Cafeína

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«Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto — e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue. Sou um escritor que tem medo da cilada das palavras: as palavras que digo escondem outras — quais? talvez as diga. Escrever é uma pedra lançada no poço fundo.»

Clarice Lispector in Um Sopro de Vida 



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3 comentários:

Salum H. disse...

É, só quem escreve sabe o perigo que é.

Anónimo disse...

Pois, é a mesma que disse
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

No livro "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" ela lembra-nos que "a condição não se cura mas o medo da condição é curável" (pag. 17).
Apesar de tudo "tudo o que existe existe com uma precisão absoluta".

Talvez a citação dela que mais gosto seja esta:
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."

É preciso lê-la, pelo gozo de ler, pelo prazer da boa literatura, pelo dever de a conhecer, ou então, nem que seja para combater este gosto da frase feita, e das citações, que acaba por ser, muitas vezes, a morte de alguns autores às mãos do seu próprio veneno, ou o alfinete com que prendemos certas obras como borboletas num mostruário.
Boas leituras.
Abç
ZCunha

Mirian disse...

Higginson escreveu sobre Emily Dickinson com uma eloquência formidável: "THE verses of Emily Dickinson belong emphatically to what Emerson long since called "the Poetry of the Portfolio,"--something produced absolutely without the thought of publication, and solely by way of expression of the writer's own mind. Such verse must inevitably forfeit whatever advantage lies in the discipline of public criticism and the enforced conformity to accepted ways. On the other hand, it may often gain something through the habit of freedom and the unconventional utterance of daring thoughts. In the case of the present author, there was absolutely no choice in the matter; she must write thus, or not at all". (perdoem a falta de tradução)
E me pergunto se ela nunca tivesse sido publicada e eu a jamais tivesse lido...sinto pena de mim mesma.
A obra de um grande poeta estará sempre condenado à partilha e às convencionais alfinetadas e exposições em mostruários feitas por pessoas como eu (confesso). Emprestamos voz aos nossos pequenos, e às vezes grandes, gritos diários destas citações que catamos com misto de alívio e inveja. Os poetas cumprem a função social de aliviar as tensões dos espíritos confinados, lamento. Mas, ainda que façamos uso desapiedado destas citações e as tornemos palavras lugares-comuns, como band-aids para a alma e a mente, por falta de capacidade ou, quem sabe, coragem de perder-nos nas epifanias poéticas, julgue-nos com ternura, pois "no peito dos desafinados também bate um coração".
Pr'a falar a verdade, gostei muito do que escreveu sobre a Clarice. Acautele-se, que eu já guardei um alfinete para si, Zé Cunha ;-).
Abs.