Um Café com a Língua

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Dentro da cacofonia inconsequente que tem caracterizado o debate sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, vão aparecendo algumas posições e ideias que, não só contribuem para o debate por trazerem ideias novas, como incentivam a investigação e a promoção de medidas válidas e concretas para o avanço que todos querem na dignificação do crioulo. Na última semana apareceram duas posições sobre esta problemática que penso serem interessantee condensar neste modesto café:

1. Germano Almeida, que tem sido um dos maiores críticos da forma como o processo de oficialização tem sido conduzido defende uma ideia que, aparentemente, é paradoxal com o que vem defendendo nos últimos anos. Germano Almeida defende o ensino do português como língua estrangeira, uma vez que entende que a língua corre perigo, ao contrário do crioulo. O escritor cabo-verdiano considera que a língua oficial não é falada correctamente, apesar de ser o instrumento que mantém o povo cabo-verdiano em contacto com outros países. Germano de Almeida, em entrevista à Lusa, afirmou que no arquipélago há a ideia de que a população é bilingue, "o que não corresponde a verdade". (notícia completa, aqui)

2. O pessoal académico da Tertúlia Crioula, por sua vez, defende a necessidade urgente da implementação de um Instituto da Língua Cabo-verdiana. Por sua vez, José Luís Hopffer Almada, poeta e jurista, um dos defensores do projecto para uma língua cabo-verdiana, do grupo de trabalho que criou o alfabeto “Alupec”, para a sua escrita, lembrou os princípios da Unesco quanto ao respeito e aceitação das línguas maternas. Disse que “é necessário passar-se de uma diglossia para o bilinguismo” e que existe autorização legislativa para que o crioulo seja ensinado normalmente nas escolas em Cabo Verde. (reportagem, aqui)

Tudo isto é muito interessante e devo dizer que as duas posições acabam por ser até concordantes ou, no mínimo, caminham uma na direcção da outra. É que, se for implementado o ensino do português "como língua estrangeira", como afirma Germano, isso implicará necessariamente "que o crioulo seja ensinado normalmente nas escolas de Cabo Verde", como defende Hoffer Almada.





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11 comentários:

Amílcar Tavares disse...

Achar que a "língua corre perigo" mostra um Germano Almeida um bocadinho histérico. O problemas das duas línguas é um problema de ensino. Sem bom ensino não se aprende nada de jeito. Logicamente.

Anónimo disse...

Sobre este assunto vai ver aqui:
https://www.blogger.com/comment.g?blogID=8170189178078146878&postID=8590748222452604838&isPopup=true

Ao contrário do que diz o Amílcar, e não sou eu que o afirmo, o Germano não está sozinho nessa afirmação. Há risco de uma deriva qualitativa perigosa, cujo "estado da coisa", neste momento, ninguém é capaz de avaliar com clareza. Não sabemos, ninguém sabe ao certo, aonde estamos nem para onde vamos, embora haja sinais preocupantes no horizonte. Já vai sendo tempo de aparecerem estudos rigorosos sobre esta matéria (e não apenas estatisticas quantitativas para estrangeiro ver), sobre a qualidade do ensino tout-court, e em particular sobre o ensino do Português. Caso contrário não me admiraria nada que o ALUPEC, e a Língua Cabo-verdiana, venham a ser acusados do fracasso do ensino do Portugues em Cabo Verde. Kosta lárgu, kulpa rixu. O que seria ridículo. Numa coisa concordo com o AT. "Sem bom ensino não se aprende...".
Ab
Zcunha

Anónimo disse...

Somos meros tradutores. A não ser os que têm uma ligação directa com Portugal (pai, mãe, etc)...nesse caso também temos muitos que falam outras linguas estrangeiras. Quanto à escrita é variavel segundo o país onde se estudou (Brasil, etc...).

Alguém já perguntou porquê que temos uma fraca produção literária?

moreia

Amílcar Tavares disse...

Concordo com o Zcunha pois no mundo desenvolvido e civilizado o bilinguismo é considerado uma mais-valia enquanto em Cabo Verde é visto como algo prejudicial. Algo não bate certo.

Os cabo-verdianos são fraquinhos no domínio da Língua Portuguesa porque não há um ensino de qualidade. Nota-se o baixíssimo nível de redacção nos jornais e nos blogs, de dicção nas TV's e nas rádios.

O cenário em relação ao Inglês e ao Francês, então, nem se fala.

Mais do que insistir em fantasmas, Germano Almeida et al. deviam insistir num ensino que incentive, por exemplo, a leitura. Aproveitou-se o Prémio Camões de Arménio Vieira para se fazer isso? O próprio Germano Almeida se queixava no Expresso de que uma edição de mil livros aqui leva dois anos a esgotar-se...

Anónimo disse...

Parece que, finalmente, começamos a discutir esta questão com a seriedade que merece.

Anónimo disse...

Não é histeria! Pensa a médio prazo. A lingua portuguesa no nosso arquipélago, está, sim, em perigo!

Nox Lilin disse...

Isto nunca chegará a um consenso, pois não:

http://noxlilin.blogspot.com/2010/02/memorias-antigas.html

(minha posição - é demais para pôr aqui)

Anónimo disse...

Cara Nox Lilin,

O paradoxo é que quanto mais esperarmos pela unificação do crioulo (ou qualquer outra meta), mais díficil será conseguir salvar o português.

Já fui um defensor acérrimo do crioulo (pois acreditava que ele estava em perigo), até perceber aquilo que o Germano e outros estão agora a dizer.

Ou seja, por mais que tentemos melhorar o nosso português (dentro do status quo), o crioulo há-de estar sempre presente, assimilando tudo o que precisa do português e rejeitando o resto.

A tal "defesa descomensurada" de que Germano fala, virá do próprio povo que, pouco a pouco, está a distanciar-se do português enquanto acompanha e assimila esse crioulo em permanente evolução.

Cada qual pode tirar as suas próprias conclusões sobre porquê da perpétua degradação do ensino do português, mas o óbvio é que está a acontecer.

Acho que gente como o Germano começa a perceber isso e a pensar estratégias realmente capazes de recuperar o português.

No fundo, acredito que eles chegarão à conclusão de que só com a oficialização e ensino do crioulo, o quanto antes e não "um dia", conseguiremos ir a tempo de evitar a perda irreparável do português.

Cesar Schofield Cardoso disse...

Sim, eu sou dos que pensam que a língua portuguesa está em perigo em Cabo Verde, ou pelo menos está condenada a andar coxa se não nada se fizer no sentido de preservá-la. Mas sim, também penso que ela deve ser encarada como língua estrangeira, o que efectivamente é. A coisa é simples: não andamos por aí a falar português.

Outra coisa: apesar da língua caboverdiana ser a nossa língua natural, sim, precisa ser ensinada, enquanto sistema de comunicação que é, como forma de sabermos tirar partido disso, isto é, de sermos capazes de produzir cultura (literatura) em língua caboverdiana. Mas pessoal, portugueses estudam português, ingleses estudam inglês...todos estudam a sua língua e nós não porquê? Se calhar passa pelo simples facto de aceitarmos qual é a nossa língua.

Amílcar Tavares disse...

Gostaria de perceber como é que mecanismo automático de destruição da Língua Portuguesa enquanto a Língua Cabo-Verdiana se emancipa.

As pessoas que o apregoam têm como prová-lo? Há estudos académicos que provam por A+B que isso aconteceria?

Temos que começar a refutar com substância as alegações pois não percebo essa teimosa relação causa-efeito.

Carla disse...

O Germano defende que a língua crioula já devia ter sido oficializada. Como ele próprio disse na entrevista "era uma preocupação a menos".
A entrevista à Lusa faz parte de uma série de reportagens sobre a Língua em que se ouviu várias pessoas em Cabo Verde.
o Humberto Cardoso , por exemplo, defende que ao cabo-verdiano falta-lhe familiaridade com a língua, o que não deixa de ser verdade. Temos algum complexo realmente, com medo de sermos ridicularizados se cometermos alguma falha ao falar português e isso faz com que as pessoas só utilizem a língua de Camões quando realmente não há outro jeito (estou a falar de pessoas comuns).
Ah, e a propósito de português como língua estrangeira, é uma proposta feita por Filomena Martins quando era ministra da Educação que até teve algumas experiências piloto.
Nas entrevistas, todas as pessoas ouvidas concordaram que é necessário mudar a forma como se ensina o português em Cabo Verde...