Declaração Cafeana

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Um leitor mais ou menos atento veio aqui questionar, com toda a legitimidade, diga-se de passagem, a aparente apatia actual e veraneante da blogosfera crioula, utilizando até um termo algo bombástico para caracterizar o actual estado dos blogues cabo-verdianos: não acham que a blogosfera está (ou anda) moribunda?, perguntou categórico o atento cliente cibernético, o que é a mesma coisa que dizer, como se pode comprovar pela leitura rápida de qualquer dicionário, em formato digital ou em papel, que  a blogosfera berdiana estará quase a morrer, com os pés para a cova, pronta para a extrema unção.

Achei exagerado, mas esta percepção tem uma razão de ser, aliás várias: em primeiro lugar, o sumiço de um escriba como Abraão Vicente do espaço virtual acaba com uma forte percentagem do teor mais ou menos terrorista que a blogosfera possa apresentar, e entenda-se aqui a palavra não no sentido literal, mas no metafórico, sendo claro que não é agora necessária a consulta de nenhum dicionário, nem virtual nem de papel., pois neste caso o termo terrorista significa algo como agitador, o que não tem língua travada, com opinião própria, sem medo de escrever, o que coloca os pontos nos ís, o que chama os bois pelos nomes ou, utilizando uma outra metáfora que aprecio particularmente, aquele que age como um elefante em loja de porcelanas (mesmo que mad in China).

Mas as pessoas tem que entender, por outro lado, que os que por aqui andam, e nem são tantos como isso, não tem a obrigação social e imperturbável de lançar o seu fel sobre tudo e todos só porque esse é que deve ser o estilo de um blogueiro, seja lá o que for que isso signifique. Até porque aqueles que são mais duros no seu espírito crítico facilmente são acusados de azedos ou mal-dispostos. Enfim, não se pode agradar a gregos e a troianos, esta é daquelas máximas que toda a gente conhece e sobre a qual ninguém  coloca uma réstia de dúvidas, mais a mais num país politicamente dividido a meio como este.

Toda esta conversa de encher chouriços (só aparentemente) para quê? Para dizer que esses, que alguns classificam de blogueiros, também gostam de música, de cinema, de livros, de poesia, de amar, de futebol, de mulheres (ou homens) e que não tem a obrigação de ser uma espécie de farol da sociedade civil que alumia duas vezes porque vai na frente nessa nobre tarefa de reivindicar direitos, chamar atenção para o que vai mal, desventrando as tripas dos políticos ou as entranhas dos negócios escuros. Até porque está um calor dos diabos, demasiado calor para se estar aqui a deitar mais achas para a fogueira e este mês de Agosto, minha gente, parece que nunca mais acaba!





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5 comentários:

Arsénio disse...

Oh João, devo dizer que gostei desse texto. As vezes é preciso um relax...

Infelizmente nós os cabo-verdianos achamos que os outros é devem dizer que as coisas vão mal, que são os outros que devem comprar uma briga, que os outros é que devem ...
E ficamos a esquina a ver o que acontece. Se pegar fogo, eu não estou nem aí, porque não fui eu, mas sim o outro.
E ainda mais agora que temos os blogueiros para fazer-nos essa tarefa (que deveria ser de cada um de nós).
Olhe meu caro, dar a cara é complicaaaado.

Anónimo disse...

Arsénio,
Acho que a minha observação, melhor, minha questão não foi muito bem interpretada.
Lamento pois não sou do time dos que não gostam de dar a cara e espera que alguem o faça por mim.
Abraços
ANF

JB disse...

ANF, não foste mal interpretado, pelo menos por mim. Até te dou razão. Os blogues estão meio moles. Deve ser do calor!

Na boa! Espero que isto não te inibe de continuares a participar. Esta é também a tua casa.

Abraço

zito azevedo disse...

Do meu ponto de vista, o blogue é um espaço colectivo intimista e tão diverso como a diversidade dos seus interpretes...Como membros das sociedades em que nos inserimos é nosso dever participar da sua vida, dos seus problemas, das suas vitórias, da sua politica mas, óbviamente, não só...Por vezes escrevemos só para nós, desabafamos, regressams à infância dos sonhos perdidos, ou sonhamos acordados um futuro que ninguém conhece mas que terá que ser construído hoje, connosco e com todos e contra ninguém...Nós também podemos - E DEVEMOS - inculcar nas nossas sociedades maculadas alguma decência, alguma alma, aguma vontade de acertar alguma razão para viver!

Ao Cabo e ao Verde disse...

Quem fala assim não é gago...
também gostei muito do texto.
Que paciência e gosto para escrever, explicar, encontrar as palavras e significados, dizer...que bom