Um Café com Kmê Deus

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Uma cidade sem os seus loucos é uma cidade sem alma. Hoje o Mindelo está estranho com os loucos todos fora de circulação. Bem, quase todos, porque isto dos loucos é como tudo na vida, uns vão outros vem. Nunca mais me esqueço de um espectáculo de rua que fizemos na Praça Nova do Mindelo, cada um interpretando estranhos personagens animalescos, que começou com 20 actores e terminou com 21, porque um dos loucos do lugar - que antes da actuação fazia discursos políticos furiosos a altos berros - sentiu naquelas duas dezenas de estranhos seres colegas à altura de competir com os seus devaneios mais estranhos e se juntou à festa teatral, não só dentro do espírito da coisa, como interpretando, ele próprio, um personagem que se enquadrava no que todos nós estávamos ali a fazer. Foi épico, digo-vos. E terapêutico para o louco, não tenho dúvidas.

Vem isto a propósito desta imagem que encontrei nas minhas andanças pela Internet, que trouxe de novo Kmê Deus, provavelmente o louco mais emblemático da cidade do século XX, que com as suas latas ao pescoço e o seu apurado sentido de humor, dava ao centro do Mindelo um ar de rebeldia anárquica que tão bem lhe vestia. Morreu faz tempo, e como gostaria de dizer que o seu espírito ainda ronda pelos becos e ruas da morada, mas infelizmente sou daqueles que está cada vez mais convencido que até o espírito de Kmê Deus os tempos modernos estão a conseguir varrer do nosso quotidiano. É pena.




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5 comentários:

Anónimo disse...

Sinceramente continuo a preferir esses loucos, aos outros tipos de loucuras que assombram as ruas da nossa magnífica cidade....

Os loucos de Mindelo, aqueles tradicionais como o "Kme Deus", merecem de facto ser recordados, pois fazem parte de um imaginário colectivo, autênticos mitos urbanos de Soncent. Lembro-me de fantásticos episódios, nada violentos, realçe-se, de AIBU e do saudoso Sr. Djijeca; do Rób de Djula; do Tiaiss, enfim figuras que fazem parte das estórias de Mindelo. E claro, impagável, a capacidade dos mindelenses de arranjar nominhas para "baptizar " essas figuras incontornáveis. O mais hilariante que já ouvi dessas nominhas foi "Tchpá cadiód" ou "Telefone de moreia"! De facto, só gente de Soncent para ser tâo criativo a esse ponto.

Obrigada por me trazeres boas lembraças do nosso Soncent de outrora. Oh ke sodade na mund!

Pimintinha

Anónimo disse...

Quem fez a foto?

Pedre Comparaçom

JB disse...

Penso que é do fotógrafo mindelense Tchitch.

Olavo disse...

Sem dúvidas a imagem desse homem, o Kmê Deus, faz parte do primeiro plano da minha memória visual associada à cidade de Mindelo e, acredito que assim seja para muita gente. Para além da lembrança viva do homem guardo uma bela fotografia a preto e branco feito pelo Daniel Vitória. Aliás, quase todos os fotógrafos de Mindelo o captaram nas suas lentes...belíssima lembrança João Branco e belíssima imagem...o que Mindelo perdeu não foi a circulaçaõ dos loucos pelas suas ruas, subtração essa há décadas reivindicada por muitos, o que essa cidade perdeu foi a partilha da loucura, necessariamente humana e universal, foi a partilha desse espelho ambivalente que nos devolve a imagem de uma dimensão nossa que nos amedronta e que, por isso, imputamos no seu todo aos nossos embaixadores: os loucos!

Grace disse...

Agora deu-me uma enorme nostalgia...