Crónica Desaforada

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Tudo Bons Rapazes


1. Um amigo contou-me um episódio ocorrido no último fim-de-semana na pacata cidade do Mindelo: estava ele à porta de uma festa para se encontrar com um amigo, numa das zonas periféricas da cidade do Mindelo, quando um grupo de seis jovens menores rodeou um homem dos seus trinta anos e o espancaram com uma violência inusitada. Começou com uma garrafada na cabeça, sem qualquer aviso prévio, blocos de pedra e depois, de forma vil e cobarde, já com o homem no chão, pontapés na cabeça, nas costelas, enfim, coisa que a gente só vê nos filmes.

2. “Fiquei chocado”, confessou o relator, “porque o homem ficou com a cara feita em papa. E o pior é que ninguém faz queixa destes gangs, compostos por miúdos entre os 13 e os 16 anos, porque toda a gente tem medo deles. Só na zona tal e tal existe um gang com mais de duzentos membros. A cidade está em estado de sítio e ninguém faz nada para alterar esta situação. Reina o medo.” Isso mesmo, na pacata cidade do Mindelo, um homem, por razões que se desconhecem foi espancado quase até à morte na frente de inúmeras testemunhas, naquelas cenas que conhecíamos apenas de filmes como “Tudo Bons Rapazes”, de Scorsese.

3. Andei o dia seguinte pelos sítios noticiosos da Internet à procura de alguma notícia sobre o ocorrido mas não encontrei rigorosamente nada. Pensei cá com os meus botões que o homem tão barbaramente agredido talvez tivesse sobrevivido porque quando há morte as notícias correm sempre mais depressa. Espero que esteja bem, dentro do possível. Mas isso não faz com que este episódio seja menos assustador, antes pelo contrário. O silêncio que reina no Mindelo é ensurdecedor. Principalmente no meio da insuportável poluição sonora dos carros anunciando as imensas festas que se inventam sempre neste período de veraneio.

4. Já tinham sido aqui nestas conversas de café referenciados episódios mais ou menos análogos não menos assustadores, aqui classificados como sintomas de uma doença urbana grave, de vandalismos provocados por grupos de jovens contra viaturas e casas particulares. Pessoal que chega e manda blocos contra carros novos ou invade festas privadas impondo um clima de terror. No Verão, as coisas pioram, com o aumento da população, as visitas dos emigrantes e os turistas. E não é por ver de quando em quando dois policias militares a passear pelas principais artérias da cidade que vou ficar mais descansado.

5. Vão ver o ambiente da Lajinha neste Verão, dominado pelo medo dos assaltos. Todos os dias sou confrontado com algum conhecido ou amigo que foi assaltado recentemente. “O que tens aí, passa para cá”, assim é feita a abordagem, quase sempre por grupos compostos por mais de 3 ou 4 elementos. Se for um telemóvel, o cartão é retirado em frente do antigo proprietário com um sorriso cínico, para que não haja qualquer dúvida sobre quem manda onde e em quem. A cidade está doente, só não vê quem não quer.

6. A Lei que rege o consumo das bebidas alcoólicas, por exemplo, é uma farsa, porque basta ir a qualquer bar, discoteca, café ou algum outro estabelecimento nocturno para sermos confrontados com menores bêbados ou muito próximos de o estar. Essas mesmas bebidas são vendidas pelas rabidantes nas ruas do centro da cidade em frente dos poucos narizes policiais que por aquelas bandas aparecem. O medo do piquete já era. Passada a novidade, parece que as coisas pioraram. Um momento de distracção e estamos a ser assaltados. Sem dó nem piedade.

7. “O pessoal está a acumular rendimentos para o festival da Baía das Gatas”, diz-me algo confrontada, uma outra amiga mindelense com quem comentei o actual estado de coisas. E comentava, entre uma porção de razão e outra de ironia, que no maior festival de música de Cabo Verde não há muitos problemas porque a policia está lá em peso e porque os que poderiam estar a roubar ou perturbar estão lá também a divertir-se com os produtos dos serviços que foram garantindo nas semanas anteriores. Afinal de contas, até os bandidos tem direito à sua quota-parte de regabofe.

8. Além das bebidas alcoólicas, também outras drogas menos lícitas circulam de forma impune e quase descarada. Toda a gente sabe onde se vende, quem vende, como e onde se consome, o quê e em que circunstâncias. Desde a mais inofensiva erva, vulgo poof, aos mais pesados cocktails de heroína e, principalmente cocaína, passando ainda pelas pastilhas mágicas que dão um speed não só necessário como indispensável nesta época de festas intermináveis, tudo é vendido e consumido de forma quase relaxada. Mindelo transformada numa crioula Amesterdão, com a diferença de aqui ser tudo feito fora da alçada da lei.

9. Pois é, os políticos do poder pedem-nos para sermos optimistas e adoptarmos uma postura empreendedora e voltada para o futuro. Os da oposição, por outro lado, não nos dão qualquer garantia com um discurso de terra queimada, sem ideias, sem alternativa, sem qualquer criatividade. À ideia do paraíso na terra respondem-nos com um quanto pior, melhor. E nesta época de pré-campanha eleitoral já sabemos o que vai acontecer: tudo é publicidade e ficamos sem saber em quem e no que acreditar. Mas por outro lado, temos aí esta terrível realidade, que nos bate à porta todos os dias. Nem é preciso procurar os sarilhos. Hoje, são eles que nos encontram.

10. Outro caso sintomático: um velhote, num dos bairros mais tradicionais da cidade, foi espancado por um tipo, “um terrorista, acredita”, só porque o viu a bater numa criança e o chamou de forma até bastante educada. Levou o troco. As pessoas que assistiam à cena, ficaram caladas. O homem ficou 5 dias em coma. Sobreviveu. Mas o agressor continua aí, à solta, provavelmente à espera de mais uma oportunidade para vir a fazer mais uma demonstração do seu poder. “De catana na mão, se for preciso”, dizem-me. Não há problema, são tudo bons rapazes. Malta que apenas se quer divertir. Desde que ninguém se meta, tudo vai correr bem neste Verão. Ou talvez não.

11. Senhores do Ministério da Administração Interna, do Ministério da Defesa, das Policias, das Forças de Segurança, vejam o que se está a passar na minha cidade. Neste momento, estamos numa situação em que nenhuma das minhas duas filhas pode sair à rua sem que eu, como pai, não fique com o credo na boca. Seja de dia, seja de noite. Por essas e por outras é que sempre fui a favor de ver a tropa na rua. Melhor na rua do que nos quartéis, sem produzir para o bem do país a não ser esperar umas chuvas torrenciais que provoquem uma convocação de urgência dos serviços de protecção civil. Porque somos todos bons rapazes, mas há uns rapazes mais simpáticos e outros que por aí andam, sem rumo e sem direcção, à espera da primeira faísca para nos colocar uma bomba atómica nas mãos.

Mindelo, 12 de Agosto de 2010




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4 comentários:

zito azevedo disse...

Esses "gangs" de bons rapazes podem provocar disturbios de rara violencia e as autoridades "fogem" deles a sete pés pois, não tendo já nada a perder, essa rapaziada constitui-se em oposição que, no seu terreno, jámais se deixará subjugar...É um mal social antes de mais (desemprego,fuga à escola, stc.) e um caso de segurança, depois...Chegados ao extremo, dificilmente se encontrará uma solução fora de um quadro de violencia e repressão...Esse é o filme a que se assiste em todas as latitudes do planeta!

Anónimo disse...

Dois comentários:

1) Os roubos de telemóvel poderiam ter sido erradicados há muito. Muitos episódios indesejáveis podiam ter sido evitados. A solução é simples:

a) Pegar no telemóvel;
b) Premir as teclas *#06#
c) Anotar, num lugar seguro, o número (código de identificação) que aparece no ecrã do telemóvel;
d) Em caso de roubo, dirigir-se à sua operadora móvel (CVMóvel ou T+) e informar que o seu telemóvel foi roubado, entregando o seu código de identificação.

A sua operadora utilizará esse código para bloquear permanentemente esse telemóvel na sua rede, pelo que ninguém mais poderá usá-lo (não tenho a certeza se o telemóvel é também bloqueado nas redes das outras operadoras, mas pode-se sempre perguntar e, caso não, pedir às outras operadoras para fazerem o mesmo).

Se toda a gente fizesse isso, ninguém perderia o seu tempo a roubar telemóveis pois seria inútil (não percebo porque é que as operadoras não informam os seus clientes sobre isso - quem sabe, talvez, queiram vender mais telemóveis).

2) Já fui a favor da tropa na rua, até chegar à conclusão que a emenda pode sair pior de que o soneto. Pois, hoje a tropa pode estar a dar combate àqueles que consideramos "thugs", mas ninguém garante que amanhã não sejamos nós próprios os rotulados de "delinquentes".

O poder de definir quem são (ou não) os "marginais" é uma faca de dois gumes.

Além disso, a presença da tropa só servirá para abafar e esconder os sintomas e nunca para curar a doença... 1

Arsénio disse...

Meu caro João,
já virou moda desviar a atenção dos actos de bandidagem nesse país. Quando se fala nisso, lá vem os discursos das autoridades falando da família, dos valores, do desemprego, blá, blá. E se esqueçe que a bandidagem continua e nada se faz.
Não sei como fica um polícia, que leva preso o mesmo gajo quase que diariamente e toda a vez é solto a mando dos tribunais porque a nossa lei assim o exige.
Mas que raio de direitos humanos, mas que raio de Constituição?
E ainda gabamos que temos leis modernas, leis do 1º mundo. Mas que 1º mundo? As nossas leis deveriam ser feitas com base na nossa realidade e não porque é do 1º mundo.

Anónimo disse...

Gospoke depos de un stadia de kuaze 5 smana na Son Sente ta trabaia pa Adeco nun kolaborasaun N mergulhá na tude fralda dakel ilha ke oia-me nasse y observonde de perte nos madrugada y note skura de mizeria de Porte Grande N Skreve es letra ke tita ben ser brevemente gravode en forma de un koladera. Ja-m tinha fazide un primera kritika nakel koladera "Son Sente de Agora" lansode ten poke tenpe pa Jacqueline Fortes ma nes prosima letra N insisti ma mi mesme txi mas profunde na materia> ka e publisidade ma sin un priokupasaun. Nha manera de pasa mensaje y de manifesta nha deskontentamente.

Unton oli ja un streia des letra. muzika ta sigi daki uns mes.


Kasibodi

Kasibodi ka e kulpóde
Se nos e refen de un sistema krôke
De poka vizaun de alguns infame
Ta durmi ptinzin
Ke mon kôtxe pa smóla

Armon repiu ja da-m
Mede ja tranka-m na kanela
Kurasaun ta-m brutxide na stóme
Nha bloke pedra mitide na bolse

Tonte PM ta patrulhá
Tonte stória run kes tita kontá
Tonte fetxadura ke no ten konprá
Katxôrre desmarrode na tude kintal

Ken ke tita ben sokorre-n
Se ka ten traboi pa un bife de kanéka
Bazófia de investimente stranjer
E so palpite y kubisa de luvas

Es terra ta sima un fita
Rializador e un kotxatxa
Un filme sen fin ma xei de fama
Sen bo tmá fe bo e figurante

Afinal ken ki e kasibodi
Ken ki e bandide des telenovela
Se-l e gravatiode de gabinete
O un kuitóde pai de fidje de mizéria

GuyRamos
11-06-2010