gostaria de partilhar. Escreve ele, com a sabedoria certeira que lhe é característica que, à Clarice Lispector, "é preciso lê-la, pelo gozo de ler, pelo prazer da boa literatura, pelo dever de a conhecer, ou então, nem que seja para combater este gosto da frase feita, e das citações, que acaba por ser, muitas vezes, a morte de alguns autores às mãos do seu próprio veneno, ou o alfinete com que prendemos certas obras como borboletas num mostruário."

Clarice Lispector é uma escritora única, misteriosa, densa, que faz como poucos a autópsia da vida e do ser humano. Mostra-nos os nossas próprios intestinos e os órgãos em sangue com o mesmo espírito implacável e inquietante com que nos revela os segredos do amor ou as vicissitudes da alma. As suas citações são conhecidas e andam de mão em mão, agora que vivemos a era dos 140 caracteres, mas não se deixem enganar. A arca do tesouro de onde sairam essas frases é quase infinita. Pode-se viver uma vida inteira e o mais provável é continuarmos a nos interrogar, emocionar e, sobretudo, a tentar entender Clarice Lispector.

Ou como escreveu outro enorme poeta, Drummond de Andrade sobre ela:


"Clarice, veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério. Ou o mistério não era essencial, era Clarice viajando nele. Era Clarice bulindo no fundo mais fundo, onde a palavra parece encontrar sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice viveu por nós em forma de história em forma de sonho de história em forma de sonho de sonho de história (no meio havia uma barataou um anjo?) não sabemos repetir nem inventar. São coisas, são jóias particulares de Clariceque usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum, carteira de identidade, retrato. De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice só se pode encontrá-lo atrás da nuvem que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos, tentativas de Clarice sair de Clarice para ser igual a nós todos em cortesia, cuidados, providências. Clarice não saiu, mesmo sorrindo. Dentro dela o que havia de salões, escadarias, tetos fosforescentes, longas estepes, zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas, formava um país, o país onde Clarice vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão salpicado de compromissos. Os papéis,os cumprimentos falavam em agora, edições, possíveis coquetéis à beira do abismo. Levitando acima do abismo Clarice riscavaum sulco rubro e cinza no ar e fascinava. Fascinava-nos, apenas. Deixamos para compreendê-la mais tarde.

Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice."

Para terminar: procurem saber mais. Leiam mais. E se a escolha recair em Clarice Lispector, se preparem. O impacto vai ser profundo.







«Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.»

Clarice Lispector in Um Sopro de Vida 





A todos os meus amigos digo o mesmo: ter um filho muda tudo. E não falo apenas da questão prática, das fraldas, do cheiro a cocó, dos choros, das cólicas, das depressões pós-parto, dos horários, dos jeetlags provocados pela nova realidade, das roupas cor-de-rosa, ou azul conforme o sexo, da escolha do nome, do registo, da tranquilidade do sono, da emoção do primeiro sorriso, do guarda-cabeça ao sétimo dia ou da reviravolta brutal que tudo isso provoca no nosso quotidiano.

Há uma visão, diria, mais metafísica ou filosófica que implica o nascimento de um primeiro filho. Quando naquela manhã do dia 17 de Agosto de 1997 vi aquele ser minúsculo pela primeira vez, recebi dentro de mim um choque tremendo, uma poderosa percepção do ciclo de vida, de um começo, um meio e um fim, mas sobretudo de algo que continua. Algo que vai continuar nela, na Laura, quando eu deixar de andar por cá. Um sinal inequívoco de que não somos eternos mas que somos continuados. Tudo isto, estou certo, é um acto de profundo amor.

Parabéns, filha.

 




O novo visual do Café Margoso ajusta-se 
ao espírito da coisa ou nem por isso?

À melhor resposta, ofereço um café (vá lá, ajudem-me nesta!









O Centro Cultural Português - IC / Pólo do Mindelo promove uma exposição de fotografias de António Cembrano, com abertura amanhã, dia 17 de Agosto, na brasseria do Pont'Água, pelas 18:30 horas. Já vi algumas destas imagens e valem bem uma visita.










Num corredor com várias portas ele sabia por qual delas queria entrar.

No exacto momento em que se preparava para entrar, aparece-lhe um amigo que o aconselha: «não vás por aí. É demasiado arriscado.» Pára. E pensa: «quem não arrisca, não petisca», e avança de novo.

Nesse preciso momento, aparece-lhe um segundo amigo que o avisa: «essa porta tem uma péssima energia. Não vás por aí. Tive um sonho, falei com um astrólogo, li as minhas cartas, fui a um curandeiro, consultei o Tarot e vejo nas tuas mãos: nada disto augura nada de bom. Não vás por aí.»

Ao ouvir isto resolveu fazer o que sempre havia feito: agradeceu aos amigos o cuidado, ouviu o seu coração e entrou pela porta escolhida inicialmente. Foi o mais feliz dos homens.







"De todas as taras sexuais não existe nenhuma 
mais estranha que a abstinência."

Millor Fernandes - jornalista e humorista








Pronto, o que nos vale são esses jornalistas especialistas em investigação para nos abrir os olhos. Afinal de contas, Cabo Verde acabou de ser definido nesta esplêndida frase que, quem sabe, poderia ser aproveitada para acompanhar o novo logo da marca do país: «Cabo Verde Sem Recursos Sem Problemas». Ou seja, tud kool, tud nice! 

Finalmente percebi porque é que Mindelo está sempre em festa.

Ler aqui, reportagem sobre o Cabo Verde real...





"Mal informados sobre a natureza profunda da morte, cujo outro nome é fatalidade, os jornais têm-se excedido em furiosos ataques contra ela, acusando-a de impiedosa, cruel, tirana, malvada, sanguinária, vampira, imperatriz do mal, drácula de saias, inimiga do género humano, desleal, assassina, traidora, serial killer outra vez, e houve até um semanário, dos humorísticos, que, espremendo o mais que pôde o espírito sarcástico dos seus criativos, conseguiu chamar-lhe filha-da-puta."

José Saramago - As Intermitências da Morte





15 de Agosto de 2009 - 15 de Agosto de 2010. Um ano sem Isabel. Sempre presente.







Tudo Bons Rapazes


1. Um amigo contou-me um episódio ocorrido no último fim-de-semana na pacata cidade do Mindelo: estava ele à porta de uma festa para se encontrar com um amigo, numa das zonas periféricas da cidade do Mindelo, quando um grupo de seis jovens menores rodeou um homem dos seus trinta anos e o espancaram com uma violência inusitada. Começou com uma garrafada na cabeça, sem qualquer aviso prévio, blocos de pedra e depois, de forma vil e cobarde, já com o homem no chão, pontapés na cabeça, nas costelas, enfim, coisa que a gente só vê nos filmes.

2. “Fiquei chocado”, confessou o relator, “porque o homem ficou com a cara feita em papa. E o pior é que ninguém faz queixa destes gangs, compostos por miúdos entre os 13 e os 16 anos, porque toda a gente tem medo deles. Só na zona tal e tal existe um gang com mais de duzentos membros. A cidade está em estado de sítio e ninguém faz nada para alterar esta situação. Reina o medo.” Isso mesmo, na pacata cidade do Mindelo, um homem, por razões que se desconhecem foi espancado quase até à morte na frente de inúmeras testemunhas, naquelas cenas que conhecíamos apenas de filmes como “Tudo Bons Rapazes”, de Scorsese.

3. Andei o dia seguinte pelos sítios noticiosos da Internet à procura de alguma notícia sobre o ocorrido mas não encontrei rigorosamente nada. Pensei cá com os meus botões que o homem tão barbaramente agredido talvez tivesse sobrevivido porque quando há morte as notícias correm sempre mais depressa. Espero que esteja bem, dentro do possível. Mas isso não faz com que este episódio seja menos assustador, antes pelo contrário. O silêncio que reina no Mindelo é ensurdecedor. Principalmente no meio da insuportável poluição sonora dos carros anunciando as imensas festas que se inventam sempre neste período de veraneio.

4. Já tinham sido aqui nestas conversas de café referenciados episódios mais ou menos análogos não menos assustadores, aqui classificados como sintomas de uma doença urbana grave, de vandalismos provocados por grupos de jovens contra viaturas e casas particulares. Pessoal que chega e manda blocos contra carros novos ou invade festas privadas impondo um clima de terror. No Verão, as coisas pioram, com o aumento da população, as visitas dos emigrantes e os turistas. E não é por ver de quando em quando dois policias militares a passear pelas principais artérias da cidade que vou ficar mais descansado.

5. Vão ver o ambiente da Lajinha neste Verão, dominado pelo medo dos assaltos. Todos os dias sou confrontado com algum conhecido ou amigo que foi assaltado recentemente. “O que tens aí, passa para cá”, assim é feita a abordagem, quase sempre por grupos compostos por mais de 3 ou 4 elementos. Se for um telemóvel, o cartão é retirado em frente do antigo proprietário com um sorriso cínico, para que não haja qualquer dúvida sobre quem manda onde e em quem. A cidade está doente, só não vê quem não quer.

6. A Lei que rege o consumo das bebidas alcoólicas, por exemplo, é uma farsa, porque basta ir a qualquer bar, discoteca, café ou algum outro estabelecimento nocturno para sermos confrontados com menores bêbados ou muito próximos de o estar. Essas mesmas bebidas são vendidas pelas rabidantes nas ruas do centro da cidade em frente dos poucos narizes policiais que por aquelas bandas aparecem. O medo do piquete já era. Passada a novidade, parece que as coisas pioraram. Um momento de distracção e estamos a ser assaltados. Sem dó nem piedade.

7. “O pessoal está a acumular rendimentos para o festival da Baía das Gatas”, diz-me algo confrontada, uma outra amiga mindelense com quem comentei o actual estado de coisas. E comentava, entre uma porção de razão e outra de ironia, que no maior festival de música de Cabo Verde não há muitos problemas porque a policia está lá em peso e porque os que poderiam estar a roubar ou perturbar estão lá também a divertir-se com os produtos dos serviços que foram garantindo nas semanas anteriores. Afinal de contas, até os bandidos tem direito à sua quota-parte de regabofe.

8. Além das bebidas alcoólicas, também outras drogas menos lícitas circulam de forma impune e quase descarada. Toda a gente sabe onde se vende, quem vende, como e onde se consome, o quê e em que circunstâncias. Desde a mais inofensiva erva, vulgo poof, aos mais pesados cocktails de heroína e, principalmente cocaína, passando ainda pelas pastilhas mágicas que dão um speed não só necessário como indispensável nesta época de festas intermináveis, tudo é vendido e consumido de forma quase relaxada. Mindelo transformada numa crioula Amesterdão, com a diferença de aqui ser tudo feito fora da alçada da lei.

9. Pois é, os políticos do poder pedem-nos para sermos optimistas e adoptarmos uma postura empreendedora e voltada para o futuro. Os da oposição, por outro lado, não nos dão qualquer garantia com um discurso de terra queimada, sem ideias, sem alternativa, sem qualquer criatividade. À ideia do paraíso na terra respondem-nos com um quanto pior, melhor. E nesta época de pré-campanha eleitoral já sabemos o que vai acontecer: tudo é publicidade e ficamos sem saber em quem e no que acreditar. Mas por outro lado, temos aí esta terrível realidade, que nos bate à porta todos os dias. Nem é preciso procurar os sarilhos. Hoje, são eles que nos encontram.

10. Outro caso sintomático: um velhote, num dos bairros mais tradicionais da cidade, foi espancado por um tipo, “um terrorista, acredita”, só porque o viu a bater numa criança e o chamou de forma até bastante educada. Levou o troco. As pessoas que assistiam à cena, ficaram caladas. O homem ficou 5 dias em coma. Sobreviveu. Mas o agressor continua aí, à solta, provavelmente à espera de mais uma oportunidade para vir a fazer mais uma demonstração do seu poder. “De catana na mão, se for preciso”, dizem-me. Não há problema, são tudo bons rapazes. Malta que apenas se quer divertir. Desde que ninguém se meta, tudo vai correr bem neste Verão. Ou talvez não.

11. Senhores do Ministério da Administração Interna, do Ministério da Defesa, das Policias, das Forças de Segurança, vejam o que se está a passar na minha cidade. Neste momento, estamos numa situação em que nenhuma das minhas duas filhas pode sair à rua sem que eu, como pai, não fique com o credo na boca. Seja de dia, seja de noite. Por essas e por outras é que sempre fui a favor de ver a tropa na rua. Melhor na rua do que nos quartéis, sem produzir para o bem do país a não ser esperar umas chuvas torrenciais que provoquem uma convocação de urgência dos serviços de protecção civil. Porque somos todos bons rapazes, mas há uns rapazes mais simpáticos e outros que por aí andam, sem rumo e sem direcção, à espera da primeira faísca para nos colocar uma bomba atómica nas mãos.

Mindelo, 12 de Agosto de 2010




Duas peças de teatro que não vou ver, mas que gostaria muito...


Fragmentos do Desejo - Companhia Dôs à Deux
Temporada no CCBB / Rio de Janeiro, até 24 de Outubro




A Casa de Bernarda Alba - Companhia Harém de Teatro
Temporada em Teresina, durante o mês de Agosto










A certeza de que nunca um administrador da Electra ficará mais 17 dias sem água da rede em sua casa é uma realidade matemática?

À melhor resposta, ofereço um café









«Proibir algo é despertar o desejo.»

Montaigne

Fotografia de Mary McCartney






Voltou à hora do almoço. Cruzou a porta da cozinha e foi direto ao fogão vasculhar as panelas.

Constatou desapontado que a comida estava fria. Pudera, já eram quase duas da tarde... Que esquentasse, então. Do armário apanhou o fósforo (como sempre escondido prudentemente atrás da lata de açúcar). “Isto na mão de criança é um perigo.”

A requentar o almoço, sentou-se na velha cadeira e, depois de acender um cigarro, pegou a garrafa térmica, com a qual encheu um copo de café.

Levou-o à boca. Nem bem sorveu, cuspiu o café frio.
– Quantas vezes falei pra fechar bem esta garrafa?!

Imóvel no limiar da cozinha, a esposa não sabia o que responder. Estava tão perplexa quanto o filho de doze anos que a agarrava pela cintura, olhando aquele homem com um misto de temor e curiosidade.

Natural, porém, que o garoto não se lembrasse do próprio pai. Afinal, não o viam há quase dez anos. Desde a manhã em que ele saiu por aquela mesma cozinha, com o pretexto de ir à padaria comprar um maço de cigarros.

Wilson Gorj (link)







«Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.»


Vinicius de Moraes







Há dias assim em que nem mesmo o horóscopo nos facilita as coisas. A vida também tem o seu lado de dentro, aquele mundo infinito em que somos ilha e abismo, em que procuramos milagres que justifiquem a nossa existência, aqueles momentos em que nos fragmentamos e, dito assim num lugar como este, dias em que ficamos mais pequenos, ridículos, quiçá humanos.

Hoje é o dia em que, ao que parece, a acreditar no que vem no Facebook, a Lua em Conjunção com Mercúrio traz tendência para a má disposição, o que pode vir a tornar confusos os meus pensamentos racionais e práticos que, pela natureza poética e inconformista, já de si tem pouco de racionais e práticos.

Os pensamentos levam-me para outros caminhos e aproveitando a folga do meio da semana, sem semanários a jorrar o seu veneno - verde ou amarelo, pouco importa - em doses cavalares, já que estamos a entrar na época alta de injúria e maledicência, só apetece ler Clarice que nasceu num navio no meio do mar e, ao que se sabe, escreveu muito mais sobre o dentro do que sobre o fora.

A minha ilha é a minha alma, o meu percurso a poesia que faço questão de visitar como quem toma o café da manhã. A solidão é mais assustadora quando em pleno calor de Verão só vemos gente à nossa volta. E estamos sós porque há dias assim, em que temos que olhar para dentro, nos rasgar um pouco, como um pedaço de espelho que brilha e se encontra connosco, lembrando o quanto pode ser bom atravessar milagres e tentar, ao menos isso, ser feliz. 

Se não entenderam nada, a culpa é do horóscopo do dia...








«O discurso legitimador comummente veiculado a propósito da representação social do cabo-verdiano redunda, quase invariavelmente, em devaneios narcisistas que prestam tributo à singularidade do “povo das ilhas”, à sua morabeza, à sua excepcionalidade na relação com o “outro” e a particularidades várias na “arte do bem receber”. Escusado será dizer que à esmagadora maioria das considerações que suportam tais conjecturas essencializantes, subjaz um substrato puramente retórico, panfletário e de auto-elogio umbiguista que fez escola, com relativo e atamancado êxito, em outras paragens.»

Suzano Costa - Politólogo


Nota: já agora, vale a pena ler o artigo completo, aqui.






«Sobre todos aqueles que ainda continuam tentando, Deus, derrama teu sol mais luminoso.»

Caio Fernando Abreu - escritor






Hernâni Almeida, compositor, instrumentista e director musical de múltiplos projectos da nova geração. Tem já um novo disco aí à venda e não se considera um homem do Jazz. Quanto ao resto, Hernâni  fala como toca: de forma directa e desconcertante.

Consideras que a tua música está dentro do que poderíamos chamar as fronteiras do Jazz - já de si muito largas - ou preferes não colocar qualquer etiqueta ao que fazes?

Hernâni Almeida: prefiro não colocar etiqueta, se bem que há na minha música o uso de improvisação e para isso é preciso ter o vocabulário jazzístico, para haver um discurso musical coerente.

Está bem, mas em que prateleira a gente poderia encontrar os teus discos numa Fnac, por exemplo?

Provavelmente encontrarão na secção do jazz, mas eu preferia que fosse em world music, é mais livre para mim. O jazz já pressupõe um pouco de swing, e eu detesto swing jazzístico no meu projecto, gosto nos outros, mas não enquadra no meu projecto.

Mas o que é isso, do swing jazzístico, explica melhor…

Tecnicamente falando, é o uso de colcheia pontuada com semicolcheia, uma frase rítmica que ao ser tocada, ainda por cima no contrabaixo ou na bateria, dá ao pessoal aquela vontade de estalar os dedos e seguir o ritmo!

Mas para quem não entende de música, como se pode definir essa sonoridade?

Não sei se explico bem, é complicado falar de música sem o demonstrar com o instrumento, é uma forma mais directa de tocar, as pessoas sentem logo.

Pois, mas é estranho, porque se há uma ideia que as pessoas tem do jazz é que faz muito uso de dissonantes e por vezes nem é muito fácil para o ouvido, nomeadamente no jazz contemporâneo. Não achas que a tua música se enquadra neste contexto sonoro?

Não, graças a deus que não. Pelo menos no meu próximo disco que já vai sair no mercado, fiz questão de não usar os acordes dissonantes, acho que estudei o jazz exactamente para evitar tocá-lo, não quero estar numa prateleira em que a maior parte das pessoas vão achar a minha música um tanto ou quanto chata de ouvir

O bom jazz nunca é chato...

Eu sei, mas a maior parte das pessoas não o sabem. Como te disse, não digo que não gosto, gosto muito de jazz. Tocado por outros, mas não por mim

Continuo completamente convencido que é o que mais fazes. Basta ouvir-te ou ver como tocas em palco. Se aquilo ali não é jazz tenho que ir rever todos os meus conceitos musicais...

Olha, às vezes estou em casa e dou por mim a tocar acordes dissonantes, mesmo fortes, mas passo por aí apenas como exercício. Quando volto para o meu projecto, prefiro resoluções mais naturais, pelo menos para já. Daqui a uns anos posso experimentar outras coisas. Seja como for, percebo perfeitamente o que dizes, e acredito que seja jazz se assim o consideras. Mas prefiro não pensar na minha música como jazz!

O que são resoluções naturais, falando de música?

Evitar acordes dissonantes que podem ferir a sensibilidade dos que não os conhecem! Se bem que há uma arte na composição que serve exactamente para pegar duma progressão harmónica forte e conseguir encontrar notas que ligam um acorde a outro para que possa soar natural…

Ok, vamos sair deste beco porque esta conversa está a ficar um pouco dissonante! Dizendo o que dizes sobre o jazz, achas que existe, hoje, um jazz cabo-verdiano?

Há uma banda de São Vicente que eu conheço e que fazem uma música que está mais dentro do jazz. A banda "OLINÔS", que tem como líder o saxofonista Swagato, e outros grandes músicos, como o Humberto Ramos. Eles sim, estão no jazz. De resto, penso que não!

Como definirias o trabalho do Princezito, por exemplo? Ou de um Vasco Martins no piano?

O Princesito, já o disse antes noutra entrevista, é um grande poeta, que usa a música como meio de transporte das suas belas palavras. Em relação ao Vasco, não acho que seja um jazzmen, sinto que é mais livre do que isso, até porque um músico da craveira dele dispensa completamente o tal swing de que falava à pouco, ele tem uma linguagem muito própria e muito poética. Eu vejo o jazz como um estado de espírito também, e penso que nem um nem outro evocam o espírito jazzístico.

Tu trabalhaste com muitos músicos da nova geração. Alguns inclusive tragicamente desaparecidos. Como vês a música que se produz actualmente em Cabo Verde?

Hum, por vezes acho que Cabo Verde está parado musicalmente, há muitos festivais, de jazz até, mas sinto que não se está a criar nada mas sim apenas a repetir o que já foi criado há anos na música, em termos melódicos ou de poesia! Os nossos artistas copiam os espectáculos dos outros, é muito difícil, por exemplo, vermos algo novo num espectáculo hoje em dia, estão todos tão concentrados em ser originais que não se dão conta que estão a ser iguais!

Qual é a tua opinião sobre o novo festival de jazz da Praia, por exemplo?

Penso que a ideia é excelente, já fazia falta algo assim no nosso país. É um festival diferente em comparação ao que se passa com os outros, dá-nos a oportunidade de ouvir um repertório diferente. Está ainda em crescimento, ainda não é um grande festival, mas está a crescer, estive lá a assistir em 2009, tive pena de não poder ver o último dia, mas fora um ou outro artista, achei engraçado!

Faltou lá o Hernâni Almeida, digo eu…

Não sei, às vezes dá-me a sensação de aquilo ser tipo uma feira em que os artistas vão se expor. Prefiro para já fazer os meus espectáculos, organizados pela minha equipa, pois assim tenho por certo que só vai lá estar a ouvir quem sabe o que vai ouvir. Participar nestes festivais também pode constituir um risco, o pessoal pode não estar à espera e ainda podem pensar "tirem lá este Hernâni do palco, queremos música como deve ser!”

O teu disco de estreia nasceu a partir de um investimento pessoal. Não tiveste produtora, pagaste tudo do teu bolso. Já dá lucro ou ainda estás a pagá-lo?

Já consegui pagar quase tudo, o disco está praticamente pago. Consegui vender em Cabo Verde mil discos em seis meses, agora tenho mais para vender mas não tem vendido muito, ainda estou à procura de uma forma de distribuição lá fora. Mas com esta crise mundial, as pessoas tem receio de investir em algo novo. Seja como for, continuo a procura até encontrar. Prefiro andar devagar, mas seguro e com os meus pés!

Continuas sem produtor próprio...

Já trabalho com Lutz Meyer Scheel que é o meu produtor executivo, mas falta ainda encontrar um tour manager e uma distribuição no exterior. Mas o Lutz é mais um amigo que um produtor.

Quantas horas praticas por dia?

Pratico sempre que estou acordado. Não apenas na guitarra, pratico mentalmente, ando na rua, por exemplo, a pensar "hum, se eu juntar este acorde com aquela melodia, vai soar assim, hum, muito bom, se eu fizer assim vai ficar assim, boa!", e vou ouvindo as ideias que me passam pela cabeça enquanto ando neste mundo. Por vezes, tenho uma ideia bonita, e para não me esquecer, corro para casa para toca-la na guitarra.

Qual foi o último disco que compraste?

“The sixteen men of tain" de Allan Holdsworth.





A vitória fica-vos tão bem...







Dentro de toda a trapalhada que envolve a avaliação da classe médica e a posterior anulação do concurso pelo Ministério da Saúde, exigida pelos próprios médicos desde 1995 para um progressão mais justa na carreira (o  concurso, bem entendido), a mais espantosa constatação é-nos dada pelo próprio titular da pasta que conclui, lá bem do alto da sua imensa sabedoria: «não tenho necessidade de avançar com os resultados do concurso se os beneficiários não ficaram satisfeitos», justificando desta forma directa e algo ortodoxa o facto de não ter homologado o que tanto tempo demorou a preparar.

É realmente um fantástico argumento e só tenho pena que não seja espalhado por todos os outros quadrantes da governação no sentido de que o Estado só passaria a aceitar concursos e exames às carreiras profissionais se e quando estes forem «satisfatórios» para quem está a ser avaliado! Assim, só a título de exemplo, não me parece justo, fazendo a respectiva analogia, que os estabelecimentos de ensino publiquem as classificações das diversas disciplinas se nelas constarem notas negativas. Quem é que vai ficar satisfeito com tal afronta? Mais vale passar todo o pessoal como quem não quer a coisa, como parece que se quer fazer agora por terras lusas. Festa por festa, vamos lá satisfazer a malta, que é o que faz falta em tempos de crise.

Bem que o senhor ministro avisou que a não homologação do concurso não implica a colocação em causa o trabalho do júri que o controlou e aprovou (muito menos uma desautorização!) e menos ainda um sinal de receio em relação aos médicos. É o que nos vale! Ter malta desta no Governo, cheia de coragem, com os ditos cujos no sítio, para aplicar as medidas que, efectivamente, interessam a todos. O maior problema deste imbróglio é que normalmente neste tipo de questões existem sempre gregos e troianos e como estamos cansados de saber, agradar a ambos é algo que nem um ministro bem intencionado como este será capaz de levar a bom porto. Haja saúde!








«Os partidos trancaram a sociedade num quarto escuro e obrigam-nos a conviver com os seus gritos.»

Abraão Vicente - artista plástico







Um orgasmo é um princípio do fim ou um fim de um princípio?

À melhor resposta, ofereço um café









Espero não ser mal interpretado, mas cá vai: ao que parece o meu nome consta mesmo no Boletim Oficial onde se referem as personalidades da área da cultura que foram condecoradas recentemente pela Presidência da República de Cabo Verde. No domínio das artes cénicas fui condecorado com a medalha de 1ª Classe da Ordem do Vulcão juntamente com o encenador Francisco Fragoso e Manú Preto, coreógrafo e director artístico do Raiz di Pólon.

Devo dizer, em primeiro lugar, que me sinto duplamente honrado: por se terem lembrado de mim como merecedor de tais honrarias, e pelos dois nomes referidos, em cuja companhia me sinto muito bem por serem ambas pessoas que conheço e que admiro.

Peço desculpa por não ter ido à cerimónia de entrega das condecorações que, pelos vistos, decorreu aqui na cidade do Mindelo na última segunda-feira, porque para falar a verdade ainda ninguém me informou oficiosa, formal ou sequer informalmente que havia sido condecorado com uma das mais altas distinções da Nação Cabo-verdiana. Portanto, oficiosa, formal e informalmente não posso dizer que tenha tomado conhecimento da honra que me coube em direito e muito menos faria sentido aparecer no Palácio do Povo na Rua de Lisboa sem ter sido convidado (ou convocado) nem que me fosse permitido levar os dois acompanhantes da praxe nestas ocasiões.

Isto tudo para vos dizer, mais do que para me por em bicos de pés, que agradeço e me sinto honrado e que a minha não comparência em tão solene acto se deveu, única e exclusivamente, ao facto de não ter sido convidado e/ou informado por ninguém da Presidência, apesar de me encontrar a poucos metros do local de onde decorreu a cerimónia. Para que não haja nenhuma pessoa mal informada, a começar pelo próprio Presidente da República, cujo punho assina o decreto que me concede tamanha distinção, a pensar que eu sou algum ingrato ou um grande mal educado. Porque isso é coisa que eu não sou.







«No meio da aflição subjectiva de sobreviver nesta cidade, neste país, neste planeta, neste tempo - ando também bastante sereno. Acho.»


Caio Fernando Abreu - escritor

Fotografia de Gregory Colbert







«Não há um Palácio para a Cultura, mas temos o actual museu do artesanato a cair aos pedaços, uma fantástica sala de cinema abandonada à sorte, dois ou três pequenos auditórios sem manutenção. Mas como somos ricos, aliás muito ricos, abandonamos tudo isso e fazemos um Palácio. É claro que quando este também já não servir por má gestão e falta de conservação, faremos outro ainda maior e mais caro, e depois outro e outro, até termos entre nós o Reino da Cultura, semeado de Palácios e Criadores.»

Paulo - comentário publicado no Café de Memória Futura






"Estamos a preparar o projecto para a construção de um grande palácio da cultura em S. Vicente, com auditórios e espaços para valorizar toda a dinâmica cultural da ilha."

José Maria Neves - entrevista ao A Nação de 29 de Julho de 2010



Nota Cafeana: em tempos de pré-campanha eleitoral, inauguramos esta nova secção do Café Margoso, porque certamente iremos ouvir muitas coisas em forma de promessa. Esta pareceu-me uma boa forma de começar...







A compra de um carro


Contribuinte - Gostava de comprar um carro.
Estado - Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte - Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa?
Estado - Sim. De acordo com o valor do carro (IVA).
Contribuinte - Ah. Só isso.
Estado – Sim. E mais o imposto automóvel (IA).
Contribuinte – Dois impostos sobre a mesma coisa?
Estado – Quer comprar um automóvel, não é? Então paga Imposto Automóvel. Qual é a dúvida?
Contribuinte – Ah!
Estado - E uma "coisinha" para o pôr a circular (selo).
Contribuinte - Ah!
Estado - E mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule (ISP).
Contribuinte - Mas sem gasolina eu não circulo.
Estado - Eu sei.
Contribuinte - Mas eu já pago para circular.
Estado - Claro.
Contribuinte - E vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado - Também. Mas isso é o IVA. O ISP é outra coisa diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Muito. O ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte - Porque existe?
Estado - Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.
Contribuinte - Só isso?
Estado - Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte - Então?
Estado - Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte - Para o estacionar?
Estado - Exacto.
Contribuinte - Portanto pago para andar e pago para estar parado?
Estado - Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte - Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.
Estado - Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte - Novo?
Estado - É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte - Pago para você ver se pode cobrar?
Estado - Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte - Mais uma coisinha?
Estado - Para circular em auto-estradas.
Contribuinte - Mas eu já pago imposto de circulação.
Estado - Mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte - Só mais isso?
Estado - Sim. Só mais isso. Paga 25 euros.
Contribuinte - E acabou?
Estado - Sim. Depois de pagar os 25 euros acabou.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros que custa pagar para ter uma coisa para andar nas auto-estradas.
Contribuinte - Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado - Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros é quanto custa essa coisa.
Contribuinte - Custa o quê?
Estado - Pagar.
Contribuinte - Custa pagar?
Estado - Sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte - Pagar custa 25 euros?
Estado - Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte - Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado – Isso é o que você pensa. Imagine que um dia quer... tem que pagar.
Contribuinte - Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado - Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte - E se eu não quiser?
Estado - Paga multa.


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